O cinema sob demanda da Mobz

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Rafael Queres · Rio de Janeiro, RJ
13/12/2011 · 26 · 0
 

Agendar a sua sessão de cinema com a ajuda dos amigos, poder rever filmes raros e óperas transmitidas ao vivo, assistir a uma partida de futebol ou a um show de rock em alta resolução nas telonas dos cinemas. Nos cinemas? Isso mesmo, essa é a proposta da Mobz, distribuidora de conteúdo audiovisual que tem trazido ao circuito exibidor brasileiro variados formatos digitalizados, sejam filmes, ballets, campeonatos esportivos ou apresentações de grandes bandas.

Para alcançar o público e mobilizar as sessões nos cinemas, a internet é um fator determinante. “As redes sociais são absolutamente imprescindíveis à Mobz. Via de regra nossos produtos são de nicho e lançados de forma diferenciada no cinema, como eventos especiaisâ€, pontua Igor Kupstas, gerente de marketing digital da distribuidora. “Fazemos menos sessões para um público mais focado, o que garante uma média por sessão maior do que um lançamento tradicionalâ€. A média de mercado é uma taxa de ocupação de 25%. A taxa de ocupação da Mobz varia, mas tende a ser muito superior, garante Kupstas. No caso de Foo Fighters - Back and Forth, exibido em 2 noites, a média foi de 60%. O documentário foi programado junto com um show 3D da banda.

Dar ferramentas e suporte para a mobilização do público favorece a dinâmica da cadeia do audiovisual. Em primeiro lugar, o beneficiado é o frequentador do cinema, que, em campanha mobilizada em sua cidade, pode experimentar assistir a sessões que não seriam programadas no modelo convencional de distribuição. Esse espectador, em contrapartida, ao se relacionar com a Mobz, está contribuindo para fortalecer a possibilidade de exibição de um tipo especial de conteúdo numa região determinada por ele. A distribuidora, assim, pode dar ao exibidor um mapeamento dos locais em que há maior demanda por exibições exclusivas. Caso o número de pagantes não chegue a um mínimo, o valor pago pelos clientes se reverte em crédito ou é devolvido.

E como funciona?

No modelo de mobilização e venda pelo portal da distribuidora, o número mínimo de pagantes é estabelecido pela Mobz. São essas vendas online que dão condições de dimensionar o circuito a ser programado. Em certa praça hipotética, é preciso viabilizar a venda de “50 ingressos para garantir que a sessão ocorraâ€, exemplifica Igor Kupstas. “Se a sessão não lotar (durante as vendas online), é possível também ter venda no caixa do cinema, no dia da exibição agendadaâ€.

Desde o seu reposicionamento no mercado, no início deste ano, a empresa investe fortemente na divulgação de seu modelo de gestão, e vem amplificando sua rede de mobilizadores (geralmente donos de fã clubes) para desenvolver promoções e produzir conteúdo que ajude o próprio público-alvo a se comunicar sobre as estreias. Através de seus principais canais de relacionamento, a distribuidora antecipa detalhes da programação das salas (datas, horários, etc.), esclarecendo dúvidas e eventuais problemas das sessões.

Por ser uma empresa inovadora no mercado de distribuição, é larga a repercussão que a Mobz tem conseguido também nos meios de comunicação tradicionais. Só para dar uma mostra disso, no primeiro mês de lançamento do novo site, em janeiro de 2011, foram cerca de mil cadastrados. Em julho a plataforma já somava 23 mil usuários, entre eles fãs do grupo U2, da cantora Kylie Minogue, das bandas Pearl Jam, Foo Fighters e Red Hot Chili Peppers.

Novos voos e roteiros

No início de 2009, Fábio Lima, diretor executivo da Mobz, realizou a exibição de Iron Maiden – Flight 666, documentário sobre a banda de rock inglesa. A experiência marcou definitivamente o futuro da empreitada. A venda dos ingressos começou em 13 salas de cinema e, no dia marcado para exibição, 103 salas estavam programadas no circuito. O lançamento ultrapassou as fronteiras nacionais.

