O que você faz da vida?

Rafael Barros
Zoe entrevista pessoas que passam pela região do Baixo Centro
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Laís Flan · Bauru, SP
10/4/2013 · 0 · 0
 

Por Laís Semis
Foto por Rafael Barros


Você se sente realizado fazendo isso? Você tem outro sonho, vontade de fazer outra coisa? E por que não faz? O que te impede de correr atrás do seu sonho?

Hoje Zoe desceu até a calçada de seu prédio e se armou na rua. Sob um tripé colocou sua câmera conectada a um microfone. Foi em meio a uma crise pessoal que ela decidiu desenvolver o projeto “O que você faz da vida?â€, um documentário sobre o emprego dos moradores de São Paulo. “Vim pra estudar teatro, mas o que eu vou fazer até conseguir viver disso, se um dia eu conseguir?â€, indaga ela por trás das câmeras e dos óculos grandes. “Quantas pessoas gastam 45 horas na semana fazendo o que detestam, gastando mais 8 horas por dia dormindo... e quantas horas você gasta vivendo?â€, ela me pergunta.

A proposta do documentário integra a programação do Festival Baixo Centro que traz 10 dias de intervenções espalhadas em diferentes pontos da cidade. E apesar da curiosidade e estranhamento ao ver uma menina com uma câmera tentando fazer contato com as pessoas, poucos se permitem aproximar ou se envolver, mesmo que pra responder 4 perguntas em menos de 1 minuto. Isso porque as ruas se tornaram apenas lugar de circulação, e a proposta do Festival é justamente a de tomar a rua e resgatá-la enquanto espaço comum de encontro e interação.

Durante 3 dias, Zoe vai pra rua com seus equipamentos em lugares diferentes para questionar quem estiver passando. A primeira pergunta é aberta, sem nenhuma angulação específica e eles respondem como entendem. “Muitas coisas, corro, cuido dos filhos...â€, mas a maioria entende apenas como trabalho.

Você tem outro sonho?
- Claro, vários. - uma mulher responde a Zoe.

A maioria tem outros sonhos nada relacionados com a área em que trabalham. Eles são funcionários públicos, gerente de tecnologia, operadores de telemarketing, professores, músicos, empregadas domésticas. Todo tipo de profissionais perambulando apressados pela rua, insatisfeitos com seus trabalhos.

E o que os impede de correr atrás do que realmente querem é (segundo os próprios entrevistados) o dinheiro pra comer, manter a família, não ter tido oportunidade e o fato de estar acomodado. Mas grande parte ainda pensa em usar o dinheiro dos seus trabalhos atuais para “financiar†seus sonhos num futuro.

A constatação que Zoe faz a partir das respostas que obteve em suas entrevistas é de que o ser humano em frente às câmeras sempre estão inclinadas a falar que gostam num primeiro momento, mesmo que entre amigos digam o contrário. Mas quando questionadas sobre seus sonhos e outras coisas que gostariam de fazer, elas vão se abrindo. Talvez muitos nem se quer param para pensar se isso traz felicidade a elas. Essa é um pouco a proposta de Zoe; mais do que deixar as pessoas serem ouvidas, abrirem suas insatisfação, é gerar a reflexão nelas a partir das suas próprias falas.

Mas também pelo lado de Zoe, é encontrar um pouco de conforto nos casos dos que se que se libertaram, como é o caso de Rodolfo, que deve ter seus trinta e poucos anos.

- Sou músico de rua. É, vagabundo, pode ser. Mas não troco por nada no momento; no futuro posso abrir outra porta... eu era funcionário público, professor, total estabilidade e troquei pra ficar na rua tocando em qualquer calçada, pôr um chapéu pra receber. Eu sou muito mais feliz agora e ganho muito melhor, porque professor ganha menos que mendigo.

- Se você pudesse fazer qualquer outra coisa, o que você faria? - questiona Zoe a ele.

- O que eu faço.

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