Fundou-se a cultura.

Ligia Amaral Fullin
Rosas de Barbacena
1
Fred Furtado · Barbacena, MG
16/1/2013 · 20 · 0
 

Fundou-se a cultura de um povo chamado brasileiro, de vida assim, territorial-continental-esparramada-pelos-muitos-cantos. Com cantos e encantos tamanhos que singularidade nenhuma é só, e nem todas juntas são só conjunto no também do encaixe. Nesse continente de porte africano ou quiçá europeu das redondezas dos meridianos baixos se fala em todo canto uma língua portuguesa a mesma, com seus léxicos, sotaques e dicionários populares, mas no entendimento está sempre ali o arroz, o feijão, a canção e o amor. O calor temperado de clima tropical que acultura os nativos e apimenta a alegria e o furor nos de fora que pra cá chegam.

Fundou-se. Entre o samba do cutuca-não-cutuca, o boi, o cavalo marinho, as guardas de congada e o hip-hop nordestino, o tecno-brega e o brega-nejo, o caipira de raiz mascando dor de cotovelo no capim do campo em beirada de fogueira e o duelo de mc’s embaixo de viaduto. Num grito rock de independência fundou-se tudo? Diz que talvez. Continuo no achado do que não. O rock, o frevo, o desenho, a xilogravura, a casa de reboco e a oferenda de iemanjá, a festa do rosário, a umbanda, o saber pescar, a purrinha, o truco, o doradão, o doradez, a festa junina, o jubileu, festas de santos os todos, roda de cigano, a capoeira, a umbigada, o maxixe, o xaxado, o baião. O desenho, a graça, o registro, a difusão. Fundou-se a cultura porque ela é o nosso patrimônio. O jeitinho brasileiro de viver, de ser brasileiro ali na unha, no a valer.

E quem preside isso? Quem gere, administra, financia, bota regra, avalia, confere, conforma, abrange, democratiza, expande, difunde, mostra, troca, vende, pega, usa, recicla, mostra, esconde? O povo. Somos nós. Cada um é gestor do quintal de sua casa, que amplia na rua, vira o bairro, a associação do bairro, o vereador, a prefeitura, a fundação de cultura municipal! É tudo camada do mesmo princípio, que ruma o mesmo fim!

A missão primeira? Lembrar e fazer lembrar de tudo que foi criado. Noção de patrimônio, preservar, cuidar, com carinho e humanidade para contar para os pequeninos da geração futura o que o povo das gerações do antes foram capazes de deixar pra memória e imaginário do coletivo. O povo que lembra e conhece sua história é o que melhor entende quem chega querendo fazer mais história, arte, registro e vivência de cultura. Fundação. De um tempo, de um espaço de um lugar. Inicia aí a abrangência da palavra ocupação. Ocupa-se espaço, sempre compartilhado, nunca de um só. Não se destrói um patrimônio fundado. Recicla-se. Significa-se.

E assim se embala. Porque a missão essencial, antes ainda da primeira aí em cima narrada, é buscar sabedoria do saber viver. A cultura permeia o fazer do povo, a evolução da sua tecnologia, sua forma de refletir sobre si, sobre onde vive e a partir de então interagir com o outro, com o fora, com a cidade.

Entende-se que o coletivo é a partir do indivíduo e este é nela. Gere-se a cultura para a evolução da alegria e liberdade de um povo que e quando percebe que sua vida coletiva tem sentido melhorias, comemora, festeja, enaltece o sagrado no simples dos dias.

Este ano assumo a gestão municipal da cultura em minha terra natal, a cidade de Barbacena, em Minas Gerais. O que quero é ver que a cidade comemora com seus artistas através de todas as linguagens possíveis o diálogo dela com ela mesma. Que ela pensa em resgatar e revitalizar sua história por ser a memória que a trouxe até aqui. E que a nova geração venha me dizer como ela enxerga tudo isso, na mais genuína forma de diálogo. A produção, a realização e a difusão são sempre amplos, coletivos, coletivizados. Na cidade dos loucos e das rosas a cultura precisa ser sempre um tanto fora do eixo, um tanto com ar de requinte e beleza. E se aqui há teatro, há música, há artes plásticas, cênicas, audiovisuais, reflexivas, críticas, preservativas, alternativas, multi-étnicas, simbólicas, famigeradas, ardentes, esdrúxulas, singelas, comedidas, adjetivadas... quero que o barbacenense queira saber de tudo isso! E assim ele descobre que cada pequena fronteira, do quintal ao bairro, amplia-se entre as cidades e os estados, e com percursos criativos ele redescobre e reinventa o mundo novamente. Troca com o vizinho e com todos os vizinhos, vivendo a mesma casa, o mundo. Descobre que ele é o morador de uma cidade, de um bairro, de um país. E que trocando com os todos, a amplitude da avaliação resume o saber do que já sabia com o ampliado do que se troca.

Vê tudo isso, refletindo a si o que é o mundo para ele. Pois, sempre aquém de ousar definir a cultura de um povo, é preferível vive-la. Criar a própria história. E que tudo vire filme!


Frederico Furtado, 16 de janeiro de 2013.

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