Uma peça de Wagner Moreira.
Görlitz, Saxônia – Alemanha.
Maio de 2012.
Por Frederico Furtado
Observar o processo de delineamento nos palcos de um espetáculo de dança que realiza ao mesmo tempo um intercâmbio cultural entre dois paÃses, localiza e distingue duas cidades ao mesmo tempo que convida a reflexão individual intensa sobre o ser humano imerso na coletividade regularizadora das vidas é o parágrafo que abre este texto.
Venho da mesma cidade que Wagner, Barbacena, conhecida como a cidade das rosas e dos loucos. Imersos no contexto de destrato humano pela loucura dominadora capaz de encarcerar seres sem determina-los. Tentando determina-los loucos e tomando por isso a razão de exclusão social completa, segregação das vidas.
O primeiro traço original que percebo no espetáculo Bach-bacena é a ousadia de retirar a tampa desta discussão e coreografar a dança sutil dos quatro bailarinos na Alemanha, remontando a história de segregação humana deste paÃs e deixando a flor da pele no espectador a emancipação possÃvel da evolução consciente a cada momento, incluindo os de inconsciência plena.
Peguemos o ser humano enquanto criatura primária, barro existencial manipulável para sua realização em maturidade. Imaginemo-lo agora a partir da metáfora do copo d’água meio cheio ou meio vazio. Estamos prontos para conceber o elemento do balde como o recipiente de água limpa que simboliza o bailar entre consciente e inconsciente, a necessária pressão bilateral que coloca toda mente a prova de si mesma e sua capacidade de objetivar unilateralmente uma vida. O balde enquanto elemento forte e principal de cena é quem recebe adesivos com diversos estigmas sociais que se fazem presentes insistentemente na contemporaneidade. Do belo ao esquisito, do estrangeiro ao inteligente, todos estigmas são preconcepções e rotulações de percepções primárias que temos sobre todos.
Mescla-se a dualidade necessária do preto no branco, o que evidencia no contraste puro se camufla em momentos de penumbra. Na baixa luz as sombras geram monstros reflexos, desenhos disformes de nós mesmos, projeções que perpassam nosso inconsciente. Para que se exponha a função de transcendência da arte, da loucura, da dualidade da consciência e da vida, cabe também perceber na peça o bailar espontâneo infantil, a brincadeira de roda, o girar sozinho para ficar tonto.
E os baldes também giram, brincam também de roda e peão, e de repente se misturam, tanto, com tanta velocidade e envolvimento que se torna impossÃvel perceber onde cada estigma está, todos os baldes parecem simples e honestamente compartilhar de todos os estigmas que estão colados como se todas as peças balde fossem a mesma, do mesmo grupo, repletas das possibilidades de todas as peças conteúdos. Na mistura se perde a força individual de um estigma. Perde-se também a força original individual de apenas um balde.
Quanto mais se mistura é porque mais se gira, e gira e gira. Quando muito se gira se fica tonto. Quando tontos alguma distorção da realidade é vinda à tona impreterivelmente. É quando o público pode perceber visualmente e inconscientemente uma metáfora da raiz evidente do delÃrio, da falta de controle da consciência, imprescindÃveis para a mistura.
Em jogo de roda, em pega peão, girando sozinho ou em grupo cabe mão de manuseio. Algumas questões essenciais bem posicionadas são traços que determinam a evolução da peça Bach-bacena. O jogo de peões e o giro em roda, determinados por comandos de voz IN e OUT com projeção de jogo de bonecos ao fundo do cenário mostram de forma quase cômica a gestão social humana e sua manipulação direta realizada em todos os instantes da vida. Algumas provindas do micro ambiente, muitas estruturantes provindas do macro ambiente, denotando distanciamento interpessoal, passividade.
