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Cenas

1
Dora Nascimento · Olinda, PE
7/9/2006 · 9 · 0
 

O ambiente está tomado por uma atmosfera translúcida. A m´´usica enche o lugar com uma voz de mulher machucada entoando palavras duras. Em tudo ali, uma cor viva demais, uma oitava acima do seu verdadeiro e usual tom. Como se tudo ali tivesse sido recém-pintado, recém-colocado para uso contínuo, diário. Aquelas mesmas coisas, aquele mesmo ambiente, mas com um quê de arrumado para alguma ocasião, tudo meio simulado.
Laís ouve a canção que - para ela, naquele momento da sua vida - é como se fosse um pensamento absolutamente seu. Ouvia aquela canção e se perdia dentro do vevaneio das palavras musicadas enquanto isso, mantinha aquele titmo hábil de fazer as coisas de sempre, lavar os pratos, preparar o almoço... Seria a mesmice de sempre, não fosse aquela estranha sensação de que algo lhe fugia ao entendimento...
Então, no exato instante em que a voz da mulher cantou aquela frase como um insulto: "... E eu me sinto uma imbecíl, repetindo, repetindo, repetindo..." Desíre entra na cozinha e diz: "Oi."
Laís quer responder, mas parece que há uma eternidade de distância física que o seu "oi" terá que atravessar. Enfim ela consegue ouvir a si mesma respondendo um mero: "Oi." E fingir que aquele "oi" é tão somente uma mera formalidade, boas maneiras, educação, qualquer coisa desse tipo. Mas por dentro havia um misto de vislumbre ínfimo de que tudo passasse, e um ódio absoluto em pensar que Desíre pudesse estar capturando a sua verdadeira emoção. Sua emoção, aliás, não é a única coisa que não é real ali.
Desíre entrou para beber água, mas resolveu se demorar enchendo uma garrafa com água do filtro, e Laís contorcendo-se de tanta agonia em manter uma empáfia em todos os seus gestos, e até mesmo no tom da voz, embora que sutilmente. De repente quebra-se drasticamente aquele pesado silêncio. Aquele silêncio cortado apenas pela voz da mulher que continuava cantando, e até essa voz é calada momentaneamente, enquanto ela ouve apenas a voz de Desíre que que fala: "A nossa música não é essa, é a da faixa oito, ou sete, não sei..."
Laís completamente desnuda de todos os disfarces que vem usando por todos aqueles dias, desmorona na certeza de que aquilo é um sonho. Ela então acorda dentro do son ho, para dizer a si mesma: "Isso é um sonho. Olhe à sua volta, nada faz sentido real neste cenário que você sabe de cor, das cores aos odores. Parece que vocês estão dentro de um David Linch de tão quase bizarro que está tudo aqui. Tudo está fora do normal, o ambiente, os objetos, a luz que adentra pelas janelas é uma luz que vem de um sol fictício. As formas, os elementos, os objetos triviais estão alterados em suas cores e disposições. O mosaico branco e preto do chão formando um imenso jodo de xadrez de uma nitídez luzindo à novo. As coisas todas deste cenário configuradas em formas exageradas, absolutamente fora dos padroões familiares, mas continuando sem perder suas verdadeiras existências, como se tudo tivesse sido maquiado, a realidade maquiada. O chão, a mesa com as três cadeiras, o armário, o balcão, a pia, a geladeira, o fogão, e até mesmo o Jota Borges e o Miró que estão dependurados nas paredes, tudo compondo um cenário. Você está estática, pisando um quadrado preto do mosaico, e Desíre está à quatro filas atrás de você, enchendo uma garrafa e pisando um quadrado branco. e apesar disso, a distância entre vocês parece abissal, intercalada pelo preto e o brancoo como o antagonismo do perto e do longe, do possível e o inatingível, do imparcial e o passional, do passivo e do explosivo, . Por isso, viva tudo agora, mas viva sabendo que é um sonho apenas, ainda mais agora que a música mencionada por Desíre - e você tem a certeza de que sabia qual era a música - começou a tocar sem que vocês tenham saído dos seus respectivos lugares para ir até o aparelho de som e mudar a faixa. Isto é magia, ilusão, delírio... Acorde antes que você comece a querer acreditar na possibilidade de isso estar realmente acontecendo!"
Mas Laís não quer acordar, ela quer continuar ali, ficando fraca o suficiente para que Desíre perceba que a atingiu indubitavelmente no seu ponto vunerável. Uma canção que ela em segredo decretou como a trilha sonora daquela dor que estava esgoistamente sentindo, a dor de não saber definir exatamente o "quê" ela sentia por aquela pessoa que ultrapassou as fronteiras da amizade e a golpeou indefinidamente
(continua depois)

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