O meu filme não vai passar na TV, é verdade!

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DF5 · São Paulo, SP
17/1/2013 · 8 · 0
 

A 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes começa amanhã (18/01) com a proposta de evidenciar a nova configuração das produções cinematográficas no Brasil: realizações descentralizadas, fora do eixo Rio de Janeiro - São Paulo, que compõem o novo mapa do audiovisual por aqui. Com mesas de debate, sessões de filmes, seminários, homenagens, dentre outras ações, reúne na cidade histórica integrantes renomados da cena.

Gabriel Martins é um exemplo concreto deste momento inaugural do setor. O cineasta é sócio-fundador da produtora Filmes de Plástico, em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, e terá seu curta-metragem “Meu Amigo Mineiro” exibido durante a Mostra.
Contudo, esta não é a primeira vez que participa do evento, que é bastante relevante em seu percurso e crescimento como realizador.

Bem além de suas participações em Tiradentes, o envolvimento dele com o cinema o torna uma figura interessante por si só. O rapaz fomenta as produções independentes desde o fim da adolescência e, atualmente, é um dos principais fomentadores do ramo em Minas Gerais. Confira a entrevista feita com ele:

O espaço comum, uma produtora e a afinidade com os parceiros que encontramos no caminho.

Eu, Maurílio e André temos trajetórias e idades bem diferentes, mas uma maneira muito próxima de olhar o mundo, o nosso redor. Crescemos em bairros periféricos próximos em momentos distintos, mas com muito carinho com o espaço, com as pessoas, com as diferenças, e isso molda o olhar. Somos irmãos, essa é a verdade, absurdamente apaixonados e teimosos. Juntos montamos a Filmes de Plástico em 2009. Contamos o nascimento dela pela assinatura da produção do "Filme de Sábado", um curta que fiz.

O cinema que nasce com a gente.

Sempre pensei em fazer cinema, desde que me entendo por gente. Sou fruto de uma geração que pôde fazer oficinas, pequenos cursos e ter câmeras digitais para filmar. Fiz meu primeiro filme em 2005, aos 17 anos, tendo visto poucos filmes que hoje vejo como essenciais. Daí comecei a conhecer muita gente, como o André Novais, hoje sócio da produtora, e posteriormente o Maurílio Martins, que formou comigo na faculdade.

Da Globo Filmes à produção independente pautada por festivais. Como você vê o cinema hoje no país?

As grandes produções, principalmente as comédias vindas da Globo Filmes e cia, acho em geral horríveis - salvo raras exceções. Não me apetecem em nada e reforçam a meu ver preconceitos bobos e manutenção de certos ideais que a meu ver refletem o que há de pior em nossa sociedade.

De um lado oposto, vejo algumas produções independentes em curta e longa-metragem que parecem se pautar por um selo curatorial de festivais internacionais grandes. O realizador passa a se preocupar excessivamente com calendários, com onde é melhor estrear, por onde o filme deve passar e isso a meu ver deixa a coisa um pouco pobre, e algumas obras menos verdadeiras quando pautadas anteriormente por esse resultado final.

Como está hoje a produção audiovisual no país?

Tem coisa pra caramba rolando, muito filme. Tento acompanhar o máximo possível mas ainda assim fica difícil. Fica até difícil falar sobre o cinema brasileiro hoje porque se tirarmos as produções que chegam aos cinemas e os filmes que tem grande carreira principalmente em festivais, ainda vamos nos deparar com uma série de filmes que talvez não se encaixem em nenhuma destas duas "plataformas" de exibição. Tem filme de ação rolando, de zumbi, de terror e tudo mais. Fico muito feliz de ver que tem muita gente produzindo e arriscando, do jeito que puder.

Esse ano a Mostra de Tiradentes traz a tona o cinema "Fora do Centro". Como você vê as produções que estão surgindo além de Rio-SP?

Um comentário recente sobre "O Som ao Redor" resume em parte o que eu penso. Creio que li no Facebook alguém dizendo sobre o sotaque pernambucano, sobre como foi interessante ver isso no cinema em um contexto urbano contemporâneo, a potência disto. Acho que o Brasil não aproveita no cinema hoje nem 1% da matéria prima criativa que o país oferece. As novelas, as séries e a maioria dos filmes são absolutamente viciados enquanto olhar, aproveitam pouco a diversidade de linguagens (em todos os sentidos) que um país grande como o nosso oferece. Atualmente é mais fácil fazer filme que antigamente, e isso vai automaticamente possibilitando que cineastas fora de Rio-SP produzam - com qualidade técnica igual ou superior. Acho problemático aderir a um imediatismo de dizer que atualmente o que é fora do centro é automaticamente melhor. Acho que tem coisas boas vindo de SP e Rio também, muitas vezes de cineastas que nem são originalmente destas cidades - o que faz diferença, sim. Mas sem dúvida alguma é simplesmente incrível o número de filmes interessantes que apareceram nos últimos anos, inclusive gerando espécies de "cenas" em Fortaleza, Recife, João Pessoa/Campina Grande, Curitiba, Contagem e outros. Espero que as produções locais se fortaleçam cada vez mais, tenham mais apoio dos seus governos (Pernambuco está no foco não é à toa).

Há um vínculo interessante entre você e a cidade de Tiradentes, vamos dizer assim. Qual a importância da Mostra de Cinema de Tiradentes (MCT)?

Tiradentes tem proporcionado o encontro entre pessoas de estados e cidades diferentes, com olhares diferenciados. Cada vez mais, com o festival ganhando importância nacional e internacionalmente, os filmes acabam ganhando uma impulsão também. Devo muito a Mostra de Cinema de Tiradentes. Lá conheci o Victor Furtado, do Ceará, amigo com quem dirigi o curta-metragem que passa esse ano. Foi onde fiz minha primeira oficina de cinema na vida, aos 12 anos, na 4ª Mostra, onde exibi meu primeiro curta-metragem, na 9ª Mostra, e o primeiro festival que cobri como crítico (10ª Mostra). E acho um festival sempre interessante. Tem o diferencial de concentrar público, realizador, crítica, imprensa, exibidores, alunos, curadores e etc em um mesmo centro por nove dias, todo mundo próximo a uma distância a pé.

Vários produtores independentes reclamam da curadoria da MCT, por muitas vezes, acharem que a mostra privilegia um grupo fechado de cineastas. E você, o que pensa?

Já discordei em muitos momentos de certas escolhas da curadoria nos últimos anos, mas respeito imensamente o trabalho de Cleber Eduardo e acho que o festival cresceu bastante com sua entrada.

O que acha das leis de incentivo direcionadas ao audiovisual?

Acho algo completamente irregular Brasil afora. Minas Gerais, por exemplo, tem muito pouco incentivo se pensarmos o tamanho do Estado e as diferenças de suas várias cidades. O problema, que todos constatamos, é que não há recurso suficiente para todo mundo. Pior que isso, o recurso colocado é ridículo.

Reflexão? Perspectiva?

Atualmente, felizmente, temos conseguido fazer filmes com mais recurso, o que tem sido importante para cada um conseguir construir o seu caminho de uma possível tranquilidade financeira, sem precisar correr atrás de trabalho em outras áreas que, sabemos por experiência, não nos recebem tão bem. Temos muita coisa ainda a se fazer, mas sem dúvida o caminho trilhado até agora foi absolutamente incrível.

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