texto publicado originalmente na Revista do Auditório
Sem formação musical, protético de profissão e desenhista diletante, Assis Valente descobre-se compositor em meio a Época de Ouro da música brasileira, que compreende o perÃodo entre os anos de 1930 e 1940 e que coincide com a implantação do rádio e o desenvolvimento da indústria fonográfica no pais. Faz parte desse momento, compositores como Noel Rosa, Lamartine Babo, Ismael Silva, Braguinha, Wilson Batista, Herivelto Martins, Orestes Barbosa, Custódio Mesquita, entre muitos outros. No inÃcio, sua obra ainda em construção (como a própria canção brasileira que só vem a se consolidar nesse perÃodo), se confunde com a de seus contemporâneos e transita pelas raÃzes fundadoras da nossa música popular, principalmente o samba, já então estabelecido como gênero, mas também o choro, a valsa, o tango, o fox e outros mais. Os assuntos abordados em suas letras, muito colados à época, repetem e se confundem com o universo de muitas outras canções compostas neste perÃodo, como as marchas de carnaval, as canções juninas e as canções de natal. À este cenário ainda amorfo da canção brasileira, soma-se o fato das gravadoras terem identificado nos cantores os responsáveis por impulsionarem o desenvolvimento da então incipiente indústria fonográfica e se tornava muito difÃcil reconhecer os autores das canções. Pois vai ser justamente através de uma cantora, Carmem Miranda, que a música de Assis Valente se individualizará.
É claro que não faltam exemplos dessa parceria cantora-compositor na história da música brasileira. Um exemplo próximo, contemporâneo de Assis, é a parceria de Noel Rosa e Aracy de Almeida. Mas a relação aqui é outra, pra não dizer inversa. Aracy (que também gravou Assis Valente) é que se consagrou através do repertório de Noel. Ela se tornou dentro da história da música brasileira, sua maior intérprete. A relação que Assis construiu com Carmem me parece diferente e digo isso pensando em outras parcerias da própria Carmem, em especial com outros dois compositores que, além dele, formam a trÃade central de sua obra: Ary Barroso e Dorival Caymmi. Mas tanto Ary Barroso (compositor mais gravado por Carmem), que em canções como “No Tabuleiro da Baiana†e “Na Baixa do Sapateiroâ€, funcionou como veÃculo para a busca pessoal de Carmem em cantar o Brasil, reforçando um certo estereótipo de nação construÃdo por ela, quanto Dorival Caymmi, que em seu rigor absoluto e simplicidade arquetÃpica, com apenas quatro canções gravadas por Carmem, define seu personagem, em “O que é que a baiana tem†veste Carmem Miranda (tem bata rendada tem, pulseira de ouro tem, tem saia engomada tem). Tanto um quanto outro, apesar da estreita ligação com Carmem, conseguem manter uma autonomia em relação a ela, sobrevivem ao mito e constroem uma trajetória autônoma na música brasileira. Já o nome de Assis Valente parece jamais se dissociar da cantora.
Carmem Miranda é provavelmente a primeira grande estrela da música popular brasileira e a primeira cantora moderna do Brasil. Beneficiada pela invenção do microfone, pôde incorporar a sua voz afinadÃssima e com dicção perfeita, mas de pouca extensão, um tom despojado, coloquial, mais próximo da fala das ruas que da música dos teatros, perfeita para a nova geração quase toda formada por auto-didatas boêmios. Assis Valente muito cedo se empenhou para que Carmem cantasse uma de suas músicas, o que aconteceu logo com duas de suas primeiras composições, “Good Bye, Boy†e “Etcâ€. De um lado do 78 rotações gravado por Carmem, um samba que zombava do anglicismo, muito comum na época, do outro lado, um samba enaltecendo seu estado, a Bahia, tema tão raro pra não dizer único em sua obra. Assis parece ainda preocupado em oferecer alternativas a Carmem, aumentando assim suas chances de ser gravado.
