Histórias-1

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geraldo52 · Camaçari, BA
25/7/2006 · 1 · 0
 

“Eu ia chegando do hospital onde trabalho quando alguém me disse que minha irmã havia sofrido uma parada cardíaca no ponto de ônibus e estaria atrapalhando o tráfego e pior: devido a isso chegaria muito atrasada no escritório. Interessante é que nesse escritório eles não toleram demoras, daí eu fiquei muito preocupada com o emprego de minha irmã, afinal ela não tinha estabilidade. Corri, angustiada e nervosa e comecei a lhe fazer manobras de ressuscitação. Tive sucesso: minha irmã surpreendentemente abriu apenas o olho esquerdo e disse que estava cansada e que estava voltando aos poucos de uma longa viagem e que daí a 2 horas abriria também o seu olho direito pois precisava primeiro pagar a ultima prestação de seu ar condicionado, que havia vencido naquele dia e algo que ele detestava era ficar suando de calor. Fiquei tranqüila, sei que minha irmã sempre foi muito metódica, era sua característica. Dois dias depois ela contava a todo mundo que sentiu como se fosse abandonando o seu corpo deitado na maca, saindo silenciosamente pé ante pé e nem despediu-se dos presentes com um até logo, por exemplo, ou ao menos deixado um bilhete com um telefone para contato. Disse que estava levitando no quarto sem seu guarda chuva e com uma saia muito curta, o que lhe causava vergonha, já que gostava de usar só calças justas. Além do mais a maleta de viagem que levava não continha nem esmalte de unha, batom ou ruge e nem mesmo um desodorante ou perfume, o que seria muito desagradável para uma viagem. E o pior é que nem havia levado documentos.

Ela prosseguiu dizendo que foi progressivamente subindo e saindo do quarto, esfumando-se como fumaça, sob os protestos veementes dos médicos pois nem havia pago a diária. Como era um dia de muita chuva agradeceu a sorte de haver achado o seu guarda chuva, embora notasse a ausência de um capote e um cachecol, pois fazia muito frio. Afastou-se do quarto rapidamente, desceu até o térreo sem usar o elevador (ela tinha fobia a elevador) e dirigiu-se a mocinha do setor financeiro (muito educada, por sinal), onde combinou quanto pagaria pela hospedagem. Apenas insistiu em que não lhe cobrassem aquele período em que estaria levitando pois a conta já estava muito alta.

Chegando a rua, pensou em tomar um taxi ou um ônibus mas como o dinheiro era escasso resolveu andar, afinal precisava caminhar um pouco, ultimamente estava muito sedentária. Ela andou e andou, foi a cinemas, viu peças de teatro e visitou museus. Tudo sozinha, que minha irmã não gosta de companhia quando sai para flutuar. E o curioso, ela disse, nesses lugares ninguém exigiu seu cartão de crédito ou cheque especial. Ela afastou-se, afastou-se do mundo, da terra e disse que entrou numa padaria muito bonita e confortável onde encontrou um pão delicioso, mas sem manteiga por causa do horário. E as torradas haviam passado um pouco do ponto. Foi dar queixa ao gerente mas ele estava passeando na Disneilândia, o que lhe deixou muito furiosa e irada pois nunca fora a Disneilândia.

Minha irmã relata também que entrou num estranho clube em 4 dimensões, com luzes que acendiam e apagavam, apagavam e acendiam e tinha um maitre muito ousado - mas simpático - que lhe dirigia olhares furtivos e fazia gestos obscenos, convidando-a para sair. Mas se justo nesse dia minha irmã estava com uma forte gripe!

No caminho de sua peregrinação o dinheiro ia diminuindo, o que deixou muito preocupada minha irmã, ela sempre gosta de ter dinheiro para imprevistos. Ela disse que nesse trajeto ia reencontrando casualmente antepassados como seu falecido primo Gustavo, que aproveitou a ocasião para lhe mostrar a língua várias vezes como sempre fazia; encontrou um tio, também já falecido, que lhe deu dois tapas nas costas, deixando-a tossindo e com muita falta de ar, um outro tio que ficou 2 horas fazendo-lhe cócegas sob as axilas até ela perder o fôlego de tanto rir. Um sobrinho muito bonito que jamais vira convidou-a para ir a praia mas como não levara maiô, foi obrigada a recusar. Por último foi obrigada a passar numa fila diante de vários homens que lhe fizeram caretas muito feias e assustadoras.

Foi então que minha irmã viu um clarão muito intenso, parecia um sol grandioso e artificial e isto a atraía, e atraía muito, apesar dela estar um pouco atrasada com as contas da companhia de eletricidade. O clarão, disse-me, vinha de um longo e comprido túnel, de quase 4 quilômetros, e ela era atraída pelo clarão a despeito de seu oculista ter-lhe alertado sobre o perigo de luzes fortes que podem causar catarata e glaucoma. Além do mais ela não usava óculos escuros (e dentro do túnel, ela soube depois, havia 2 pedágios, como iria pagar sem dinheiro?).

Foi então que algo começou a puxá-la para trás, ela não queria voltar, afinal estava adorando aquela viagem, não é todo dia que se levita gratuitamente, mas, enfim, o dinheiro estava terminando, o quê fazer? Pedir empréstimo a um banco? Mas estava sem documentos! Além do mais os juros seriam altíssimos e nem tinha avalista! Pior: amanhã era dia de trabalho, precisava voltar ao escritório, será que seu chefe compreenderia sua desculpa de que estaria flutuando? (Logo ele, que levitara uma vez e sua esposa pensara em traição!)

Daí ela voltou, passou por alguns lugares, uma escola primária, onde sua velha ex-professsora aproveitou a ocasião e fez-lhe algumas perguntas capciosas só para colocá-la de castigo num canto da sala com chapéu de burro e sobre alguns grãos de milho; passou num restaurante e fez um pequeno lanche, um sanduíche e um suco – lembra que não pagou e teve de lavar os pratos até alta madrugada.

Ela foi voltando, voltando, até que retornou ao hospital só que não pôde usar o estacionamento privativo. Quando reencontrou seu corpo, pareceu-lhe em bom estado, boa pessoa, bom sujeito, deu-lhe um alegre bom dia mas, ciumento, seu corpo virou de lado e fingiu indiferença.

Neste momento acordou.â€

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