O primeiro enigma machadiano

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mauro rosso · Rio de Janeiro, RJ
9/4/2009 · 60 · 1
 

a propósito da recente publicação do livro Queda que as mulheres têm para os tolos,por Ana Clauda Suriani,pela edUnicamp , que ,a meu juízo, na verdade devia ter não esse título , mas sim "Do amor das mulheres para os tolos",pois é este o título original da obra,de autoria do belga Victor Henaux -- descoberto , o registro,a referência da obra, não o volume em si , isto é fundamental saber , por Jean-Michel Massa ; ao dar à obra o título machadiano , a autora tem em mira comprovar que a obra teria sido efetivamente uma tradução de Machado, contudo "Queda que as mulheres têm para os tolos" é uma coisa, "Do amor das mulheres para os tolos" é outra : 'inspirado' na obra do belga Henaux, dela extraindo tema e enfoque, construiu Machado sua própria escrita , esta com um caráter e um cunho absolutamente antecipadores,precursores, anunciadores do ficcionista que viria depois (para honra e glória da Literatura) : este o 'espírito' concreto,efetivo e ,afinal realmente importante, da Queda... escrita por Machado de Assis. e mesmo que se considere ser uma tradução, constatado é o quanto a atividade tradutória de Machado da mesma forma foi inovadora, antecipadora,precursora inclusive de modernos conceitos de teoria literária.
este artigo tem por intento suscitar reflexões,diálogos,debates -- sempre benvindos, culturalmente falando,para dinamizar e enriquecer nossa seara literária.
"(...) na obra de Machado de Assis, toda conclusão do leitor é um risco, porque nela o sentimento do mistério se traduz por um desencanto aparentemente desapaixonado, mas que abre a porta dos sentidos alternativos e transforma toda noção em ambigüidades”
Antonio Candido

