BH Underground - 1980's

divulgação EM
videomaker rodrigo minelli
1
j. coelho larosa · Belo Horizonte, MG
10/10/2008 · 51 · 1
 

Seção : Cinema - 07/10/2008
Documentário retrata a efervescência cultural de BHDistante do clichê de década perdida associado aos anos 1980, Belo Horizonte foi palco de intensa movimentação cultural, geradora de importantes artistas da cena contemporânea

Walter Sebastião - EM Cultura


O videomaker Rodrigo Minelli está recolhendo material para filme sobre a efervescência cultural de BH nos anos 1980
“Se Minas Gerais é reconhecida nacionalmente como lugar de invenção artística na cena atual, isso se deve ao underground dos anos 1980â€, afirma o videomaker e professor Rodrigo Minelli. Ele se refere à agitação cultural a que BH assistiu entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990 em espaços alternativos. Misturando rock, poesia, artes plásticas, teatro, moda e, especialmente, evocações à vanguarda e à linguagem pop, a capital mineira se tornou berço de artistas importantes, como o cineasta Cao Guimarães, o videoartista Éder Santos e as bandas Sepultura e Pato Fu. Integrantes de grupos que desapareceram ou participantes de eventos realizados na época se tornaram produtores e incentivadores dos vários festivais internacionais de arte realizados na cidade.

O underground da década de 1980 é tema de documentário de 52 minutos do programa DOCTV, da Rede Brasil, em fase de pré-produção. Para recolher informações, está no ar o blog bhoitentas. Quem tiver qualquer material pode enviá-lo para o endereço www.bhointentas.ning.com, já apelidado de “boteco virtualâ€, referência ao principal ponto de encontro da turma. Projeto de Rodrigo Minelli e Lucas Bambozzi, o filme vai mostrar como surgiu o movimento.

Mas, o que o underground estimulou? “Tudo ou quase tudo que vemos hojeâ€, responde Minelli. Isto é: o rock e a arte experimental; a arte (e cultura) eletrônica e um novo olhar para o documentário; a videoarte; a pesquisa com novas mídias; o interesse por moda e por jovens estilistas. “Poucos têm a dimensão da importância da ação de jovens que, arriscando tudo, construíram, à força, um lugar para o que faziamâ€, afirma Rodrigo Minelli. Alimentada pelo existencialismo de Albert Camus (“não o de Sartreâ€, diz ele ), que entendia a vida como constante transformação, “a poesia marginal se tornou performance poética, levando à formação de grupos de rock, que puxaram clipes de shows. Assim nasceu a produção audiovisual de Belo Horizonteâ€, afirma, citando texto do poeta e cantor Gato Jair, vocalista do grupo Último Número, já extinto.

Era o tempo de poetas marginais (Marcelo Dolabela, Roberto Soares, Raimundo Nonato) e pencas de bandas de rock pós-punk: Divergência Socialista, Xiitas, Os Contras, Ida e os Voltas, R. Mutt, Os Meldas, Sexo Explícito, Hosana e Último Número, entre outras. Movimento forte era o heavy metal, a partir do selo Cogumelo. Havia quem misturasse tudo (texto, performance e música), como Os Baldes. “Paralelamente, começava a se esboçar o Skank, o Jota Questâ€, observa Minelli. Fotógrafos candidatos a cineastas (Patrícia Moran, Rafael Conde, Lucas Bambozzi, Fabio Cançado, Leo Vidigal) observavam tudo. Cartazes, fanzines e livros divulgavam e discutiam o feito. Para muitos desses artistas, o palco era o bar. Como o DCE da UFMG e outros de nomes exóticos – Complexo B, Trincheira, Incapazes do Nirvana, Canil, Kiek, Ãvida e “o próprio Bar do Luluâ€, lembra Minelli.

“Muito do realizado ficou nas gavetas e nas caixas, não circulou, porque era realizado de forma precária e não tinha espaço onde ser vistoâ€, observa. Na época não havia internet. Essa produção é muito mais ampla do que o pesquisador imaginava. Inclusive, ele vem recebendo informações de artistas que desconhecia. “O que pode parecer fracasso – isto é, não fez ‘sucesso’ de mídia – na verdade foi a opção de muitos: trabalhar à margemâ€, afirma.

