Terminados os anos oitenta com uma imensa e forte tendência que mudaria o cenário musical de maneira permanente, a ponto de muitos músicos e produtores passar a atuar no mercado de uma maneira que, de certa forma, não condizia com os parâmetros que por muito tempo eram defendidos por músicos, que tratavam a arte como algo intelectual, como meio de educação e liberdade de expressão por meio de suas letras e melodias.
Neste período se exacerbava no país, o que em outros já era comum em meados de 70: a falta de compromisso de músicos e produtores, que de certa forma ignorava a rica cultura musical do país, e grandes músicos desapareciam do cenário em virtude dos novos moldes do mercado fonográfico.
Entrava em cena o que hoje chamamos de “interesse comercial”. Essa expressão de certo modo não ilustra o que realmente houve naquele período, pois quando se menciona mercado fonográfico, automaticamente já está se falando em interesse de lucro. Mas neste caso, o interesse de vender seria o aspecto primário, não importando com o conteúdo musical, nem estilo e muito menos letra. Aquele velho padrão de infinidade de materiais dos músicos da época junto àquela versatilidade tornava-se inútil.
Durante muito tempo os produtores, donos das grandes corporações, conseguiram de certa forma fazer com que todos aceitassem aquele conteúdo deplorável das músicas que invadiam as rádios sem nenhuma resistência por parte daqueles que tinham a intenção de ver grandes e competentes músicos nos principais meios da mídia.
Essa grande hegemonia das grandes gravadoras durou por muitos anos, até por volta do inicio de 90, período em que o meio independente começava a adquirir uma força jamais vista no mercado fonográfico. Tudo era devido as alianças de grandes músicos do passado que tiveram êxito com suas composições e que ainda possuíam recursos adquiridos na época criando seus próprios selos. Muitas gravadoras pequenas e até mesmo estúdios surgiram neste período. A idéia era muito simples: ajudar os músicos independentes a produzirem seus materiais de forma muito mais barata e com qualidade, sem se enquadrar nas tendências do mercado.
Nestes anos começava um movimento aliado ao meio comercial, que fazia com as gravadoras e produtores utilizassem de outros meios para que suas empresas não decretassem falência num curto período de tempo: “A pirataria”.
Ali, então, acontecia o que muitos músicos independentes sonhavam em ver: o empobrecimento das grandes gravadores que se cediam à pirataria e o meio independente que ganhava força a cada dia e forçava de certa forma os grandes empresários a reverem seus conceitos. Mas isso não ajudou em nada para que se pudesse voltar a acreditar na verdadeira música do país.
Se naquela época as gravadoras e produtores priorizavam as vendagens e tinham seu enriquecimento a partir disto, hoje é bem provável que este aspecto não seja dos mais enriquecedores para os produtores e gravadoras.
Com toda essa crise no mercado da musica, é correto acreditar que os grandes meios têm passado por cima de muitos princípios, explorando algo típico do país: a baixa educação intelectual da grande massa. Essa exploração faz com o país não consiga uma identidade plena. A cada ano, por exemplo, as históricas e folclóricas festas têm perdido seu foco principal, dando lugar para o comercialismo exacerbado. É mais ou menos isso que tem acontecido com mercado fonográfico, que vem derrubando nossa história, com uma falsa “evolução” dita pelos produtores. Na musica esse termo deve ser empregado com muito cuidado, pois com certeza vai abrir espaço para uma grande discussão. Se por um lado a era digital entrava com uma grande força nos anos 80 e facilitava muito as produções desde as gravações até a diminuição do tempo de mixagem, ela também possibilitou que a música pudesse ser chata aos nossos ouvidos, com os tais excessos de efeitos produzidos em quase todas as bandas posteriores aos anos 90. Foi criado um padrão musical por toda essa facilidade que a digitalização permite aos músicos e profissionais do ramo. Com isso a esperança de reatar velhas canções e músicos que estavam desaparecidos do meio ficaram totalmente inexistentes. Por muito tempo o som das incríveis válvulas ficou meio apagado neste cenário pouco alentador.
Hoje o que se pode ver, é como a mídia tem criticado a opinião de grandes líderes internacionais quando nossa cultura e de quebra nossa musica é atingida. Para muitos pode parecer arrogância, mas infelizmente é a verdade sobre o nosso momento cultural. Ela que outrora não se importava com o caminho a que nossa música estava enveredando (com uma grande culpa em tudo isso), hoje ela tenta empanar algo que já está mais do que visível.
João Paulo Ribeiro Músico e Jornalista
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!