Cabelos

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geraldo52 · Camaçari, BA
10/7/2006 · 0 · 0
 

- Deve-se lavar o cabelo toda semana?, indaga repentina e inusitadamente o professor.
Os circunstantes, perplexos, quedam os tocos de velas ainda apagadas e entreolham-se curiosos e risonhos. Um robusto bebê míope, ainda com olheiras (pois era filho bastardo do burgomestre; além disso ele não ‘conseguia’ assobiar alto sem demonstrar angústia), ensaia um choro muito sentido (pois chovia forte naquele momento; além disso - curioso - esquecera os ‘seus’ óculos). Um senhor eslovaco, em grande dificuldade com a sua única gravata (era um triste: fora, coitado, injustamente condenado a sorrir candidamente a sua jovem sobrinha – uma húngara! - sempre que ela abrisse com suavidade e delicadeza a sua sombrinha cor de rosa. Revoltado, apelara ao tribunal e perde: agora deveria também sorrir de forma enigmática e nebulosa todo dia santo às 10:35 horas ao guarda de trânsito mais próximo, um tal de sargento Silas), o senhor anuncia, solene e um pouco circunspecto (era meados de novembro, vê-se; mais: ‘incompreensivelmente’ ainda estava aprendendo a tossir com discrição), que estava muito, muito gripado e poderia ir ao médico mas só depois, claro, de decidir se o universo está ou não em expansão (...e como ‘aquele’ buraco negro seria uma realidade inexorável, Deus, coitado, sofria solitário: já não havia querubins para assessorá-lo, bajula-lo...via-se perdido, e, estranhamente, alegre...mas, registre-se, deuses não gargalham, sorriem; e ‘aquele’ Deus, um infeliz, um ‘erudito’, pois nem sombra tinha). E, se, lógico, a eternidade (... sempre ‘ela’...) também não poderia existir durante o fim de semana e aos feriados, perguntavam-se, risonhos, ‘certos’ e ‘ilustres’ convidados (e o odontólogo presente, aquiesceu, a contragosto, pois, afinal, ‘aquela’ rosa não era a sua; aliás, as ‘flores’ jamais seriam suas, pensou, com um suspiro e um riso irônico: era o passado que retornava, eram as ‘suas’ ‘rosas do deserto’, era o seu ‘verdadeiro’ amor...; aliás, adiante-se, jamais gostara de anjos buliçosos ao seu redor, muito menos em dias de névoa). Há, decerto, uma certa opressão no ambiente (explicável: ninguém ali sabia fitar a felicidade bem nos olhos), uma agonia indefinida e etérea (um pouco rósea, é verdade e com discreta fragrância de almíscar), um gosto pesado de chumbo na boca - via-se isso nitidamente pela mucosa azulada da irmã Talma (a ‘discreta’, a que ‘apreciava’ verduras e que ‘aceitava’ a neve apenas as quarta feiras, depois de ler o jornal do dia), também conhecida por suas palestras de como receber o correio em dias de chuva e de sua conhecida tese de mestrado “Como ensopar o nariz pensando em Deus†- mas isso não impede que duas adolescentes alegres e risonhas (‘fingiam-se’ felizes, claro) disputem um único copo de leite desnatado (... não era dia de feira ou revolução... e o cabo Anselmo – ele! - estava de folga... mas era carnaval, lógico).

Insisto: deve-se lavar todo o cabelo toda semana? (o professor insistia, teimoso – era um iracundo, pior: nem escovava os dentes! – afinal, estava em jejum, aborrecido e, incrível, nem bebera sua limonada!; além do mais chegara atrasado ao infinito e não encontrara uma única vaga no estacionamento; mais: tornara-se, ultimamente e inacreditavelmente incapaz de ver o por do sol e sentir angústia ao mesmo tempo – no entanto, registre-se, ainda sabia coçar o dedão do pé esquerdo após aplausos demorados)
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- Depende, responde, para surpresa de todos, um jovem espectador, um ser inusitado que tomara emprestado 1/3 do pulmão esquerdo de seu melhor amigo para utilizá-lo em eventuais crises de asma. “Acaso tens fé em Deus?â€, continua o rapaz, já empolgado e um tanto atrapalhado com seu cadarço solto, em meio a alusões desproporcionadas ao fundamentalismo (suas pestanas eram postiças, evidente. E suas botinas estavam molhadas de chuva e sujas de musgo, pois chegara muito perto do zênite, embora aquém do horizonte – todas as tardes, adiante-se, às 14:27 horas, ‘ele’ tinha ‘suas’ unhas encravadas). Quantos anjos habitam o céu no turno da manhã? E qual a distância média – em jardas – entre os limites do inferno e do céu? Qual a verdadeira distância entre o hoje e o amanhã? E a inutilidade de um sol brilhando durante o dia? E quando toca o telefone ao mergulharmos ‘naquele’ lago? Os mortos, senhores, o que fazem os mortos 5 minutos antes do desjejum? Logo ao atingir a eternidade pode-se, talvez, descansar num banquinho mesmo que seja de madeira de lei? E ao chegar-se ao infinito as mercearias ainda estarão abertas? (é muito triste beber um refrigerante no infinito). E Deus, acaso Deus pode ver-se no espelho de sua penteadeira? E deve ver-se? E a alma, senhores, será finita também às quartas-feiras? Vou além: existirá talvez onipotência durante o carnaval? E a ubiqüidade depois de um dia de muito trabalho? A temperança durante a sesta? A serenidade sob um araçazeiro carregado? Ou a tristeza de uma bailarina desempregada? A lágrima de um palhaço russo traído? Ou a santidade dentro de um porão às escuras? E a ambigüidade, combina talvez com a desilusão? E os micos, senhores, eles podem ou devem jantar a noite? Um suicida, ao cair de um despenhadeiro, pode ver-se ao espelho? E deve? Ou talvez o mesmo suicida, noutra oportunidade, ao enforcar-se, tranqüilo, continuaria a possuir uma sombra ‘ilusória’? (Pois os suicidas não devem possuir sombras ‘reais’; os suicidas, revele-se, seriam seres imaginários e fantásticos, oriundos talvez da Atlântida, da Mesopotâmia) E os suicidas, de modo geral, costumariam ter horário rigoroso para o almoço? Vou mais além, serei radical: aos suicidas é-lhes permitido sentir tédio ou angústia? (e porque o suicida, ao cair, não afrouxa a ‘sua’ gravata? E porque nenhum suicida gosta de pipoca com pouco sal?) E deve-se, insisto, oferecer água com açúcar a todo suicida? (claro, os suicidas, é uma grande verdade, não suportam filmes de bangue-bangue nem tampouco de torradas ao café da manhã) E, lógico, fundamental, também os suicidas devem lavar o cabelo toda semana? Perguntas, muitas perguntas...
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