O fado de Riobaldo em Grande Sertão: veredas

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Dejair Dionísio · Londrina, PR
22/3/2009 · 50 · 0
 

O fado de Riobaldo em Grande Sertão: veredas
Dejair Dionísio
UEL/CNPq/Literafro

Dentre as grandes contribuições da Grécia Clássica à cultura ocidental, o teatro destaca-se ainda nos dias de hoje, especialmente em sua vertente trágica. Lidando basicamente com a questão do destino, clássicos como Édipo Rei e Antígona ainda se apresentam como obras que tocam e formam o ser humano contemporâneo, uma vez que têm uma “mensagem†universal, atemporal: somos manipulados por forças que vão além de nossa compreensão e das quais não se pode escapar.
Tem havido, desde seu surgimento, várias tentativas de se analisar a tragédia e sua capacidade de encantar e prender seus espectadores / leitores, sendo uma das mais conhecidas aquela efetivada por Aristóteles. Para esse filósofo grego, a arte do teatro teria valor na medida em que é capaz de provocar catarse. Em seu texto Poética, Aristóteles afirma que a tragédia tem por uma de suas finalidades a catarse e que esta proporciona a elevação e a purificação da alma, sendo, pois, algo benéfico, na medida em que alivia uma pessoa de sua emoção, de suas angústias e medos deixando-a mais apta a agir racionalmente. Importante ressaltar que, na filosofia grega, agir racionalmente significa libertar-se do “destino†inerente a alguns que vivem por instinto e agem impulsivamente, não tendo, em alguns momentos, capacidade de escolher o curso de sua ação.
Na modernidade, Nietzsche retoma a discussão filosófica sobre a tragédia e o destino e, ao contrário de Aristóteles, que via na tragédia uma “válvula de escape†para a angústia que habita cada ser racional, o filósofo alemão apresenta a tragédia como um tipo de conhecimento que permite descobrir a verdade mais profunda do ser humano. O prazer metafísico que é sentido no trágico pode ser uma tradução da inconsciente sabedoria contidas em si mesma, permitindo, segundo as ponderações contidas n’ O Nascimento da Tragédia essa descoberta. Trazida a tona essa verdade, o fim da sua angústia poderia ser interpretado como a própria catarse, uma vez que ela purga a sua alma e o refaz, esclarecendo e pondo fim as suas indagações.
Com essas noções presentes, uma investigação acerca do destino na obra Grande Sertão: Veredas deve passar pela indagação acerca da possibilidade de cada ser humano escolher seu curso de ação: estariam Riobaldo e Diadorim fadados a se encontrar e se desencontrar? Seria Hermógenes a personificação do fado dos dois vingadores? Hermógenes poderia ter agido de forma diferente, de modo a não causar a necessidade de vingança em Riobaldo e Diadorim?
Segundo Giovanni Reale (1995, p. 124), os estóicos afirmavam que o destino é a lei segundo a qual aconteceram todas as coisas acontecidas, acontecem as que acontecem, acontecerão as que vierem a acontecer. Assim, o amor de Riobaldo e Diadorim, sua jornada por vingança, a crueldade de Hermógenes, a beleza e a dureza da paisagem do sertão mineiro... Tudo isto é destino. Mas, seria também destino fazer um pacto com o Diabo? Esta parece ser a grande questão de Riobaldo, a fonte de seu desespero, a sua tragédia e a sua busca ininterrupta por uma resposta, por uma desculpa, por que, diferentemente do dramático, no trágico não há ambigüidade em relação ao fim, desde o início há a ameaça da catástrofe que, à vista da existência do destino, acaba sendo inevitável.
Com essa ameaça presente, podemos perceber traços do destino na trajetória dos personagens de Grande Sertão: Veredas. Passando em vários momentos da felicidade para a infelicidade, da dúvida à certeza, pode-se perceber a desmedida da situação do personagem-narrador Riobaldo como, por exemplo, nas seguintes falas: “Cacei melhor coragem e pedi meu destino a Otacília†(GS: V, p. 184); “Eu não era o do certo: eu era o da sina!†(GS: V, p. 473); “No não: gostava por destino, fosse do antigo do ser, donde vem à conta dos prazeres e sofrimentos†(GS: V, p. 352);

“O senhor preste atenção! –; para ficar, uns meus tempos ali, ainda me valia. Senti assim o meu destino. Dormindo com um pano molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca, de noite o destino da gente às vezes conversa, sussurra, explica, até pede para não se atrapalhar o devido, mas ajudar. Crendice? Mas coração não é meio destino?†(GS: V, p. 373)

