Falcão - Meninos do Tráfico Sociologia do Oprimido

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Wanfil Pereira · Fortaleza, CE
5/4/2006 · 1 · 0
 

Falcão - Meninos do Tráfico: ideologia e legitimação


"Vamos deixar de dourar a pílula com essa sociologia do oprimido. Lugar de 'meninos do tráfico' é no reformatório."


O programa Fantástico, da Rede Globo, levado ao ar no dia 19 de março, editou e reproduziu o material gravado em comunidades pobres pelo cantor (?) de rap MV Bill e pelo produtor Celso Athayde, com o título de Falcão - Meninos do Tráfico, tratando sobre os jovens que trabalham para o narcotráfico. Depois a emissora convidou "especialistas" como cineastas, autores de telenovelas e atores famosos para analisar as imagens e a dita realidade que lhes foi apresentada. Se qualquer um pode dar o seu pitaco, eu também me senti autorizado a tecer algumas observações sobre a matéria.


As imagens de jovens menores de idade vivendo o pesadelo de fazer parte de um mundo de horrores chocaram a todos, sem dúvida. O programa, no entanto, centrou foco apenas nos depoimentos de jovens que trabalham para o tráfico e alguns de seus familiares. Os telespectadores foram avisados, mais de uma vez, que o propósito daquele trabalho não era o de fornecer diagnósticos ou prognósticos, mas somente o de escancarar uma realidade que paira acima dos discursos, dispensados pela prova material das imagens, para que cada um pudesse tirar suas conclusões, conforme explicaram os seus produtores.


Premissa falsa

No entanto, a premissa de se evitar um discurso para manter a isenção mostrou-se falsa. Em cada fala dos entrevistados, na edição das imagens, na seleção das experiências escolhidas como emblemas, na reunião de tudo isso, uma mensagem subjacente se fez presente o tempo todo: o da legitimação da opção pelo crime, na medida em que se transformava o próprio crime em destino inevitável (não sendo mais uma escolha), e o criminoso em mera vítima das relações sociais vigentes. A sensação, ao término do programa, era a de que todos são culpados, menos os traficantes que aliciam menores, que cooptam jovens por meio da coerção e da sedução. Infere-se que a causa de tudo seria uma equação que soma pobreza e desestruturação familiar. Mas isso não pode ser encarado como um determinante absoluto, de tal modo que outros dados do problema, como o livre-arbítrio e a legislação permissiva, sejam esquecidos ou eliminados. De outra forma, teremos sim o condicionamento de uma visão ideológica nada isenta.


Ideologia

A obra, em seu conjunto, apela para a exaltação indireta de um discurso ideológico que versa sobre a prevalência do social sobre o indivíduo. É uma tese de esquerda, que as pessoas podem ou não concordar, mas não é a única que existe. A distinção da natureza da abordagem do problema é fundamental para qualificar as suas possíveis propostas de solução. Hoje o debate está inteiramente alocado dentro de uma determinada visão sobre a sociedade. Por exemplo: curiosamente, não vimos parentes dos jovens inocentes que morreram pelas mãos dos jovens do tráfico sendo entrevistados. O que será que eles pensam a respeito das motivações alegadas pelos criminosos? Será que eles também não vivenciam experiências semelhantes e nem por isso optam por traficar e matar? Ora, esse tipo de indagação carrega consigo o inconveniente de desmistificar, pelo menos em parte, algumas das justificativas dadas que se insinuam na narrativa. Afinal, comparando os casos, é óbvio que nem todos que possuem aquela origem viram bandidos por razões exclusivamente alheias à sua vontade pessoal, uma vez a maioria que não entrou nesse universo degradado. Num dado momento, um dos entrevistados lamentou o destino de não poder ter sido palhaço, enquanto as câmeras filmavam seus olhos embotados de lágrimas. A ninguém ocorreu a idéia de perguntar aos palhaços do circo filmado sobre a infância deles próprios, sobre as dificuldades enfrentadas por cada um, porque não se tratava de investigar causas, mas sim de se consolidar uma versão. Outra ausência: jovens viciados de classe média que vão comprar drogas também não foram escutados, apesar de vivenciarem o outro lado desse drama, mesmo sem passar necessidades materiais ou sequer sofrer abusos na infância. Ocorre que isso jogaria por terra a noção de classe social discriminada... A revelação de que a droga não destrói apenas as vidas dos jovens favelados não era, portanto, interessante, por desviar o olhar pré-estabelecido pela ideologia que promove o ódio entre as classes.