Queda que as mulheres têm para os tolos veio a lume no ano de 1861, originalmente publicada na revista A Marmota Fluminense, em cinco números sucessivos: 19, 23, 26, 30 de abril e 03 de maio, e no mesmo ano em livro, um opúsculo de 43 páginas, formato 16 x 12 cm, pela Typographia de Paula Brito. Ao longo do tempo, sucederam-se a edição de 1936, pela Editorial W.M.Jackson Inc, na Coleção Machado de Assis, vol. 22, e a edição de 1943 (fac-similada) pela Academia Brasileira de Letras, na coletânea Ensaios I. Tanto nos folhetins como nos volumes editados aparece sob a indicação de “tradução de Machado de Assis”, sem informar no entanto o nome do autor original.
Estudiosos e pesquisadores de Machado de Assis sustentam, todavia, tratar-se de um trabalho original , disfarçado em tradução por ‘timidez’ do autor, mas o ensaísta (e machadófilo) francês Jean-Michel Massa defendeu, recentemente, ser uma tradução do panfleto publicado anonimamente pela editora F. Renard de Liège, em 1859, com o título “De l'amour des femmes pour les sots”, atribuído posteriormente ao belga Victor Henaux — ainda que estranho seja o fato de apenas citar a obra, sem maiores detalhes, em seu livro Machado de Assis traducteur , tratando dessa e de outras 47 supostas traduções de Machado [diz-se “supostas”, grafado, nem tudo em Machado é plenamente confirmado, principalmente em se tratando de traduções].
O disfarce concebido por Machado, segundo os que asseguram ser uma criação e não tradução – por ‘timidez’ do autor – seria mais um dos inúmeros subterfúgios machadianos: de um lado, por ser Queda... sua primeiríssima obra publicada, em 1861 [ mas é bom notar que de sua autoria o poema “Sonetos”, dedicado a uma misteriosa "Ilma. Sra. D.P.J.A." , identificada muito tempo depois como a sra Dona Petronilha, aparecera no Periódico dos Pobres, de 3 de outubro de 1854, com a assinatura J. M. M. Assis.; em 6 de janeiro de 1855 A Marmota Fluminense , de Francisco Paula Brito, estampara “A palmeira” e em 12 de janeiro “Ela”, até então consideradas as peças pioneiras (denota-se como em Machado nem tudo é definitivo e corriqueiro, as coisas mudam e oferecem volta e meia novas versões)] ; de outro lado, pelo fato de ser ele anda ‘um ilustre desconhecido’ e sobretudo por ser um texto de gênero absolutamente indefinido — não é romance, não é conto, não novela, não crônica, não poesia, não teatro : aproxima-se mais do ensaio (filosófico) .Machado , ‘a la Machado’, teria optado por aparecer como tradutor. Inclusive porque sempre foi (e é) difícil encontrar, comprovar e certificar-se de muitas das traduções feitas por ele – são quase mistério, um permanente desafio a críticos, pesquisadores e estudiosos.
Convém assinalar que nesse mesmo ano de 1859, A Marmota publicou, também em folhetins, dois textos literários muito peculiares no que tange a Machado. De 10 maio a 30 agosto, o conto “Bagatela” , com uma nota inicial informando “O sr. Machado de Assis cujo nome e de cujas produções literárias já os nossos leitores têm conhecimento, pelo que de sua pena se tem publicado, mimoseou-nos com a seguinte tradução,que muito lhe agradecemos, cujo trabalho não é,como o título diz, uma Bagatela”. No entanto, o mesmo Jean-Michel Massa, diferentemente do que sustenta para Queda..., sugere no caso não tratar–se de tradução porquanto reúne elementos suficientes para ser uma criação original, e não uma versão – no melhor estilo da sutileza machadiana. Massa,desconfiado, realizou intensa pesquisa, consultando primeiramente “os melhores especialistas do conto fantástico(M.M. Castex, Vax, Stragliati, M. Versians)” e nenhum deles tinha a menor referência sobre esse texto; depois, buscando localizar na Biblioteca Nacional de Paris o conto entre as principais obras nada menos que 19 obras publicadas entre 1842 e 1859 e em 3 coletâneas de contos fantásticos – da mesma forma nada encontrando. Em última instância, Massa supõe que o conto possa ter sido publicado numa revista literária francesa de pouca importância e algo obscura, da qual não restam exemplares ou registros bibliográficos [J-M. Massa, Dispersos de Machado de Assis, INL, Rio de Janeiro, 1965].
Em contrapartida, a caracterizar de modo insofismável o quanto de ambíguo, dúbio e especulativo pode ser muito do que se refere a Machado , apareceu em A Marmota, de 17 maio a 4 novembro, a novela intitulada “Madalena”, apresentado como “romance original
de M.de A.” [sic] – assinatura interpretada como sendo “Machado de Assis’.. “Madalena” inclui-se no rol daqueles textos “atribuídos a Machado” (quer por José Galante de Souza, quer por Raymundo Magalhães Junior), sem oferecer a necessária certeza , ao contrário levanta dúvidas porquanto a assinatura poderia ser de (Manuel Duarte)Moreira de Azevedo, colaborador de A Marmota e do Jornal das Famílias, escritor que em 1860 publicaria um romance com este título, de acordo com o Dicionário Bibliográfico Brasileiro (1900), de Sacramento Blake – e o texto publicado em A Marmota de 1859 tem forma narrativa, estilo e linguagem semelhantes aos de Moreira de Azevedo em outros escritos seus.
Em se tratando de Machado, sabemos tudo ser possível – o feito pelo não-feito, o criado pelo traduzido, o escrito pelo não-escrito. Nada como esses exemplos para alimentarem especulações, ilações e interpretações em torno não apenas de Queda... – a rigor, um prenúncio do que se desenrolaria na produção literária de Machado – mas de várias outras obras, entre pseudônimos e anonimatos, dúvidas e mistérios, sutilezas e enigmas, disfarces e subterfúgios.
Mestre dessas ‘artes’, Machado utilizou-as à exaustão, como meios e instrumentos de disfarce, a par dos pseudônimos – foram quase 40 assinaturas em contos (como eram publicados em folhetins, por vezes uma assinatura diferente para cada capítulo) e em crônicas. O anonimato iniciado em 1861 com Queda... , em seguida praticado em um texto publicado em quatro folhetins, de 14 maio a 18 junho, em A Semana Ilustrada, intitulado “Conversas com as mulheres”, atingiu seu auge na série “Bons Dias!”, conjunto seqüencial de crônicas publicadas na Gazeta de Notícias de abril 1888 a agosto 1889 – porque somente descoberto e revelado na década de 1950, por J. Galante de Souza, vale dizer cerca de 70 anos depois (!) .
Mistério e enigmas, aliás, não faltam na obra e na carreira literária de Machado. Em Machado, pressente-se sempre que há alguma coisa mais oculta, sem se saber exatamente o quê — e nada, absolutamente nada, o explica satisfatoriamente. Sente-se que existe sempre algo a descobrir no enigma do criador de uma obra de ficção tão importante quanto a dos grandes mestres dos séculos XIX e XX, como Balzac, Stendhal, Flaubert, Proust.
Por outro lado, os que admitem ser efetivamente tradução — como Mario de Alencar (ligadíssimo a Machado), em 1909, e recentemente Ubiratan Machado , ainda assim mantêm suas dúvidas, de resto extensivas a essa dificuldade na localização de traduções efetivamente realizadas por Machado e, importante saber, ao fato de Machado simplesmente suprimir seu nome como tradutor em alguns trabalhos: Mario de Alencar, no texto de Apresentação da edição de peças teatrais de Machado registra “também não foi possível descobrir das traduções que ele fez senão ‘O suplício de uma mulher’, em cópia manuscrita doada com outros papeis à Academia Brasileira. As traduções teriam lugar nesta coleção, como trabalhos que deviam ser compostos com o esmero literário peculiar a toda obra escrita por Machado de Assis. Não coligi todavia ‘O suplício de uma mulher’, atendendo à circunstância de estar riscado na cópia referida o nome do tradutor, o que pareceu indicar a sua intenção de não dar a obra à publicidade em livro,ou talvez a sua opinião de não a ter literalmente acabado”.
Daí, quem garante Queda que as mulheres têm para os tolos ser mesmo uma tradução feita por Machado, ou mais um de seus subterfúgios? E cá entre nós e para nós, a versão considerada por mais de um século é muito mais,digamos,’charmosa’, muito mais – não há dúvida alguma — ao estilo e espírito machadiano: sutil, insinuante, ambíguo, dissimulado. Pois não é essa, a par de outras igualmente grandiosas, a mais espetacular característica/conotação de toda obra de Machado? Ele sempre cultivou a dúvida, o ‘traiu ou não traiu’(implícito em sua maior e definitiva obra), ‘insinuou ou não’, ‘seduziu ou não’, ‘mentiu ou não’, ‘furtou ou não’,‘fez ou não fez’— e é esse teor ‘hamletiano’, a ligá-lo e referenciá-lo a ninguém menos que Shakespeare, uma de suas maiores admirações e citação constante .Dele, Machado assimilou e incorporou à sua obra ficcional a temática do ciúme, aliás o binômio ‘ciúme e perdão’ – presente e atuante em romances como Ressureição, A mão e a luva, sobretudo em Dom Casmurro, e em inúmeros contos : binômio que remete a Freud, de quem Machado consubstanciou – sem o conhecer...— os elementos e conceitos do inconsciente, do psiquismo humano, da sexualidade feminina, estabelecendo como nenhum outro escritor brasileiro de seu tempo vetores e pontos de interseção entre a literatura e a psicanálise, desde as primeiras obras, mesmo as da ‘fase de aprendizado’ e atingindo seu clímax na denominada ‘fase de maturidade’. Como sentencia Roberto Schwarz , “Machado é um autor que em 1880 está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois. Em Esaú e Jacó, por exemplo, antecipou-se a Freud no ‘complexo de Édipo’”. Machado de Assis é o grande autor do romance psicológico brasileiro do século XIX e do início do século XX.
Desde o início de sua criação ficcional em prosa, Machado traçou caminhos próprios e peculiares para tratar das relações entre os homens e as mulheres, mormente depois do romance Iaiá Garcia, em que o poder de observação psicológica dos personagens se acentua — captando, de forma expressiva, o conceito freudiano do desejo inconsciente. Machado foi muito além da visão ingênua dos românticos, do discurso dos realistas e naturalistas, injetando em sua obra muitas sementes da modernidade : criou um estilo de literatura não apenas de observação das pessoas mas sobretudo de interpretação, expondo das pequenas coisas, das passagens a princípio inocentes, um outro lado que muitas vezes aludia à presença, sempre insidiosa, do inconsciente.A essencial temática de Machado de Assis consistia em expressar as sutilezas do mecanismo psicológico no deflagrar de ações, emoções,expressões e reações no comportamento humano . Tinha em vista um prisma polêmico: superar as simplificações mecanicistas praticada pelos epígonos do Naturalismo no final do século XIX, propondo radical e consistente denúncia contra mistificações e imposturas. Possuía uma maneira própria de ver, representar e interpretar o mundo, a começar por seu peculiar processo de criação ficcional, as elaboradas transposições temáticas, tramáticas e de linguagem criando e intertextualizando -- que de resto não se ajusta às definições comuns dos gêneros literários, como no caso a ‘indefinição’ genética de Queda que as mulheres têm para os tolos.

O certo é que Queda que as mulheres têm para os tolos ser ou não tradução é o que menos importa. O que vale ser considerado mesmo é , primeiro, sua própria textura — leve, gracioso, fluente, irônico, bem-humorado — e sua indefinição genética, sua não-identificação formal; depois, ter sido inspiração para muito do que viria a seguir , o modelo de uma ‘teoria amorosa’ exercitada por Machado em “Desencantos”(1861), em Ressureição (1872), e finalmente na opera-mater, a grandiosa Dom Casmurro.(1899) . Queda que as mulheres têm para os tolos adquire representativa especial e peculiar, pois lhe serviu de inspiração para a escrita de sua primeira peça teatral, por cadeia, de seu primeiro romance, e, por fim, de sua obra definitiva e consagradora.. Todos esses textos têm por modelo essa “teoria amorosa” -- traduzida ou não por Machado, em 1861; em todos eles, a ‘ideologia’ da dúvida, da dubiedade, da incerteza, da ambigüidade; todos abordam a questão da escolha que a mulher deve fazer entre um homem de espírito e um homem sem juízo – que constitui-se num dos primordiais arcabouços dramatúrgicos e temáticos da ficção machadiana.Entre os vários e relevantes elementos por meio dos quais Queda que as mulheres têm para os tolos prenuncia, integra-se e intertextualiza-se com diversas obras machadiana,entre eles a ironia, o sarcasmo, a sutileza, a finura psicológica, o vocativo ao leitor, vale destacar o que se pode denominar de ‘diplomacia amorosa’ – expressa pela tríade tolo -- mulher -- homem de espírito que permeia toda a ficção machadiana, sob uma teia dramatúrgica presente em contos e romances ao longo do tempo e da evolução literária de Machado.