A origem do fenômeno remete à política estudantil, sobretudo nas universidades, “mas incorporando quem estava chegando do movimento secundarista e quem tinha jogado a escola para o altoâ€, analisa. Papel importante cumpriu a chapa Onda, surgida no Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da Universidade Federal de Minas Gerais. Mais tarde, a Onda ganharia as eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG, dando origem à chapa Zap Cultural. Deve-se a elas a vinda a Belo Horizonte, pela primeira vez, dos destaques musicais da Lira Paulistana (Língua de Trapo, Premeditando o Breque e Itamar Assumpção) e de representantes do chamado BRock: Legião Urbana, Capital Inicial, Ira!. Além do pessoal do teatro, como o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. “Pela primeira vez, pensava-se a cultura como política, mas como outra política, a da subjetividade. O que era diferente das concepções culturais que vinham dos anos 1960â€, explica Minelli.

Ainda existe underground? “Existe. As pessoas não imaginam o quanto ele pode ser importante para o futuro da arte e da culturaâ€, avisa Rodrigo Minelli, satisfeito e surpreso com a receptividade a seu blog, que permitiu a localização de 338 fotos, 33 vídeos e 63 músicas. O projeto prevê a edição de livros, seminário e lançamento de discos.




John Ulhoa (C) e a banda Sexo Explícito: underground foi escola "e das boas" para jovens artistas de BH
PERSONAGENS


“Tinham preconceito, porque eu estava mais para hippie do que para darkâ€, recorda, com bom humor, o cinesta Cao Guimarães. Para piorar as coisas, ele gostava de Caetano Veloso, execrado na época de culto à melancolia e às várias facções do rock inglês ou do metal pesado. “A década de 1980 é bastante estranha, um pouco kitsch, afetada. Talvez só a área musical tenha mais personalidade. Identificava-me mais com a poesia marginal e com intervenções poéticas em bares. Gostava da autonomia delesâ€, diz o diretor, cujas obras têm sido exibidas nas principais mostras de cinema do mundo, como o Festival de Veneza.

A arquiteta Isabela Vecchi, prêmio de design do Museu da Casa Brasileira em 2005, também conheceu de perto o underground dos anos 1980. Têm a mão dela cartazes que marcaram época, como o da chapa Deus é doido, para o D.A da Fafich. “Não se ia a bares para beber, mas para saber das novidades. Era um sarau que funcionava informalmente. Quando alguém descobria alguma coisa, ‘aplicava’ os outrosâ€, conta.

Ela guarda até hoje o vinil pirata do Joy Divison, grupo cultuado que mais tarde daria no New Order. “Foi uma transição esquisita, até no gostoâ€, observa. Na turma dela, o quente era vestir preto, ser muito pálido e deprimido. “Achávamos que estávamos em Londresâ€.

O produtor e guitarrista John Ulhoa é personagem ilustre do período. Ajudou a criar os grupos Último Número e Sexo Explícito, tocou na Divergência Socialista (de Marcelo Dolabela) – todos com pessoas ligadas à poesia marginal. Esteve no Sustados por um Gesto, núcleo de onde sairia o Pato Fu, sua banda atual. “Tínhamos muitas idéias e tempo disponível para estar em todasâ€, brinca. “O underground, quando genuíno, é uma escola, estimula a ser original, a fazer som pessoalâ€.

Para ele, a dificuldade de informação contribuiu para a diversidade de sons. “Hoje, as bandas underground fazem quase o mesmo som do mainstreamâ€, critica, lamentando o contexto “cheio de uniformes, regrinhas e conservadoresâ€.

“Em 1980, estávamos criando um treco e pagamos um preço por tentar fugir dos clichêsâ€, conta John, citando a dissolução do Sexo Explícito. “Se a geração do fim dos anos 1980 deixou a sensação de que não aconteceu, na década seguinte conseguiu lugar ao sol decente, além de carreiras brilhantesâ€, compara, citando os artistas Marta Neves, Jimmy Leroy, Éder Santos e Lucas Bambozzi.


compartilhe

comentários feed

+ comentar
delen
 

Iniciando sua votação .

Parabéns pelo trabalho . Abraços...

delen · Cotia, SP 10/10/2008 12:26
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados