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O que está errado na ficção científica

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quartelmar · Jundiaí, SP
28/1/2010 · 7 · 0
 

O título deste artigo é, obviamente, narcisista e tolo. O que ele deveria dizer, de fato, é “o que eu, enquanto eu mesmo, não gosto na ficção científica”. Mas tentar impingir opiniões pessoais como se fossem verdades universais é uma antiga tradição da crítica cultural, aqui e lá fora, e não vejo por que não possa me servir dela quando me interessa.

Enfim: o que está errado na ficção científica? Não na ficção científica como um todo, mas em boa parte dela, principalmente na forma como tem sido praticada, historicamente, por muitos dos autores que dela se servem no Brasil e, também, por 9 em cada 10 produtos da indústria cultural de massa (dos quais citarei como exemplos os filmes “Avatar” e “Guerra nas Estrelas”)?.

Em uma sentença simples, ela é anticientífica ou, para ser mais preciso, anticiência. O gênero é permeado por um romantismo obscurantista que insiste, vez após outra, que a análise racional não é o melhor caminho para resolver problemas, sejam eles problemas do indivíduo ou da humanidade.

O melhor é mandar a razão às favas e “ouvir o coração” (ou a alma, o anjo da guarda, Jeová, o espírito da natureza, a Força, Gaia, Jesus, a criança interior, o cão telepata do vizinho, as gônadas).

Nessa visão de mundo, a tecnologia não é algo que revela o potencial do ser humano e liberta a mente, mas algo que o encobre e a aprisiona; a reflexão racional é um instrumento do demônio, não a fonte das maiores realizações humanas e das ações e decisões responsáveis, e a felicidade está em alguma versão idealizada no neolítico ou da idade média.

Não duvido que exista gente que acredita sinceramente nisso. E é óbvio que todo mundo é livre para expor sua visão de mundo no que escreve – isso é, afinal de contas, um dos motivos que levam as pessoas a escrever – mas, primeiro, não me peçam para gostar desse tipo de obra (posso até gostar, mas só se ela tiver muitas qualidades independentes da, com o perdão da palavra, “mensagem”). Segundo – e é aqui que está o verdadeiro problema – o romantismo obscurantista é fácil.

Fácil, no sentido de que ele é capaz de gerar enredos mais depressa do que um mágico transforma lenços em pombos; fácil, no sentido de que tende a produzir empatia no público, ao transformar a preguiça mental em uma qualidade épica e satisfazer, catarticamente, o desejo (não tão) secreto de chutar o balde e libertar o bárbaro interior; fácil, no sentido de que se traveste – facilmente, com o perdão do pleonasmo – em uma mensagem “profunda e verdadeira” de “simplicidade e espontaneidade”.

Essa facilidade toda acaba seduzindo muita gente que de forma alguma subscreveria, conscientemente, à visão de mundo romântico-obscurantista. Meu pedido é: por favor, resistam. Vocês nada têm a perder, exceto um mundaréu de clichês.

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