É com o suporte online que a Mobz tem se firmado no mercado do audiovisual, baseada no conceito da "Cauda Longa"(derivado do inglês "Long Tail"). E desse modo, a distribuidora busca favorecer consumidores em busca de produtos de alta qualidade, procurados pontualmente por pequenos grupos.

Além de oferecer filmes e shows ao público-alvo da iniciativa, a empresa trabalha também pela futura introdução de novos formatos e conteúdos nas telonas: sejam palestras especializadas para um público de profissionais (cirurgias médicas, por exemplo), sejam sessões de videogame (ainda sem previsão). É verdade, é uma grande aposta!

Como a mobilização é demandada pelos usuários, o poder da programação das salas fica apenas condicionado ao número de confirmações e compras dos ingressos e, evidentemente, ao suporte físico das salas de cinema existentes em cada praça (cidade/região) do país. De acordo com o gerente Igor Kupstas, a Mobz já programou sessões em todo o país. O show U23D, por exemplo, esteve em mais de 100 salas (veja todo circuito no blog).

Outro grupo de fãs que também tem se mobilizado bastante em torno das exibições da Mobz são os amantes de óperas (do Metropolitan Opera de Nova York) e dos ballets (Bolshoi e Ballet da Ópera de Paris). No caso das óperas transmitidas diretamente do Met Opera, elas apenas podem ser exibidas quando os projetores são aptos a receber o sinal ao vivo. Quando tal transmissão não é possível, ainda assim os espetáculos podem ser programados em sessões posteriores (gravadas), geralmente com um preço inferior. O preço das sessões das óperas gira em torno dos 35 reais (a meia entrada, com carteirinha de estudante). Mas, dependendo do local e da sala, também pode haver um valor diferente para as sessões. E o mesmo vale para os outros produtos da distribuidora. O ingresso de U23D chegou a ser vendido por R$ 7,50 numa sessão em Brasília. Já o show do Foo Fighters teve um ingresso em torno de R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia).

Além do sucesso com as óperas e ballets, e, claro, dos filmes do catálogo (aproximadamente 80 filmes com o selo Hollywood Classics) da distribuidora, o maior trunfo do portal da Mobz tem sido mesmo a programação de shows de grandes bandas. Em balanço publicado pelo Assespro, U23D rendeu R$ 700 mil. O filme Foo Fighters: Back And Forth, R$ 400 mil. A previsão de faturamento total da empresa deve passar os R$ 40 milhões em 2011.

Parcerias e outras soluções

A Mobz também oferece o seu serviço de distribuição a outras distribuidoras de cinema interessadas em disponibilizar seu catálogo em digital. Os custos operacionais fixados entre a Mobz e a contratante dos serviços, de acordo com uma publicação da empresa, tem o valor fixo de R$ 500,00 (por cidade/cópia). Este valor é independente da quantidade de exibições em cada sala ou cinema.

Os cinemas do circuito digital da Mobz são conectados a um servidor central que executa um software proprietário que abriga os filmes e os distribui junto com trailers e anúncios, e ainda permite que cada exibição seja acompanhada pela distribuidora. Os arquivos e conteúdos digitais poderão ser enviados em Hard Disk (HD) ou via FTP, quando possível, para acelerar a entrega dos filmes e shows para os cinemas e suas audiências. O mesmo documento do parágrafo anterior detalha as especificações técnicas da iniciativa.

Os cinemas digitais no País

Hoje, o Brasil conta com cerca de 2,5 mil salas de cinema. Desse montante, aproximadamente 1500 salas pertencem a empresários brasileiros. Do parque exibidor brasileiro, apenas 14% das salas se modernizaram para receber projetores e técnicos especializados no cinema digital, um patamar bem abaixo dos 48% da média mundial.

Como agravante, ainda não existe um padrão de exibição digital em vigor, o que ainda provoca discussões entre empresários, gestores públicos e técnicos do setor. Por não existir padrão nem previsão de modelos a adotar em todo o circuito, alguns problemas técnicos põem em evidência a necessidade de melhor qualificação da mão de obra e dos suportes tecnológicos envolvidos no processo de produção/distribuição/exibição.