Por outro lado, ao se examinar alguns aspectos da atividade de tradutor em Machado de Assis , denota-se que em todas as traduções que fez, se permitiu algumas ‘licenças’, as quais demonstram que, para ele, o traduzir não deveria ser um ofício de menor valor na carreira de um escritor. Machado em sua ação tradutória não compartilhava com seus contemporâneos “o entendimento de cor local, no sentido dado pelo Romantismo – o etnocentrismo, o indigenismo, a paisagem natal como elementos essenciais para se criar uma literatura nacional genuína” – colocando-o em discordância com o momento cultural do País no século XIX. E ia além, criando e praticando um conceito da tradução – na verdade, um processo criador -- que, entre outros aspectos, incorporava em maior ou menor grau sua célebre “teoria do molho” --segundo a qual "pode ir buscar a especiaria alheia, mas há de ser para temperá-la com o molho de sua fábrica.": vale dizer, embora bebesse nas fontes européias utilizadas como ‘comida para seus pensamentos’, ruminava os diversos alimentos e os transformavam em pratos tipicamente machadianos, pois tirava de cada coisa uma parte e fazia o seu ideal de arte, que praticava pioneiramente como ninguém -- reaplicada e reutilizada numa perspectiva das teorias do comparatismo elaboradas por ele próprio, em muitos aspectos antecipadora da vertente atual dos estudos de Literatura Comparada.Como tradutor e crítico-teórico do traduzir, .Machado desde o início de sua carreira literária percebeu como nenhum de seus contemporâneos a importância do papel da tradução como geradora e incentivadora do ‘diálogo’ entre textos, ou ‘diálogo entre literaturas’,como propiciadora da hoje extremamente citada e difundida intertextualidade — na qual, como em muitos outros campos e searas, foi ele também um precursor.
Mauro Rosso

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mauro rosso
 

prezada Helena, sinto-me agraciado com suas observações - e em especial o comentário sobre o tema em si e o conteúdo do texto.e concordo plenamente com suas sugestões -- só que me foi\é praticamente impossível fazê-lo por força da limitação de espaço e no. de caracteres permitido. tive inclusive de contar vários parágrafos -- em tempo : esse texto é parte de um ensaio,bem mais alentado (e melhor formatado...), e comporá livro que publicarei no segundo semestre do ano com o título Queda que as mulheres têm para os tolos : Machado de Assis, o subterfúgio, o feminino, a transcendência literária, pela edPUC-Rio\Loyola (aliás, será o 4o livro meu a sair por elas neste ano: os outros são sobre Arthur Azevedo, em maio; Euclides da Cunha,em julho; Lima Barreto, em setembro. em 2008 pelas editoras publiquei, com sucesso, Contos de Machado de Assis: relicários e raionnés - que inclusive contém um conto inédito, que consegui recuperar).
mas reitero meus emocionados agradecimentos a vc. ao dispor (tb in rosso.mauro@gmail.com). MR

mauro rosso · Rio de Janeiro, RJ 7/4/2009 16:51
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