Conexões litero-amazônicas

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Edgar Borges · Boa Vista, RR
18/9/2011 · 1 · 0
 

A importância das políticas públicas de apoio à literatura


No primeiro semestre deste ano um grupo de fomentadores da cultura literária visitou comunidades indígenas de Roraima realizando rodas de leitura, divulgando autores locais e levando diversas manifestações artísticas geralmente restritas à área urbana de Boa Vista.

O trabalho foi realizado pelo Coletivo Arteliteratura Caimbé em parceria com vários agentes culturais, entre eles poetas, músicos e contadores de histórias.

O projeto Caminhada Arteliteratura, coordenado por este que vos escreve, permitiu a interiorização da produção literária regional e o contato dos moradores das comunidades indígenas Campo Alegre, Vista Alegre (município de Boa Vista), Boca da Mata e Sorocaima II (Pacaraima) com escritores e oficineiros que apresentaram a literatura de uma forma lúdica e prazerosa.

A iniciativa foi possível graças às políticas públicas federais de incentivo à leitura e literatura. O projeto foi um dos cinco premiados na região Norte com a Bolsa Funarte de Circulação Literária 2010, concedida pelo Ministério da Cultura para ações realizadas nos Territórios da Cidadania. Além de Roraima, o projeto foi levado às cidades de Palmares (PE) e Novo Lino (AL).
Toda a jornada está registrada no blog do projeto. Resumidamente, foram 27 rodas de leitura e sessões de artes plásticas; mais de mil crianças, jovens, adultos e idosos participantes; aquisição e distribuição de kits totalizando 264 livros de escritores roraimenses; micro-oficinas de produção literária poética, musicalização, declamação poética e contação de histórias; e a implantação e fortalecimento de 5 bibliotecas comunitárias em comunidades indígenas, sendo esta última ação fruto de uma campanha que recebeu doações de livros vindos de várias regiões do País.

As atividades também tiveram a participação de pessoas vindas de outros estados: o artista plástico José Napoleão (MG) e o arte-educador Jonas Banhos (AP) promoveram o intercâmbio e a criação de redes culturais que fortaleceram mutuamente o trabalho destes indivíduos e do Coletivo Caimbé.

Finda a etapa financiada pela Funarte/Ministério da Cultura, a Caminhada Arteliteratura não cessou. No final de agosto e início de setembro, este redator foi ao Amapá ministrar oficinas de criação poética, apresentar os poemas e micronarrativas da Mostra Curt@s Histórias e Poesias e consolidar a conexão litero-amazônica do Coletivo Caimbé com o Movimento NossaCassa de Cultura e Cidadania, representado pelo arte-educador Jonas Banhos.

A viagem foi motivada pelo evento Pororoca Cultural, um mix de literatura, cinema e troca de saberes tradicionais realizado por Banhos em três comunidades do rio Macacoari como parte do projeto Mochileiro Tuxaua, selecionado pelo Governo Federal no Prêmio Tuxaua Cultura Viva 2010.

A Pororoca Cultural e a Caminhada Arteliteratura têm em comum vários aspectos: focadas em públicos fora das áreas urbanas, com grande carência de eventos que misturem artes, literatura e cultura, são tentativas de mudar o quadro de pouca leitura encontrado em todas as regiões do Brasil, principalmente nas zonas rurais, onde os professores e as comunidades ressentem-se da falta de investimentos e incentivo à educação. As duas iniciativas também foram selecionadas pelo Governo Federal por meio de processos democráticos e apartidários, sem favorecimentos políticos, conforme pregam as regras dos editais de bolsas e prêmios.
Este tipo de gestão cultural instituída pelo Governo Federal deveria ser uma postura adotada em todas as esferas do Poder Público. Editais de incentivo, com critérios claros e justos de seleção, são a forma mais correta de apoiar iniciativas de indivíduos, organizações formais ou informais que atuam na área cultural.

Neste momento, quando o Governo Federal trabalha para implantar definitivamente o Sistema e o Plano Nacional de Cultura, que trarão consigo uma nova forma de gerir as atividades no setor, é preocupante a leniência de Estados e Municípios em inserir-se neste processo. Os gestores públicos da área cultural precisam acordar para a nova realidade que está sendo construída no Brasil. Quem faz cultura literária não quer mais ficar sendo humilhado no balcão de trocas de favores ou perdendo tempo precioso atrás de patrocínios via leis de incentivo fiscal.
Somente assim, mudando o paradigma da gestão cultural, iniciativas como a Caminhada Arteliteratura poderão ser reproduzidas e ter continuidade, levando livros e alegria para lugares além das fronteiras das cidades. É lá, sem esquecer as periferias, que estão os invisíveis sociais que precisam deste tipo de ação. É lá, longe, que o Poder Público deve também focar novos investimentos, realizando projetos contínuos e sólidos e apoiando quem se propõe a trabalhar com literatura.

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