O Individualismo de Cruz e Sousa

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Bruno Delecave · Rio de Janeiro, RJ
14/12/2009 · 0 · 0
 

Cruz e Sousa nasceu em 1861 e apenas 24 anos depois publicou seu primeiro livro de poesias, Tropos e Fantasias. O maior poeta simbolista do Brasil, afastou-se do então prestigiado Parnasianismo e seus “clacissimos†em função de uma poesia sonora e imagética. Sua escolha voltava-se para a própria subjetividade do autor, para o seu “euâ€, ou ainda, para sua individualidade.

Foi justamente o direcionamento para a subjetivida indivual razão e causa de seu sucesso; como observou um ensaísta francês chamado Roger Bastide: “Cruz e Sousa construiu só com o seu cérebro, o seu mundo poético, elabora, isento de qualquer influência, a sua própria experiência simbólicaâ€, ou ainda antes, por Victor Vianna, em 1923: o poeta “exprimindo um estado de alma pessoal, tem larga repercussão geralâ€. Esta repercussão só veio após a morte por tuberculose em 1898.

O simbolismo manteve-se à margem da literatura endossada pela academia da êpoca, somente sendo reconhecido no Brasil mais tarde. A procura por um caminho próprio, ao renegar o tradicional e o cânone, exprimia uma atitude individualista. Afinal, como escreveu Ian Watt:



Em muitas definições psicológicas, o termo “individualismo equivale à egosísmo, indicando uma total independência interna do indivíduo em relação às outras pessoas ou às instituições; (…) nos primórdios, individualismo não era essencialmente um termo psicológico; era fundamentalmente, e ainda é, uma especificação social; (…) Vários países e períodos históricos têm sido apontados como individualistas.



Entretanto faz um ressalva logo adiante: “…individualismo como algo que começou com uma base cristã, (…) em que cada indivíduo seria uma entidade moralmente autônoma. (…) É um fenômeno do mundo ocidentalâ€.

Cruz e Sousa recebeu essa formação ocidental, possibilitada por generosos senhores brancos, ainda no perído da escravidão brasileira. A Lei Ãurea só aboliria a escravidão em 1888, quando o poeta já tinha completado sua educação e publicado seu livro de estréia.

Vida sofrida, morte prematura, origem escrava e negro em um país escravocráta e racista; nada disso impediu o gênio de Cruz e Sousa de manifestar-se. Fundamental para este sucesso de um indivíduo contra tantas dificuldades foi a educação dada pelo ex-senhor branco Guilherme de Sousa, Marechal-de-Campo que adotou o poeta ainda criança e de quem este adotou o sobrenome.

Como mostrou o também poeta Paulo Leminski, apesar das dificuldades óbvias, o contraste entre origem negra e educação branca não foram problema: “Cruz e Sousa superou o dilaceramento entre os antagonismos de ser negro no Brasil (mão-de-obra) e dispor do mais sofisticado repertório branco de sua época (o “Espíritoâ€)â€.


Simbolismo e Romântismo



A identificação do individualismo com o movimento Romântico não afasta o simbolista brasileiro do mesmo; ao invés disso, aproxima-o. Novamente quem explica melhor é o poeta Leminski: “… sabemos que o Simbolismo é apenas uma das modulções possíveis do Romantismo. Uma modulção extrema: são os romãnticos mais radicaisâ€.

O Romantismo iniciado na Alemanha adaptara-se bem, apesar de tardiamente, ao Brasil, gerando três gerações de poesia e prosadores. A temática romântica de heróis e oprimidos encontra eco na própria figura e vida de Cruz e Sousa. Afinal, sendo negro, ex-escravo e poeta de qualidade inconstéste, apesar de não ter alcançado o merecido reconhecimento ainda em vida, ele é tanto oprimido quanto herói. A sua foi uma história sofrida, mas é também a história da vitória de um homem contra uma sociedade opressora através do seu valor individual.

O poeta ficou conhecido como “Cisne Negroâ€, e pode até ser visto como um símbolo da luta pelos direitos do negros no Brasil; mas em sua obra não aparece a preocupação com a temâtica social, como aparecera no Romântismo e na obra Castro Alves, por exemplo. Cruz e Sousa prefere abordar outros temas, indo do sensualismo ao macabro e passando sempre pela cor branca.

Entretanto, o traço mais marcante da obra, não é temático, mas estilístico: a preocupação com a sonoridade e, principalmente, o uso abundante da figura de linguagem chamada aliteração (repetição de vogais ou consoantes ao longo de um verso ou poema). Uma famosa estrofe do poema Violões que choram… contruída com aliterações da letra “v†talvez seja uma das mais sonoras e belas passagens da poesia brasileira e continua a encantar leitores até os dias hoje.



Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.




Concluindo, se analisarmos a vida e obra de Cruz e Sousa podemos vê-la como um fruto do individualismo ocidental no Brasil, justamente no final do sec. XIX, período de grandes mudanças no Brasil, reponsáveis por aproximá-lo da modernidade. Assim, podemos apreciar a obra deste poeta não só pela sua qualidade estética, mas também através de um viés sociológico.

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