De acordo com Fábio Lima, diretor executivo da Mobz, no Brasil “o que sempre houve, e ainda há, é uma alternativa digital chamada e-cinema, que começou com a Rain, com o objetivo de atender a filmes independentes e de baixo orçamentoâ€. A Rain foi a empresa criada por Lima e seu então sócio, José Eduardo Ferrão que, em parceria com Marco Aurélio Marcondes, deu origem à distribuidora de filmes MovieMobz (em 2008). A partir de 2011, com uma nova formação societária entre Lima, Marco Aurélio e a Circuito Digital, nasce a Mobz. Além de fortalecer a necessidade de entregar variados conteúdos audiovisuais sob demanda ao público, a nova empresa visa também sofisticar as suas tecnologias de exibição e distribuição em direção aos padrões internacionais estabelecidos pelos grandes estúdios.

O padrão DCI, acordado entre os grandes estúdios, envolve altos custos diretos para os grupos de exibição. A migração para o digital significa que os cinemas precisarão investir em novos equipamentos, manutenção e qualificação técnica para a operação dos projetores. Por outro lado, o setor da indústria que mais economiza com a tecnologia é a distribuição, que passa a ser digital. Nos EUA, a solução encontrada para equilibrar esses custos é conhecida como Virtual Print Fee (VPF). Conforme publicação do site "Filme B", o VPF tem se mostrado um dos modelos possíveis para financiar a substituição dos projetores das salas de cinema. A proposta beneficia o exibidor que optou pelo formato digital, já que nesse modelo o distribuidor também arca com parte dos custos de aquisição dos projetores de alta resolução. Essa contribuição é feita pelo distribuidor a uma terceira parte, um elemento integrador formado por uma associação entre fabricantes de projetores e fornecedores de softwares.

Em recente postagem em sua conta do Facebook, Fábio Lima afirma que “os estúdios de Hollywood definiram um padrão mundial de exibição digital chamado DCI (2K e 4K) e seu 'roll-out' foi iniciado em 2008 com modelos de Virtual Print Fee, onde os distribuidores pagam por cópias virtuais como contribuição do financiamento em escala dos circuitosâ€. O mesmo poderia ser feito no Brasil mas, ainda segundo Lima, “diversos elos da cadeia ainda estão despreparados e desconhecem o funcionamento conceitual do digitalâ€, conceito que vai além das discussões tecnológica e econômica apenas. Vale dizer que a maioria dos projetores foram instalados apenas para darem conta dos Blockbusters 3D.

Conforme matéria publicada pelo O Globo, em 23/10/11, “em reuniões com os exibidores, os distribuidores brasileiros têm dito que topam pagar o VPF, mas insistem que os preços dos projetores no país podem atrasar demais o processoâ€. A ANCINE aprovou a desoneração dos impostos federais para importação de projetores digitais 2K mas, para que os impostos com a importação dos projetores não comprometa a modernização do parque exibidor brasileiro, será necessária também a aprovação da Medida Provisória 545 pelo Congresso. Assinada pela presidente Dilma Rousseff, a MP 545 institui o programa Cinema Perto de Você, que visa, entre outras atribuições, ao corte dos impostos para a importação de equipamentos audiovisuais a partir de 1º de janeiro de 2012. O jornalista André Miranda, de O Globo, ainda reporta que “o mesmo texto [da MP 545] já havia sido publicado como MP em 2010 pelo governo Lula, mas o prazo de 120 dias para sua votação expirou e o programa Cinema Perto de Você não foi adianteâ€. Agora, o novo prazo é até o fim de janeiro de 2012.

De acordo com Fábio Lima, em 2013 as cópias de 35mm não circularão mais no mercado americano, o que fará com que toda a indústria precise acelerar ainda mais sua digitalização. As 1500 salas de exibição de empresas brasileiras precisarão de mais de R$ 150.000.000,00 em investimentos nos próximos 4 anos para a total conversão do circuito “e para que não tenhamos salas fechando Brasil aforaâ€. Lima garante que desde julho, “a Mobz se comprometeu a trabalhar para solucionar esta situação, que já envolve setores da indústria e do governo, na formatação de uma solução que atenda ao mercado com rapidezâ€.

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