“Caminhando com Jesus nos sertões nordestinos” é o título do novo livro de Frei Roberto Eufrásio de Oliveira. Do que trata mesmo seu conteúdo? Religião, dirão os apressados. Não exclusivamente. Seguindo o ideário prático-religioso da Teologia da Libertação, movimento configurado a partir do Concílio Vaticano II (1962/1965), o religioso cearense relata sua experiência missionária apreendida nas Comunidades Eclesiais de Base. Em revista, os leitores conhecerão a prática do seu evangelho libertador junto aos pobres dos sertões de Sergipe, Bahia, Alagoas, Paraíba, Maranhão e Piauí.
Depois da publicação de “Uma experiência de Missão Popular no Brasil” (2002), o membro fundador da Associação dos Missionários e Missionárias do Nordeste (AMINE) trás a público mais reminiscências de seu apostolado.
Seguindo tradição cearense dos beatos Antônio Conselheiro e Padre Antônio Ibiapina, o autor revela os percalços e conquistas de uma atribulada vida missionária voltada para as obras sociais. Respectivamente, Sergipe e Paraíba figuram como dois cenários privilegiados, uma vez que ele morou em Graccho Cardoso (1977/1985), tendo posteriormente atuado em Capim de Manguaguape (1989/2000). Graccho Cardoso foi sede do “Sertão II”, área que compreendia também Gararu, Itabi e N. Sra. de Lourdes. Mediante a orientação do Bispo Dom José Brandão de Castro, da Diocese de Propriá, figura marcante na luta contra as injustiças sociais do sertão, fez-se um apostolado de comunhão com os pobres. A vida no sertão sergipano permitiu ao franciscano conhecer a história do lugar, promover a cultura através de eventos, facultando aos artistas a organização, caso da Associação Sócio-cultural de Graccho de Cardoso (ASOC), realizou a 5ª edição do Encontro Cultural em 2006.
Os capítulos da obra tematizam a orientação catequética e o engajamento social através dos mutirões, festas, caminhadas, eventos e evangelização. Pautam o relato memorialístico os conflitos entre posseiros e coronéis nos assentamentos, entre usineiros e cortadores de cana, a luta dos índios kiriri-xocó, enfim, as injustiças impostas aos pobres pela ação dos grandes latifundiários e empresas como CODEVASF e CHESF.
A leitura dos “Caminhos” mostra a luta e, implicitamente, a vida do autor, por vezes ameaçada pela ação dos latifundiários. Pertinente lembrar que Frei Enoque Salvador de Melo, ex-prefeito de Poço Redondo, e o geógrafo Raimundo Eliete Cavalcante chegaram a Sergipe envolvidos na mesma causa, tendo fixado morada em Poço Redondo por questões relativas ao impacto social provocado pela construção da Hidroelétrica de Xingó na vida das populações ribeirinhas do São Francisco, por volta da década de 1980.
Um emblemático momento da obra consiste no relato a respeito da luta dos índios kiriri-xocó da Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, pela sua posse na década de 1970. Consta que a ilha pertencera aos índios antes de ser tomada pelo falecido coronal Porfírio Brito. Empenharam-se na questão jurídica, a favor dos remanescentes indígenas, franciscanos, sindicalistas, a FETASE, a Diocese de Propriá e a Universidade Federal de Sergipe. A contribuição da antropóloga Beatriz Góis Dantas, professora da UFS, comprovou a veracidade das informações e a legitimidade da devolução da ilha aos requerentes.
Alternando humildade, tristeza e exultação, o testemunho do Frei Roberto Eufrásio informa dos avanços e recuos das lutas sociais pela posse da terra, das injustiças e intimidações que presenciou em Sergipe e na Paraíba, como também da felicidade que o trabalho cristão lhe propiciou. O capitulo “Conversa com fazendeiros” revela o destemor de um combatente, que fez da palavra o combustível da prática.
“Caminhando com Jesus nos sertões nordestinos”, o livro, sintetiza o pensamento, presta contas da ação e corrobora o ideal religioso e humanitário do seu autor. Assim, num relato de quem transformou sua vida em instrumento de luta, de protesto, de alerta, de evangelização a obra cumpre o seu intento. Os que pesquisam a questão social no nordeste brasileiro ganham uma indispensável fonte de informação. Também os que perseguem a reconstituição do trabalho missionário exercido pela Ordem Franciscana no Brasil.
Por Thiago Fragata - Professor, historiador, poeta e sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). Fonte: www.thiagofragata.blogspot.com
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