Desconstrução: um estado possível

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Phyl D. Martins · Belo Horizonte, MG
10/1/2013 · 24 · 1
 

QUEBRA

Continuar a ser clandestino consigo mesmo havia se tornado um fardo cômodo, uma dor de cabeça ininterrupta e que desaparecia por conta das demandas diárias. Era sempre aquele repertório de símbolos emitidos a partir do senso comum, na tentativa de burlar o regime sexista e discriminatório nos setores socias. Esses símbolos lhe proporcionavam segurança e fomentavam a sua permanência na zona de conforto. Afinal, expor-se para que? O silêncio lhe garantia a autonomia de ir e vir, de ser filho, irmão ou amigo, de se conviver. Era como vagar dentro de uma casa arenosa, de bases úmidas, mas, de toda forma, ele já estava feito, oco, levando à frente suas pendências da maneira menos comprometedora possível.

O contexto da situação apontava que mudanças não aconteceriam sem a influência de estímulos externos, e a causa disso foi a inércia de uma fórmula social acertiva que controlava a calmaria alheia. Seus pais, a irmã e o pastor estavam assentados no altar, esperando, cheios de argumentos, para lhe mostrar o caminho do Céu. Nenhum deles eram coerentes fora da doutrina religiosa. Finalmente, os estímulos externos descontruíram a estrutura gasosa que o compunha, a oportunidade única de se reconstruir. Ali, uma pequena roda se formou e o fluxo de informações livres colocaram em cheque a validade da semiótica construída durante 17 anos.

Já dentro do carro, não houve palavra sequer. Tanto ele, quanto os pais e a irmã permaneciam reflexivos, num processo de planejamento interno, reverberando o ruído seco de uma quebra.

REMONTA
Apesar de parecer depressiativa, a situação era munida de cores e de uma felicidade referente à libertação. As reflexões o induziam a considerar várias mudanças, rotas diferentes deveriam ser traçadas. Ao todo, foram oito palavras lançadas na roda de conversa que o redefiniram: “Eu não vou me casar uma mulher” Agora ele era uma gay assumido, uma pessoa exposta à homofobia, com agressões físicas, xingamentos nas ruas, e constrangimentos em família. Isso pouco importava já que para todo ponto há um contraponto agressivo. Deixando a reunião com o pastor da igreja, soube aproveitar as horas mais proveitosas de sua vida, em detrimento de todo o medo que vinham se arrastando desde sempre. Pelo contrário do que se pode imaginar, ele em nada se mostrava triste, pois enxergava o Mundo num campo criativo e imaginário. Só temia por conta das retomadas que deveria fazer em si mesmo e sobre como lidar com entorno. Certamente redimensionamentos ocorreriam igualmente à qualquer reforma de edificação falha. Em um ato simbólico da vida, as janelas do carro engoliam a paisagem, novas imagens chegavam a todo instante para alimentar o ciclo de renovação.

Mais ele do que nunca, o rapaz seguia restaurado, atônito, incoscientemente preparado para os pontapés que viriam duas semanas depois.

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Favelada do Alemão
 

muito massa! a desconstrução sempre é possível!
Parabéns pela coragem, continue em frente!

Favelada do Alemão · Rio de Janeiro, RJ 10/1/2013 14:29
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