O mesmo jogo de IN e OUT é realizado por comandos vocais entre os próprios bailarinos, que ocupam o mesmo espaço. Este espaço sendo um teatro já é por si público, mesmo entre paredes. A metalinguagem do espaço se acentua sendo o palco o próprio espaço público ocupado pelos bailarinos que interferem um nas decisões e movimentos do outro, alternando entre ser ativo e ser passivo, sem que cada um perca sua possibilidade de movimento e espaço. Há então a convivência, a coreografia desenhada para quatro bailarinos que mostram comportamentos, ritmos e evoluções diferentes, desenham os personagens que são em seu composto fora e dentro do palco. Entendem-se, giram, deliram. O momento do delÃrio profundo é, muitas vezes, propÃcio para o surgimento da cura.
Se ao inÃcio da peça eles iniciam um desfile de múltiplas possibilidades de entendimento, indo da tragédia do assassinato humano ao mercado de desfile de corpos que a vida social também é, ao final da peça os bailarinos estão brincando entre água e rosas, deslizando juntos sobre o espaço que tentaram disputar, dando as mãos em meio que poderia ser tido como uma espécie de loucura leve, que cria e que cura. E assim ocupam o espaço da forma mais consciente possÃvel, compartilhando.
O mergulho, o salto no abismo, o autoconhecimento. Estigmas psicológicos similares sobre quem está sempre à beira do próprio abismo, seja da evolução profissional ou busca pessoal por transcendência cósmica ou o que valha similaridade de comparação. O mergulho das cabeças na água e a retirada de arranque são fundamentais. O salto interior no inconsciente trazendo à tona do indivÃduo seu lastro pre-recebido com o nascimento, suas experiências de vida e as decisões que precisa tomar. Ao sair da água a criança interior o acompanha, de mãos dadas, encharcada de mundo, perfumada por rosas.
Entendo, como depoimento de criador parceiro e público emancipado de roteiro, que ninguém está excluÃdo já que todos participam de um mesmo jogo orgânico, vivo, dinâmico, coabitado. Cada um ocupa um espaço e muitos espaços são ordenados externamente aos indivÃduos.
A sutileza do peso de um estigma define toda a compreensão de um ser.
O desnudar irrestrito mostra ou esconde mais quem somos? Iguala. Nivela pelo essencial. Mostra que temos casca e interior, somos continente e conteúdo. Para o pessimista meio vazio, para o otimista sempre meio cheio.
Ao entrar para o espetáculo algo importante ocorre. Os bailarinos recepcionam todos os espectadores, acompanhando-os até seus lugares e dizendo insistentemente que está tudo bem, que não tem nenhum problema acontecendo, e que qualquer coisa é só chamar. A diferença é que os bailarinos só retornam ao espectador quando eles mesmos querem. Esta estratégia cria um clima de alerta pelo que está por vir, um clima real. Nada mais justo e adequado já que cada detalhe da peça convida para reflexões pessoais intensas e não determinadas. O convite à emancipação do público reflete o convite feito à emancipação de cada bailarino em sua criação e improviso. A coreografia foi criada, porém cada bailarino representa um indivÃduo dentro de um quarteto, entre quatro paredes interativas – sendo três de público e uma de projeções audiovisuais. Quebra-se a distância possÃvel entre público e artistas de tão próximos que ambos estão, podendo ouvir respiração, sentir cheiro e ser respingado de água.
Quanta consciência há nisso tudo? Um balde de inconsciência poderia tentar responder.
A complementaridade de cada indivÃduo é capaz de emancipa-lo? Acredito ser esta uma proposta de Bach-bacena, com uma grande dose de ousadia performática contida no roteiro deste espetáculo de dança contemporânea que coroa a conclusão do mestrado do criador.
A temática da loucura evidencia a falta de conclusões eterna da contemporaneidade enquanto ponto de partida. Toda forma de se viver fora do eixo denota que a partir do desequilÃbrio se gera o movimento e com ele a ação, para avaliação posterior. Retratando o passado, gerando um filme para o futuro, este processo e momento garantem apenas uma coisa, não se encerrar em si mesmo.
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