O Amor nos Tempos do Cólera: Loucura a Dois

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Valéria Geremia · Fortaleza, CE
30/12/2007 · 32 · 1
 

O filme O Amor nos Tempos do Cólera é uma história bem contada, com alguns personagens bem desenvolvidos e atuações excelentes (Javier Bardem - Florentino Ariza -, e Fernanda Montenegro - mãe de Florentino -), dirigido pelo inglês Mike Newell. Há, porém, aspectos que diminuem a força da narração: a pesada maquiagem usada para manter o par de protagonistas nos trechos finais acaba se expondo negativamente na fotografia de Affonso Beato (também brasileiro). O roteiro não é bem aproveitado, por exemplo, ao se demorar na exposição da relação de Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno) com o marido, Juvenal Urbino (Benjamin Bratt), e não dar ao último profundidade maior. Não é mostrada de forma convincente, por exemplo, a participação de Juvenal no combate à epidemia de cólera em Cartagena.
Mas, claro, não se trata de uma história qualquer: a produção é baseada em livro de Gabriel Garcia Márquez (ou, apelido carinhoso dado ao escritor, Gabo), que aprovou a versão cinematográfica. É uma história romântica fora do padrão da estética comercial predominante (a cena mais esperada não traz corpos jovens e belos) na abordagem de um universo ainda aterrorizante e desconhecido para o homem social: O Amor.
O Amor Nos Tempos do Cólera fala de uma paixão platônica de juventude que não é esquecida com o passar de mais de cinqüenta anos e uma série de aventuras amorosas e sexuais. É um Romeu diferente, sem dúvida, que em vez de suicidar-se, procura consolo em outros braços, mas não esquece o primeiro amor. Mantém total fidelidade (uma nova fidelidade) à alma, ao sentimento. Como para os amantes de Verona, o corpo deixa de ter valor face a impossibilidade de viver ao lado da pessoa amada. Só que os jovens de Shakespeare optam por livrar-se da matéria e Florentino Ariza deixa que o corpo, também sem valor algum para ele, lhe sirva de consolo. Entrega-se ao sexo apenas para alívio da dor, mas sabe que essa não é a entrega (ou felicidade) completa. Ele é um verdadeiro poeta, por acreditar no sentimento de forma tão pura e intensa (o que costuma ser taxado de loucura), tanto que transforma as missivas comerciais em cartas de amor (hoje em dia, os poetas dificilmente têm coragem de se entregar a tal loucura de fato).
Florentino não age como as pessoas normais, que desistem do amor ao enfrentar as primeiras dificuldades, cedem ao senso comum de que sentimentos são ilusões (afinal não se pode prová-los, medi-los, entendê-los) e passam o resto das vidas anestesiados, quase felizes, quase realizados, quase completos (!), quase vivos. Daí a reflexão de Fermina sobre seu casamento: tantos anos de felicidade e não se sabe se houve amor ou não (creio que só quem passou por isso pode entendê-la).
O realismo fantástico, característico da obra de Gabo parece, inicialmente, ausente nessa trama. Mas podemos interpretar o fantástico como parte inerente, sim, de todas as grandes histórias de amor, sob a forma da magia inexplicável dos sentimentos, que vencem preconceitos e podem se modificar definitiva e intempestivamente. A paixão torna-se amor ao se conquistar a capacidade de observar ao longe a alegria do outro e desejar a sua felicidade. A loucura ou ilusão torna-se amor ao ser vivida a dois, o amor revela-se acomodação quando se experimenta um sentimento mais forte. E, para Fermina, aquele que parecia uma sombra (ou alucinação, no banco em frente a sua janela) torna-se um homem real.
Mas é possível que não se possa mais viver o Amor, nos atuais tempos da razão, e sim apenas o sexo sem compromisso (por isso, o filme realmente trabalha com o fantástico, considerando os valores de nosso tempo e de nossa cultura). O certo é que não há conclusões consagradas nessa área de estudos (?), mas me arrisco a dizer que qualquer um que queira tentar experimentar a embriaguez do amor (e as delícias do sexo com amor) deve ter coragem de entregar seu coração sem temer o sofrimento, a loucura ou a morte (alguém se habilita? Rsrsrs.). Aos apaixonados, resta a opção de consultar os maiores filósofos no assunto: os poetas e os loucos. Não para entender o sentimento, claro... apenas para apurá-lo.

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Aurea Charpinel
 

Ainda não vi o filme, mas o seu texto me despertou o desejo de vê-lo. A crítica tem sido muito inclemente com ele, não é? A revista "Programa" do JB o chama de "Leitura Indigesta", rss...
Mas você viu muitos pontos positivos e vou me arriscar, valeu! Você escreve muito bem, Valéria.
Beijinhos, Feliz Ano Novo!!!

Aurea Charpinel · Rio de Janeiro, RJ 30/12/2007 08:41
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