Artigo de Roberto Barros, de São Paulo
Após breve exibição nos limitados circuitos da 26ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, o mais recente longa-metragem do aclama do diretor inglês Ken Loach, `Apenas um beijo`, teve breve passagem pelos cinemas brasileiros. Trata-se do filme Apenas um beijo ou – no original – Ae fond kiss..., filmado em 2004. Loach tornou-se conhecido pelas platéias brasileiras, principalmente, através de filmes da dimensão de Terra e Liberdade (1995) e Pão e Rosas (2000) – tratando respectivamente sobre a história social da revolução espanhola na década de 1930 e o cotidiano dos trabalhadores imigrantes, na Los Angeles dos anos 90 –, muito embora sua carreira filmográfica aproxime-se já de quatro décadas. A necessidade imperiosa de Loach em expressar esteticamente a “cultura vivida” das classes trabalhadoras – em suas múltiplas manifestações, a partir de vários eixos e fases de seu próprio desenvolvimento em processo – certamente constitui o fio condutor do conjunto de sua obra audiovisual.
Por quase 40 anos – incluindo cerca de 60 filmes, 18 longas, vários docu-dramas e documentários televisivos –, Loach tem imprimido no celulóide de seus filmes a realidade da sociedade de classes no Reino Unido e, posteriormente, no mundo. Desde seus primeiros dias no Canal Britânico de Radiodifusão (BBC, em inglês) – no qual produziu as célebres Wednesday Plays (“Peças de Quarta-feira”) –, passando pelos documentários (muitos deles vetados e/ou censurados) dos anos 80 até, por fim, sua obra cinematográfica do pós-1990. Loach logrou manter um “intransigente compromisso com a experiência operária, retratando tanto a incansável batalha pela sobrevivência na sociedade capitalista quanto a resistência e a luta contra a opressão e a exploração” (Newsinger, 1999). Passou, enfim, incólume à prova da história: enfrentou o conservadorismo de Tatcher, o suposto “fim das ideologias” e o New Labour de Blair. Um novo filme de Loach sempre causa, por conseguinte, uma certa (e justificada) expectativa.
“Apenas um beijo”: ruptura ou continuidade?
Em seu terceiro filme rodado na capital escocesa de Glasgow – uma co-produção anglo-belga-ítalo-germano-espanhola que, junto a My Name Is Joe (“Meu Nome é Joe”, 1998) e Sweet Sixteen (algo como “Meus Doces Dezesseis Anos”, 2002), perfazem uma espécie de trilogia não-premeditada – Loach apresenta os conflitos sociais, culturais, nacionais, étnicos e até mesmo inter-geracionais derivados da relação amorosa surgida entre o disk-jockey (DJ), muçulmano e descendente de imigrantes paquistaneses, Qasim, e sua antagonista, a professora de música, católica, e de origem irlandesa: Raisin. Até aqui o que se nos apresenta é, apesar das particularidades, mais uma love story. As dúvidas são inevitáveis. Teria Loach abandonado (ou diluído) uma perspectiva crítica tão laboriosamente – e em circunstâncias assaz difíceis, construída através de décadas a fio? Teriam os acontecimentos de 11 de setembro de 20015 contribuído para um deslocamento – ético-político, histórico-filosófico e estético – no horizonte do cineasta? Teria a tal agenda pós-modernista – com seus slogans vazios (e, no mais das vezes, neoliberais) de “multiculturalismo”, “identidade/alteridade” e “elogio à diferença” – turvado a visão social de mundo do quiçá último diretor socialista remanescente?
Em sua imediaticidade e, de forma um tanto unilateral, poder-se-ia responder às questões acima enunciadas de forma positiva. Neste sentido, o último filme lançado por Loach no Brasil constituiria muito mais uma ruptura do que uma continuidade em relação à trajetória previamente delineada. Evidências empíricas, para comprovar tal “tese”, não faltam. A textura e a ambiência do filme nada têm a ver com a humilhação dos sem-tetos ou a assombração do desemprego outrora retratadas. Tampouco a derrota iminente, a traição inesperada ou o indelével fardo da exploração social são seu foco central. Mais ainda, seus protagonistas encontram momentos de sublevação em lugar, por um lado, algo distante dos projetos coletivos e, por outro, inédito – ao menos tão ostensivamente – na filmografia do autor: o amor romântico com direito, inclusive, a longas e tórridas (estas sim: inéditas) cenas de erotismo explícito e explosiva sexualidade em ato.
O banho de imersão na subjetividade (e em seu mapa dos afetos), porém, não reduz – de per se – a dinâmica viva das relações sociais. Pelo contrário. O que de fato ocorre, no caso, é uma aproximação – como uma espécie de close-up – à esfera cotidiana da família, da tradição e dos costumes em conflito entre grupos sociais do alvorecer do século XXI que, simultaneamente, produz um distanciamento do plano eminentemente político, em sentido estreito. (...)
Não entendi uma coisa. Você postou um artigo de outra pessoa, é isso? E que provavelmente foi publicado previamente em algum lugar, certo?
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 21/5/2006 16:17Pois é, Gustavo. Você podia explicar aqui no comentário se os autores tão cientes e permitem a reprodução de seus textos aqui no Overmundo? Isso é superimportante!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/5/2006 13:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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