Ao contar, empolgado, sobre referências ultra-sublimadas e indicÃcios de metalinguagem no meu último delÃrio ficcional, lembro de Murilo - grande teórico da linguagem e dotado de um pensamento analÃtico raro hoje em dia - sentenciar que "o escrever sobre o escrever é o futuro do escrever."
Começamos a lembrar, juntos - de pé no balcão do Leandro - outros fenômenos metalinguÃsticos e o primeiro a ser citado, naturalmente, foi Rubem Fonseca. Os protagonistas de seus romances são, muitas vezes, escritores escrevendo romances. Paul Auster já utilizou o mesmo recurso algumas vezes. E ele é tão últil e fértil justamente porque trata da busca e não do resultado. Escrever um livro é parir um filho. E relatar as peripércias dessa gestação é uma forma de tentar entender o porque do ato de escrever. O que o motiva? Para quem escreve? De onde escreve? De que modo escreve? Bem, sobre isso não há lá muito mistério. Escreve-se com a bunda sentada na cadeira e os dedos dançando no teclado. É esse o "processo criativo" de todo escritor. Não há exercÃcio mais vulgar. O que passa pela sua cabeça - antes, durante e depois de parir a criatura gosmenta do seu cérebro - é a matéria prima da metalinguagem. E o mais interessante é que essa metalinguagem pode se sofisticar e fazer interconexões e auto-referências no próprio corpo do texto que lemos, usando o subterfúgio de histórias dentro de histórias, histórias paralelas, contraditórias, aparentemente desconexas.
O perigo é a referência ser tão sutil que ninguém entenda. Foi o que ocorreu comigo. Tentava convencer Murilo de que o personagem da minha história, enquanto escrevia seu livro, se reportava ao livro que eu escrevia - o livro que o tinha como personagem principal (?) - mas, nesse caso, não seria eu o personagem principal? Todo escritor não é o personagem principal do próprio livro que escreve e os personagens coadjuvantes resquÃcios da sua personalidade fragmentada? Acho perigoso o escritor se encantar com as maravilhas da metalinguagem e bananizá-la. Porque trata-se de uma ferramenta - ou um tempero - que deve ser usado na medida certa para não desandar a receita. Se o escritor passa 200 páginas com bloqueio criativo - é o que acontece com o roteirista do filme Adaptção, de kaufman (uma merda) - então a metalinguagem vira metaxaropagem. O ideal é que o tal artista - ele próprio uma criação artÃstica, enquanto personagem - faça da sua arte um veÃculo de trasnposição - uma janela, um portal - para proposta original. Deste modo a cobra morde o próprio rabo e o ciclo se completa. Podem haver milhares de anéis nesse trajeto, todos envoltos uns nos outros, formando a corrente narrativa que dá coerência e sabor ao texto. E assim transpor de uma narrativa para outra.
De modo que é um pouco de exagero afirmar que "o escrever sobre o escrever é o futuro do escrever" mas certamente o escrever sobre o escrever é parte intrÃnseca do escrever. Ou esqueçam tudo que escrevi.
"escrever sobre o escrever é o futuro do escrever" - andré, não fui eu que disse isso! - eu disse: foi haroldo de campos - ou augusto de campos - ou zezinho de campos, não lembro mais - o autor de um livro chamado galáxias... um bom livro... eruditão demais... tipo: arroto perfumado... o cara quer aloprar, mas é tão erudito que não dá para acompanhar direito nem o que os personagens que estão na mendincância falam... bom, tem o nietótchka niézvanova do dostoiéski... o primeiro capÃtulo desse livro é do caralho... o resto é uma bosta... mas o primeiro é metalingüÃstico... e num sentido interessante: o personagem é um artista, como dostoévski, mas um violinista e não um escritor... seja como for, o cara vive acusando a esposa de podar seus dons... e isso acontece com todo tipo de artista... achei do caralho... abração, murilo.
Murilo Seabra · BrasÃlia, DF 25/10/2006 01:18Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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