Dom Helder: o Santo Rebelde e Revolucionário

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Beto Leão · Aparecida de Goiânia, GO
22/7/2006 · 65 · 0
 

O documentário de longa-metragem "Dom Helder - O Santo Rebelde", de Érica Bauer, em cartaz no Cine Cultura,em Goiânia, narra a trajetória de Dom Helder Câmara, um dos líderes político-religiosos mais importante e polêmico do Brasil no século XX. Ao longo de sua vida Dom Helder foi um incansável combatente à ditadura militar implantada no Brasil e também defensor de uma igreja católica mais próxima ao povo.

Ao ver d. Helder, com toda a sua vitalidade, defendendo a igreja como instrumento de concientização do povo, sonhando com o papa fechando o Banco Ambrosiano do Vaticano e distribuindo todo o seu capital aos pobres do mundo, me vieram à mente as palavras de Milan Kundera, proferidas através do seu personagem Kostka, do romance “A brincadeira’’ (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1967): “Antes de fevereiro de 1948, meu cristianismo agradava aos comunistas. Eles gostavam muito de me ouvir explicar o conteúdo social do Evangelho, esbravejar contra esse velho mundo carcomido que se demonstrava sob seus bens e suas guerras, e demonstrar a semelhança entre o cristianismo e o comunismo. Para eles, tratava-se de atrair para sua causa o maior número possível de pessoas e, portanto, também aqueles que tinham fé. Mas, depois de fevereiro, tudo começou a mudar. ... Muitos cristãos, católicos e protestantes, não me perdoavam. Consideravam uma traição eu ter-me solidarizado com um movimento que tinha o ateísmo como bandeira. Por seu turno, vozes comunistas se elevaram para dizer que um homem com condições religiosas tão definidas não podia educar a juventude socialista.â€

O escritor tcheco, que publicou seu romance na Primavera de Praga, em 1967, sustenta que “as igrejas não compreenderam que o movimento operário era a escala dos humilhados e dos necessitados, famintos de justiça. Elas não se preocupavam em instaurar, com eles e para eles, o Reino de Deus sobre a Terra. Aliaram-se aos opressores, e assim tiraram Deus do movimento operário. E pretendem censurar o movimento por não ter um Deus! Que farisaísmo! E claro que o movimento socialista é ateu, só que eu vejo nisso uma reprovação divina, dirigida a nós! Reprovação pela dureza com que tratamos os miseráveis e os sofredores. É claro que as teses do marxismo têm uma origem profana, mas o alacance que os comunistas de primeira hora lhe atribuíam era comparável ao alcance do Evangelho e dos mandamentos bíblicosâ€, como diz Kostka.

Em nossos dias, a religião continua sendo um fator típico da inteligência humana. Mesmo os que se dizem ateus cultivavam o Absoluto sob formas leigas ou secularizadas. É o caso do comunismo, ao qual o judeu Karl Marx deu a estrutura de um messianismo sem Deus; o proletariado sacrificado na luta de classes seria o Messias, que, morrendo, prepararia o surto de um homem novo, morigerado e pacífico. As categorias religiosas do judaísmo foram transpostas por Marx para o plano da sociologia e da política; sobrevivem, porém, no esquema do pensamento marxista – o marxismo cultua religiosamente certos valores meramente humanos ou profanos. Este esquema caricatural já não satisfaz a muitos comunistas de hoje e o senso religioso, inato em todo homem, vem de novo à tona, apesar das tentativas de erradicação a que o marxismo o submeteu.

Ora, até nos desvios o cristianismo se assemelha ao comunismo. Assim como Stalin mandou fuzilar comunistas fiéis que criticaram seus atos sanguinários, também os cristãos mostraram sua faceta sangrenta em diversos momentos da história, como nas Cruzadas e na Inquisição. Ao se dividir em diversas denominações, o cristianismo deixou de olhar para o Evangelho e cada uma das várias igrejas passou a olhar para si própria, para o poder e para o ouro. O stalinismo, ao afastar-se dos princípios básicos do socialismo primitivo humanitário - o mesmo que d. Helder pregava -, colocou o Estado acima da coletividade. Os valores de justiça, paz, solidariedade, de uma sociedade igualitária deixados por Cristo foram esquecidos, tanto pelo cristianismo, como pelo comunismo, que deixaram de priorizar o ser humano. Do mesmo modo que a Igreja Católica prega que Deus é uno e trino, o Estado deveria reconhecer o homem enquanto indivíduo e coletivo, respeitando-o individual e coletivamente.

Na minha modesta opinião, tanto a doutrinação dogmática do marxismo quanto a evangelização dogmática do cristianismo caminham na mesma direção: privilegiar a história dos homens em seu compromisso pela transformação social em função do projeto de uma nova sociedade menos injusta e desigual. Ou seja, marxismo e cristianismo são faces da mesma moeda. Tomemos como exemplo o clássico “A Utopiaâ€, de Tomás Morus (1478-1535), católico fervoroso decapitado no reinado de Henrique VIII e canonizado pela Igreja Católica em 1935. Morus teve a particularidade de ser cultuado tanto pelos cristãos, quanto pela Revolução Russa, que lhe erigiu uma estátua em homenagem às idéias socialistas de sua célebre “A Utopiaâ€, em que descreve um Estado imaginário sem propriedade privada nem dinheiro. Humanista e jurista, o ex-chanceler do Reino da Inglaterra mostrou nesta obra toda a sua preocupação com a felicidade coletiva e a organização da produção, mas de fundamento religioso, bebendo na fonte de “A República†e “As leis†de Platão. Lançou, assim, as bases do socialismo econômico, ao cunhar a expressão"utopia", dando início a um gênero literário que faria fortuna nos séculos seguintes, desde “A Nova Atlântidaâ€, de Francis Bacon, e “A Cidade do Solâ€, de Companella, até os escritos dos socialistas do século XX, chamados utópicos.


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