A necessidade de Riobaldo querer saber se “o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo.†(GS: V, p. 7) leva-o a se indagar se o corpo dos homens está cheio da presença do diabo. Se o diabo realmente habita dentro do homem, então esse diálogo de Riobaldo é interior, é com ele mesmo, é com o humano – um monólogo. Não se trata apenas de uma narrativa acerca do conflito psicológico sobre a existência ou não do diabo, que pode ser visto como o fio condutor da obra, mas também da luta contra um fator transcendental que “controla†o fluxo dos acontecimentos na vida dos personagens e na do leitor – daí a grandeza da obra, que nos cativa e encanta. Riobaldo tem essa necessidade de narrar devido às inquietações que o cercam e sua narrativa tem “ouvintes†universais por que sua luta é a luta de cada ser humano.
Outro ponto a ser destacado nas inquietações de Riobaldo é sua possível referenciação às irmãs Moiras que, na tragédia mitológica grega, são representadas como os estágios do destino humano: uma fabrica (o nascer), outra tece (o viver) e outra corta (o morrer) o fio da vida. As Moiras têm seu correspondente romano na figura mitológica das Parcas, evidenciando que o feminino, em muitas culturas, é visto como a força que tece o destino dos homens. Parece-nos que essas figuras e sua capacidade de trazer o “inevitável†estão presentes na obra. É o caso da mãe de Riobaldo que, ao fazê-lo esmolar, provocou o encontro deste com o menino Reinaldo evidenciado nessa passagem:

“Mas onde é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta. Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu compadre meu Quelemém não conheceu, milhões de milhares de pessoas não conheceram. O senhor pense outra vez, repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar o rio, defronte com o Menino?†(GSV: 102)

Por último a presença da dualidade de sentimentos de Riobaldo por Diadorim e Otacília, como se pode observar na seguinte passagem: “Eu tinha súbitas outras minhas vontades, de passar devagar a mão na pele branca do corpo de Diadorim, que era um escondido. E em Otacília, eu não pensava? No escasso, pensei. Nela, para ser minha mulher, aqueles usos-frutos.†(GS: V, p. 443).
Observando essas passagens e como elas se dialogam tomaremos como possibilidade de percepção que: a mãe de Riobaldo seria a que “fabrica†o seu nascer e o leva a encontrar o Menino Reinaldo; Diadorim que com a travessia do rio “tece†o desenrolar de sua trajetória de conhecimentos das coisas e das pessoas que irão influenciar o seu destino e Otacília, que personifica a sua purificação, pois com o fim daquele que matou o grande chefe dos jagunços e concomitantemente Diadorim – filho deste sela a “morte†e na sua relação com Riobaldo irá purificá-lo, pois com ela passará para outro estágio de sua vida.
Tomamos essas mulheres aqui exemplificadas como sendo a representatividade dessas três fases que se manifestam na obra e “personificam†o fado, a ação do destino e, concomitantemente, os sinais do trágico e da teia que essas personagens femininas constroem, cada uma a seu modo e que em momentos cruciais ajudam a determinar o destino do personagem-narrador.
Justificando o clima de tensão permanente no texto Riobaldo é “conduzido†ao pacto. Sobre o Pacto: “Aquilo – era eu ir à meia-noite, na encruzilhada, esperar o Maligno – fechar o trato, fazer o pacto!†(GS: V, p. 584).
O fado de Riobaldo se apresentará quando ele tenta controlar o seu destino, o que o faz ficar apenas mais próximo a ele. Com o desenrolar da batalha final, na qual acontece a morte de Hermógenes – não pelas mãos de Riobaldo, mas sim, pelas mãos de Diadorim – a tragédia revela-se em toda sua grandiosidade: Diadorim morre, Diadorim é uma mulher. “Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins – que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor...†(GS: V, 870).
A catarse aqui representada como a purificação de Riobaldo acontece na batalha final e se consumará no momento em que ele narra estar prestes a se manter “Esperançando meu destino: desgraça de mim! Eu! Eu...†(GS: V, p. 852). Quase não participa da batalha final, e vê morrer muitos daqueles jagunços que o seguiam, assistindo à consumação do seu destino:

... O diabo na rua, no meio do redemunho... Assim, ah – mirei e vi – o claro claramente: ai Diadorim cravar e sangrar o Hermógenes... Ah, cravou – no vão – e ressurgiu o alto esguicho de sangue: porfiou para bem matar! Soluço que não pude mar que eu queria um socorro de rezar uma palavra que fosse, bradada ou em muda; e secou: e só orvalhou em mim, por prestígios do arrebatado no momento, foi poder imaginar a minha Nossa- Senhora assentada no meio da igreja... Gole de consolo... Como lá embaixo era fel de morte, sem perdão nenhum. Que engoli vivo. Gemidos de todo ódio. Os urros... Como, de repente, não vi mais Diadorim! (GS: V, p. 856)

Para Nietzsche, a aniquilação do herói acontece para o nosso prazer “porque ele não é, apesar de tudo, senão um fenômeno e porque a eterna vida da vontade não aflorou para seu aniquilamento.†(NIETZSCHE, p. 116).
A morte de Hermógenes e de Diadorim consuma a sua travessia, seu fado. Está liberto, surge um novo horizonte à sua frente.
Travessia.

BIBLIOGRAFIA:
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da Tragédia. Tradução de Antonio Carlos Braga. Editora Escala - São Paulo, 2007.
REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Vol. V. Trad. Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine. SP: Loyola, 1995.
ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Texto em PDF. Editora Nova Aguilar, 1994.
ROSS, David. Aristóteles. Trad. de Luís Filipe B. S. S. Teixeira. Lisboa: Dom Quixote, 1987.

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