Dizem que os sonhos não têm tamanho, mas alguns podem ser medidos. O sonho de pelo menos 50 artistas tocantinenses cabe direitinho dentro de um CD, ou melhor, de quatro.
O pacote lançado no final do ano passado, e que fez a alegria de músicos e compositores da terra Tocantins, é resultado do Edital de Gravação de Música, lançado em abril de 2004, pelo governo do Estado.
São quatro discos divididos nas coletâneas Autoral, Música Popular, Corais e Instrumental e Folclórica e Tradicional do Tocantins. Todos foram produzidos pelo músico goiano Luiz Chaffin. Apesar de prontos os discos ainda não estão à venda - por enquanto eles são doados pela Fundação Cultural do Tocantins aos músicos e instituições, mas em breve devem estar disponíveis no mercado.
A distribuição é bastante aguardada. Com ritmos bem tradicionais, ao som do tambor e na marcação das palmas, o disco Coletânea folclórica do Tocantins é resultado do 4º Festival de Música Folclórica de Santa Rosa, e reúne canções que marcam as festas populares das folias de Reis e do Divino Espírito Santo, celebradas nas cidades de Natividade, Santa Rosa, Monte do Carmo, entre outras, no interior tocantinense. Das rodas de sússia – herança de ritmos africanos -; jiquitaia – a chamada “dança da formiga”, ritmo frenético que imita um ataque de formigas de fogo; catira e tambor surgiram outras das composições que estão na obra.
As músicas falam do cotidiano da vida simples na roça. Na instrumental Pagode da terra, primeira faixa do disco, a viola caipira de Valdonês Batista e Rosemiro Ferreira dita a toada. Já em Recanto onde eu nasci (Manoel Sales) canta-se a saudade da terra distante.
Os animais da região também são lembrados nas composições populares. Xô, pinhém fala do ataque de um gavião a um filhote da mesma espécie, chamado pinhém: “Xô pinhém, xô gavião, ô peneira no chão gavião”, dizem os versos.
A escolha das músicas foi supervisionada por ninguém menos que o maestro Júlio Medaglia, um dos jurados do festival realizado em maio de 2004. “O tamanho da cultura não se mede com centímetro, e sim pelo valor artístico, pela profundidade do significado, que às vezes uma manifestação simplérrima de um violeiro analfabeto anônimo pode ser maior do que uma grande sinfonia numa sala de concerto”, disse.
Música popular
Teimosia (Quésia Carvalho) é um forró que desafia a peleja da vida para se manter a alegria de seguir. Com essa temática a canção venceu o I Festival Tocantins de Música Popular e emplacou a primeira faixa do disco homônimo. Os 12 primeiros colocados no festival, realizado em agosto de 2004, estão nesta coletânea.
No seu ecletismo, o compacto engloba um grande caldeirão de ritmos. Como nas músicas O poeta (Eduardo Meira); Camaleão (Luis Teixeira); Quebradeiras de coco (Paulo Albuquerque/Paulo Marinho); Pureza de nós dois (Mara Rita/Everton dos Andes/Antônio Solé); Tetê (Everton dos Andes); João Menino (Diego Lennyn); Topeira (Gustavo Tiné); Cartas (Rodrigo Ferreira); Meu lugar (Tomé Celestino Neto); Homenagem ao Palmas Futebol e Regatas; e Cantiga sem peleja (Arion Reis/ Vanusa Soares).
Resultado da pluralidade musical dos artistas tocantinenses, com o rock, o forró, o reggae, o samba-canção, a bossa nova, convivendo lado a lado e disputando em qualidade.
Música negra
O disco autoral contém as composições de Everton dos Andes, um dos artistas mais consistentes do Estado. O CD Música negra, de Andes, obteve da Fundação Cultural cerca de 500 cópias que foram lançadas no ano passado. O disco mescla a base regional da arte de Andes com influências pop/reggae internacionais.
A personalidade do cantor é bastante visível em seu disco. Andes é compositor e promotor cultural. Formado em história pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), é incansável pesquisador do folclore regional, tendo desenvolvido o projeto Suciologia, um neologismo para designar o estudo da sússia e outros ritmos tocantinenses.
O músico lançou seu CD na caravana do Projeto Pixinguinha formada por Miúcha e o Quarteto Maogani, que percorreu o Nordeste em junho do ano passado. E concorreu ao edital com o pseudônimo “Patativa do Cerrado”, uma referência ao repentista nordestino.
A curadoria que avaliou os trabalhos para os CDs autorais e Coletânea Corais e Instrumentais foi formada pelo maestro Júlio Medaglia, o consultor e coordenador do projeto Brasil Central Stanley Whibbe e o jornalista e editor-chefe do Jornal do Tocantins, José Sebastião Pinheiro.
E o resultado final é um disco de muito bom gosto, com elementos do reisado, da congada, do coco, do pop e do reggae. É também uma viagem pelos ritmos do Tocantins, além de ser uma boa dica para ouvir e dançar. As músicas Tetê, Sussa tambor, Revolução negra (Soul do gueto) são as melhores para afastar o sofá da sala e cair na folia.
Instrumental e corais
“Foi um presente”. Foi nesse clima que o produtor e músico Luiz Chaffin encarou a sua tarefa de conclusão dos CDs contemplados. Chaffin disse não ter encontrado muitos problemas nas gravações. “Muitos artistas bons e boas composições”, definiu.
Na Coletânea Instrumental e Coral as seis faixas trazem um pouco da produção erudita do Estado. O músico Almeron Rodrigues do Nascimento gravou a maioria delas: Amoroso, Bola sete e Lembrança de Gurupi. “Toquei violão e cavaquinho. Foi excelente!”, afirmou o músico.
Serviço:
O que: Coletâneas Autoral, Música Popular, Corais e Instrumental e folclórica e tradicional do Tocantins.
Quantidade: 4 CDs
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