Outro ponto inquietante: o rap MV Bill afirmou ao Fantástico que só conseguiu gravar as cenas por contar com a confiança das famílias dos jovens. Não sei, não... Que eu saiba, quem controla tudo nas favelas é o poder paralelo instaurado pelo narcotráfico. Tim Lopes, repórter que trabalhava para a própria Globo, foi brutalmente assassinado por fazer justamente imagens do tráfico de forma "clandestina", ou seja, sem a autorização dos chefões do crime. É muito difícil acreditar que os comandantes do tráfico não sabiam que as filmagens estavam sendo feitas, como também não é fácil deixar de concluir que se eles liberaram a produção no "território" deles, foi por considerá-la conveniente, pois sabiam que os seus jovens apenas reproduziriam o discurso que transfere e dilui a responsabilidade da ação criminosa para o bode expiatório de sempre: o sistema.


Preconceito

Falcão - Meninos do Tráfico, imaginando colaborar com a paz, legitima (não é legalizar) a escolha que alguns fazem pelo crime. Só se é criminoso porque levamos o coitado que não quer mais ser explorado a isso. É uma visão confortável para quem vive do crime. Não houve no programa uma única crítica aos grupos que controlam a venda de drogas e que gerenciam as atividades executadas por esses garotos. A idéia de que a condição desfavorável em que vivem deve servir de atenuante, ou de perdão total, é puro preconceito. Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome do governo Lula, quis substituir a distribuição de dinheiro dos programas sociais por cestas básicas, alegando que os pobres comprariam cachaça em vez de leite (disse isso no programa Roda Viva). O argumento caiu por uma razão lógica: trata-se de uma visão preconceituosa. Os pobres têm o direito de definir as suas prioridades com a justa autonomia que lhes cabe, gastando o dinheiro como julgarem melhor (com remédios, por exemplo). Se comprassem bebidas, passariam fome por escolha própria. É o mesmo caso. Como eu não tenho preconceito contra os moradores daquelas comunidades, acredito que cada jovem que lá mora pode muito bem discernir o certo do errado, a menos que um laudo psicológico diga o inverso. E o errado, como sabemos, se tipificado, deve ser punido, e não relativizado.


Fazer o quê?

Sei que corro o risco de parecer insensível. Eu bem poderia aderir à exclamação geral e dizer, tocado de compaixão e de maneira genérica, que algo precisa ser feito. Mas eis a questão: fazer exatamente o quê? Penso que aderir automaticamente ao senso comum, que é mais suscetível às impressões de ordem emocional, não ajuda. É preciso método. Nesse caso, não falo dessa sociologia do oprimido que ignora a individualidade do sujeito, mas sim de teoria política.


É óbvio que a raiz do problema não está na pobreza apenas. O quadro se fortalece mesmo é com a falência do Estado. Ora, qualquer estudante de ciências políticas sabe que segurança é o primeiro passo para se constituir uma ordem. Sem segurança, tudo o mais inexiste e nada é garantido. Como o poder público perdeu o controle nos territórios ocupados pelo narcotráfico, a lei também lhes foi suprimida. Somente restabelecendo o poder do Estado é que a situação pode mudar.


De qualquer forma, algumas ações poderiam contribuir para amenizar a situação vivida por aqueles meninos, sem precisar esperar pela substituição do capitalismo por alguma utopia que nunca virá:

1º - Reduzir o quanto antes a maioridade legal para 16 anos, de forma a desestimular a cooptação de jovens que se tornam criminosos protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente;

2º - Penalizar duramente o consumo de drogas, pois seus usuários são, à rigor, os financiadores do crime organizado. Sem sufocar a demanda, a produção não perderá o vigor nunca;

3º - Enviar as crianças envolvidas para reformatórios decentes. Lugar de menino traficante é no reformatório;

4º - Responsabilizar os pais dessas crianças por omissão.


Isso só não basta, claro. Seriam necessárias ainda ações como a reforma das polícias e o combate à corrupção. Mas não se enganem, é muito mais lucrativo para alguns a oportunidade de gritar por justiça enquanto tudo fica como está. Arnaldo Jabor, comentando sobre as passeatas inúteis por uma cultura de paz no Rio, falou do seu espanto ao ver nas tais caminhadas as figurinhas que nas festinhas da night cheiram carreiras de cocaína e fumam "inofensivos" baseados de maconha. Mas dá pra entender... Para eles, melhor do que se achar responsáveis diretos por esse esquema que atrai jovens perdidos, é pensar que essa juventude não passa de um subproduto de uma sociedade imanentemente injusta, onde todos, sem exceção, mesmo os que não se drogam, devem se penitenciar por igual. É a socialização da culpa celebrada pelo vídeo exibido em horário nobre.

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