NInguém é de Ninguém

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Fernando Gazzaneo · Santo André, SP
10/5/2006 · 1 · 0
 

Caro leitor,

A trupi do xá comigo, visa a partir dessa carta malcheirosa e mal-educada, porém degustável, esclarecer a vocês, moribundos, sobre as conformidades da vida e, em especial, sobre o peso de ser mais um e ao mesmo tempo ser todos. Não! Não somos o senso comum. Sim! Gostaríamos de estar na goela de todos. Mas isso é pra quem pode. Somos iniciantes no babado e ser xá comigo já é o bastante. Como o prometido, pensamos, indubitavelmente, com o baixo ventre e listamos aqui algumas breves reflexões a respeito do óbvio.

Atenção: as pessoas continuarão a usar roupas coloridas para diferenciar-se das outras, mas as etiquetas serão sempre iguais. O despejo sucumbirá o desejo. Os torresmos continuarão gordurosos. Os maus políticos continuarão sendo maus atores e os maus atores permanecerão suados debaixo dos holofotes da fama. A ignorância estará sempre acima de todas as coisas. As pessoas continuarão morrendo por ainda estarem vivas. Os mortos continuarão mortos até que não os perturbem. Os ovos de avestruz continuarão a alimentar grandes famílias caso não haja um nova demanda por mão barata e preta. As pragas pairarão sobre os desprovidos de inseticidas e os anos durarão séculos (o primeiro dia do ano ainda será a alegoria da esperança).

As donas de casa continuarão sendo prostitutas do lar. Filmes pornográficos perderão suas funções, a de excitar e a de fazer gozar, respectivamente, para as babás eletrônicas. O vermelho será vermelho até que, sem resquícios de dúvidas, prove-se o contrário. Viver resultará em inútil. Macacos serão macacos e pessoas continuarão como cães vira-lata. Os bandidos continuarão engajados na procura de uns Rolex. O inferno sempre será quente e barulhento. Os anjos nunca terão sexo, mesmo que pratiquem orgias. O papa será sempre confundido com uma estátua de gesso. Comer será sempre uma ordem.

As reticências...serão sempre um pedido de silêncio, assim como o ponto final será o término de tudo ou de parcialmente tudo. Cair de cara no chão permanecerá como um motivo de chacota. O ato de fornicar nos fará cegos. Os playboys continuarão insatisfeitos. As patricinhas continuarão não usando calcinha. Fiéis caminharão de joelhos em busca de redenção. O governo será sempre corrupto, ainda que ele seja a minha mãe. Estrangeiros serão sempre chamados de gringos. Bandido continuará roubando bandido. Sexo oral permanecerá com sinônimo de pecado. Banquetes serão sempre essenciais. Cestas básicas serão sempre o necessário. O amor permanecerá como a dor do mundo. Palhaços serão palhaços até que se cessem todos os aplausos.

Livros a respeito do gingado da mulata trarão prestígio ao Brasil. A fome e a paz mundial trará vitória as misses. A ética estará na moda e, portanto, será volátil. O seqüestrador trará de volta a vítima de taxi, porém continuará defendendo práticas chinesas de tortura. O estuprador lavará suas mãos de sangue com água sanitária, mas não declamará poemas de arrependimento à estuprada. O deputado não viverá mais pensando nos paraísos fiscais, mas continuará apagando charutos cubanos na bunda de seus empregados. Médicos abominarão o uso da maconha, mas serão a favor de doses intensivas de Prozac. A igreja condenará o acúmulo de usuras, mas será a favor do dízimo em prol das almas perdidas. A inseminação artificial substituirá os gemidos de tesão, mas o aborto será condenado como tentativa de assassinato pelo fato de não respeitar o ciclo mágico da natureza. Ações sociais nos fará grandes, mas nada de tocar em pivete “chechelento”. Os advogados dirão sempre a verdade sobre a causa da camisa manchada de batom, mas honrarão os facínoras que esperam julgamento. O presidente pisará na bosta de cabrito, mas não dispensará a gravata. Como a justiça, A ética deverá ser cega. Isso porque não se pode parar a vida por causa de uma mulher que está parindo no meio da calçada. O insul-film será requisito básico para ser invisível: a inveja partirá de você e não dos que estão de fora. Criança de rua vai passar como fumaça de cigarro. Todo cheiro indesejável será instantaneamente aniquilado pelo ar condicionado. Qualquer presença inoportuna no seu portão será visualizada como um adorador de Jeová. O problema alheio será, para você, uma unha encravada que precisa, urgentemente, ser arrancada. A prostituição infantil lhe causará impacto, caso seja a sua filha uma das infelizes de saia curta.

Atenção! Pulverize em sua casa entorpecentes: a realidade é cruel e pode tirar o seu apetite. Seja por você o que ninguém poderá ser: amante de si mesmo a ponto de pensar que é único no mundo. Viva e usufrua de todas as futilidades possíveis. O bem público é pra gentinha. Para um ser ético, toda semelhança é total coincidência. Não se mostra bunda por dinheiro; vende-se entretenimento em troca de alienação. Não se diz o que quer, sobre o que quer e a respeito de quem quer; Deus está de prova que o conhecimento, seja ele qual for, tira o povo das trevas e o coloca em uma caixa fósforos. Não se faz de tudo em busca de fama; a vida é uma roda gigante e o mais importante, seja no alto ou no baixo, é ser sempre visível. Não se especulariza a violência; cria-se, naqueles que assistem, a satisfação por não serem eles os Judas a quem malham. Não se constrói espectadores balbuciantes; prepara cidadãos omissos a longo prazo.

A ética é, por si só, comprometedora. É a caixa de lenços para a gripe. É o conformismo genérico. Ela não deixará que ninguém a entenda, inclusive nós, listras coloridas do pré-espetáculo, justamente para que ninguém caia no erro de praticá-la. Somos éticos até o momento no qual nada nos atinge. Comemos o bolo até que nos chamem de gordos. Estamos informados até que nos julguem o autor das más notícias.

Não somos assim, charlatões. Mas somos facinho, facinho.


Sem mais.
Desde já, agradecemos

Os xá comigo

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