Após cerca de um mês em recesso, volto a colaborar aqui no espaço do Overmundo. E, como acontece de ser a última publicação do mês, reinicio minha "jornada" recordando mais um momento histórico da teledramaturgia brasileira.
Por sugestão do leitor Marcelo V., retornamos ao ano de 1986. E a teledramaturgia contou... Roda de fogo.
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Em 1986, o Brasil convivia com alterações polÃticas e estruturais significativas. Era o ano da primeira eleição direta (a eleição para presidente, ocorrida no ano anterior, havia sido por um colégio eleitoral no qual o ocupante do cargo foi escolhido através do voto de deputados e senadores), o perÃodo militar e a censura implacável que atingiam também os escritores de novela ficavam para trás. Neste contexto, a TV Globo investiu em uma trama que recortava caracterÃsticas do paÃs na década de 1980 (chamada de "década perdida" por muitos economistas).
Em 25 de agosto de 1986, o horário das 20h começou a exibir Roda de fogo, um tÃtulo condizente com a história que expunha movimentações criminosas presentes em muitas empresas do paÃs - falcatruas, corrupções (atribuÃdas inclusive a polÃticos) e chantagens. Na novela de Lauro César Muniz, escrita por Lauro César Muniz e MarcÃlio Moraes (ambos estão atualmente escrevendo para a TV Record - Lauro assinou Cidadão brasileiro e MarcÃlio, a recém-findada novela das 22h, Vidas opostas) a partir de sinopse criada pelos escritores da Casa de Criação Janete Clair, estava o cotidiano do grupo empresarial presidido por Renato Villar (vivido por TarcÃsio Meira).
Responsável por crimes como o desvio de dólares para o exterior e até mesmo o assassinato de um amigo que podia arriscar sua reputação, Renato se aproximava da juÃza Lúcia Brandão (papel de Bruna Lombardi), com a intenção de suborná-la para não condená-lo pelas irregularidades descobertas em uma de suas firmas. No entanto, o empresário e a juÃza acabavam se apaixonando, e ela, uma juÃza incorruptÃvel, se via diante do dilema de julgar o homem que ama.
Ao descobrir que era portador de uma doença incurável, Renato Villar tinha uma mudança extrema seu comportamento, tentando se redimir dos males que fez. Ele terminava seu casamento com Carolina (interpretada por Renata Sorrah) para viver o romance com Lúcia, e tentava conquistar o amor de Pedro (papel a cargo de Felipe Camargo), seu filho com Maura Garcez (vivida por Ewa Wilma, que recebeu elogios por sua interpretação para a personagem), uma ex-guerrilheira.
Em tempos de abertura polÃtica, Roda de fogo trazia à cena personagens que eram conseqüência do perÃodo militar - uma mulher que fez parte da guerrilha de oposição ao regime e alguns personagens decadentes, como um ex-torturador e um militar aposentado. Mas a ênfase que mais atraiu o público foi a vingança do protagonista, que planejava eliminar um a um todos os integrantes do grupo financeiro que o traÃram.
A luta pelo poder (recheada de vários assassinatos) destacou o advogado Mário Liberato, que, na interpretação de Cecil Thiré, se tornou um personagem inesquecÃvel na história da teledramaturgia. O ator TarcÃsio Meira também teve sua interpretação consagrada, a ponto de seu Renato Villar passar a receber a simpatia dos espectadores, que escreviam cartas pedindo sua sobrevivência ao final da trama (o que não aconteceu).
Em meio ao elenco cheio de atores consagrados (Paulo Goulart, Joana Fomm, Hugo Carvana e Mário Lago foram alguns deles), o ator Osmar Prado conseguiu destaque, no papel de Tabaco - a parte humorÃstica da trama. O motorista, que tinha relacionamentos amorosos ao mesmo tempo com três mulheres, teve um final consagrador, no qual suas três namoradas apareciam vestidas de noiva em seu casamento.
Roda de fogo, que teve seu último capÃtulo exibido em 21 de março de 1987, se tornou uma das novelas que caracterizavam os novos ares da República. A novela de Lauro César Muniz foi uma das primeiras a abordar o cerne das conseqüências do capitalismo selvagem - despertando, inclusive, a irritação dos advogados, que diziam que alguns personagens feriam a dignidade da profissão.
Algumas curiosidades: no ano de 1990, Roda de fogo foi reapresentada na sessão Vale a pena ver de novo (atração vespertina da TV Globo na qual novelas bem sucedidas são reexibidas), e dos 179 capÃtulos originais, a emissora reduziu para 34 - e, até o momento, é a novela que, em sua reprise, foi a de menor duração. O logotipo de Roda de fogo (na foto) foi utilizado pela equipe do programa humorÃstico TV Pirata, que, dentre os seus quadros, criou a "novela" Fogo no rabo, da qual saiu o até hoje cultuado personagem Barbosa, vivido na atração por Ney Latorraca.
Fontes consultadas:
Livro
Memória da telenovela brasileira, de Ismael Fernandes
Site
Teledramaturgia - www.teledramaturgia.com.br
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