Não por essas primeiras gravações, mas no desenvolvimento dessa parceria, penso que Carmem foi determinante na obra do compositor. Os sambas balançados com suas divisões sincopadas, as melodias velozes que aceleram a pronúncia dos seus versos, as letras entre a alegria extravasada e uma tristeza contida, tudo nas canções de Assis parece moldado pela voz e pela personalidade de Carmem, parece existir por causa dela. É difÃcil saber se a letra de “Camisa Listadaâ€, seria escrita se não houvesse Carmem pra cantá-la. Em versos como vestiu uma camisa listada e saiu por aÃ, em vez de tomar chá com torrada ele tomou Parati, levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão e sorria quando o povo dizia, sossega, leão, sossega leão, ou ainda, levou meu saco de água quente pra fazer chupeta e rompeu minha cortina de veludo pra fazer uma saia, Carmem encarna como ninguém a persona de Assis, seu alter-ego um tanto esquizofrênico, dizendo nas entrelinhas o que não está realmente dito na canção. É um dos pioneiros em escrever se utilizando do eu feminino, em canções como “Fez Bobagem†(meu moreno fez bobagem, maltratou meu pobre coração) e “E o mundo não se acabou†(acreditei nessa conversa mole, pensei que o mundo ia se acabar, beijei na boca de quem não devia, chamei um gajo com quem não me dava e perdoei a sua ingratidão). Sua interpretação repleta de malÃcia, reforça ainda mais uma suposta mensagem cifrada do compositor.
Carmem se transformava na voz de Assis, poucos intérpretes conseguiriam na época cantar o vocabulário algo “ordinárioâ€, pouco “poético" empregado por Assis Valente em suas letras, palavras ainda pouco comuns nas canções daquele tempo como recenseador, fuzileiro, quinhentão, tostão, gabiroba, farelo ou expressões aparentemente sem sentido, como as que lista em “Uva de Caminhãoâ€, caiu o pano da cuÃca em boas condições, apareceu branca de neve e os sete anões, e na pensão da dona Estela foram farrear, quebra quebra gabiroba, quero ver quebrar. Carmem pronuncia cada verso com a certeza de quem realmente entende seus significados, tornando a canção ainda mais enigmática. “Uva de Caminhão†é gravada num andamento surpreendentemente rápido, quase sem pausas para a respiração, é impressionante que consigamos entender a letra da canção. Assis parece se encantar com a técnica de Carmem e em muitas de suas canções passa a testar sua dicção e fôlego olÃmpicos. Em “Bateu-se a Chapaâ€, por exemplo, a melodia sincopada sofre um aceleramento repentino ao final da frase que dificulta sobremaneira a pronúncia de seus versos. Dificuldade também encontrada em “Recenseamentoâ€, onde praticamente não há intermezzos, com a letra ocupando toda a canção, parecendo não caber na melodia. A cantora moderna encontra a modernidade nas canções de Assis, que através de Carmem se distingue de seus contemporâneos.
Pois justamente quando Assis Valente parece ter achado a canção definitiva, aquela que representava Carmem como nenhuma outra, é que sua relação com ela e consequentemente sua carreira, desmoronam. Os versos de “Brasil Pandeiro†não deixavam dúvida: chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor, (...) o Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada, (...) Brasil esquentai vossos pandeiros
;Iluminai os terreiros que nós queremos sambar. Era a canção perfeita para Carmem e seu patriotismo à flor da pele, um samba-exaltação ao Brasil e à própria cantora. Carmem não só recusou “Brasil Pandeiro†como jamais viria a gravar outra canção de Assis, que jamais se recuperaria. Para dar conta de sua enorme decepção, diria mais tarde que não a condenava por isso, pois viu que ela não tinha voz suficiente pra interpretar “Brasil Pandeiroâ€. A “voz†de Assis, já não era mais capaz de cantar suas canções. Assis parece nascer e morrer com Carmem.
Sua derradeira canção dizia: felicidade afogada morreu, a esperança foi fundo e voltou, foi ao fundo e voltou, foi ao fundo e ficou. Após duas tentativas frustradas, Assis Valente finalmente comete o suicÃdio. Em seu bilhete de despedida, um pedido a Ary Barroso, para que lhe pagasse dois meses de aluguel em atraso. Talvez achasse que a música brasileira lhe devesse isso.
Romulo Fróes
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