"outro susto, longe dos arquétipos, uma consciência crítica sobre a sua própria criação. labirinto de paixões" - Alberto Infante, Diário Austral.
"dentro de seu repertório, aproxima a música sem palavras da poesia que só precisa desse silêncio eternamente em construção" - Clarice Flor, Suplemento Palavra.
"mais um dj" - Marcel Ginsber-war, News Days Poems.
"estou ansiosa por ver todas as paixões que enlouquecem!" - Anônimo, Fã Clube.
"quando um músico se aproxima de poemas eu começo a sentir arrepios" - Poeta Anônimo, Clube de Literatura dos Corações Solitários do Sargento Carrero.
Desde que assistimos ao show de Vítor Araújo no Recbeat do ano passado, ficamos com vontade de conversar essas nossas conversas – apelidadas de entrevista. Mas acabamos esbarrando no confuso abismo das comunicações, ou seja, para esta conversa ir ao ar nós seguimos este estranho caminho: myspace →; twitter →; myspace →; e-mail →; twitter →; telefone →; twitter →; e-mail. Vale aqui uma reflexão sobre os inúmeros meios midiáticos: Precisamos realmente disso tudo?
Enfim... Dedicamos essa entrevista a Bruno Negaum, do Recife Rock, que deu uma enorme força para que ela fosse ao ar; bem como a Vítor, que colaborou para que a conversa tenha valido a pena, tenha valido toda a espera.
por Júlio Rennó.
A história de um músico se constrói antes mesmo que ele se aperceba que os seus ouvidos são atentos, indiferentes à sua vontade, a uma canção que soa no ar, há uma melodia que causa curiosidade, aos pais sentados no sofá com um LP nas mãos... Gostaríamos que você nos falasse sobre as lembranças mais remotas que você tem sobre música, e ainda, se há nessas lembranças algo que tenha a ver com a sua escolha pelo piano como instrumento de sua arte.
Comecei a tocar com 9 anos e não tenho boa memória. Então, tenho a eterna impressão que não há nenhum momento, em minha história onde eu não seja músico. Tenho a eterna impressão que o piano sempre esteve ali no quarto, com a bagunça que faço em cima dele com as partituras. Páginas de Bartok dentro de uma peça de Villa-Lobos... Pedaços de Invenção a Duas Vozes nº2 de Bach entre um movimento e outro de uma sonata de Beethoven, e, mais tarde, algumas partituras de Schumman dentro do Real Book, entre Misty e Summertime, talvez, e alguns Estudos de Chopin perdidos nos Exercícios do Oscar Peterson para iniciantes em Jazz, além de um CD de Nelson Freire tocando Mozart dentro da caixa do "Alma", de Egberto Gismonti, e um disco da Filarmônica de Berlim dentro do LP "Vida", de Chico Buarque...
A sua música chegou causando susto e curiosidade imediata nas pessoas que começavam a procurar entender aquele jovem sobre o piano. Ainda sobre lembranças... Nos fale dos dias que antecederam a sua apresentação no Salão Nobre do Teatro de Santa Isabel, no Recife. Os ensaios, as conversas entre os amigos, a escolha do repertório, as ausências, os experimentos, o medo, enfim.
Ih, agora me pegou. Como disse, não tenho boa memória... Lembro apenas de algumas aulas extras que tomei com minha professora por causa da Dança das Bachianas Brasileiras nº4, o "Miudinho". Muita, mas muita polirritmia. E não sou nenhum Glenn Gould pra ter tanta independência entre as duas mãos, quando o Villa resolve pegar pesado nas polirritmias, é bronca. Me lembro também que eu era doido por uma menina e ela não tava nem aí pra mim, acho que isso tava me preocupando mais na época...
Você já deixou claro em diversas entrevistas que não faz distinção entre música erudita e popular. É tudo música. Mas o simples fato de você ter que sempre deixar claro essa não distinção nos faz pensar que há quem se interesse em separar as “classes”, os “estilos”. A quem interessa essa distinção entre erudito e popular? A música que você faz quer calar essas vozes, quer mostrar que a música tem outras ambições, e que vão muito além dessa simples separação?
Uma coisa é não fazer distinção, na hora de tocar, outra coisa é não saber classificar os tipos de música. A classificação existe em todos os ramos da arte, e é impossível se desvencilhar dela. Assim como existemva2_oc filmes de comédia ou de drama, existem músicas que se encaixam em uma ou em outra vertente, levando em conta ritmo, caráter, época, ausência ou presença de letra, teor da letra, etc, etc. Porém, na minha cabeça de pianista, quando encaro uma obra, não faço distinção entre erudito e popular, gosto de tocar a música respeitando a essência de caráter e sentimento que o compositor depositou ali, mas da forma que me sinto à vontade, da forma que meus dedos pedem, ou da forma em que eu consiga somar ao sentimento primeiro, original, vindo do compositor, as minhas emoções como intérprete. Então, eu, como intérprete, não vou levar em conta se a música é considerada erudita ou popular, vou levar em conta apenas a mensagem que o compositor quer passar pro mundo e o sentimento que eu pretendo levar à plateia.
Gostaríamos que você falasse sobre a música que não é música. Falo da música dos livros, do cinema, das ruas, dos jornais, ou seja, nos fale das artes e artes que têm passado por seus olhos nestes dias...
Vi a final da Copa de 74, Alemanha Ocidental e Holanda, dia desses. Arte da melhor qualidade.
Todos temos mestres, mesmo que para derrubá-los depois de aprendida a lição. E são eles, os próprios mestres, que desejam ser derrubados. Quais são os seus?
Os que eu pensava que eram meus mestres, morriam de medo de serem derrubados, pois, assim como outrora, e ainda hoje pensam alguns religiosos ortodoxos, eles viam a vida e a música sendo regido por dogmas, e, quando comecei a andar com as minhas próprias pernas, quiseram que eu voltasse a engatinhar, de preferência em algum lugar onde eles pudessem me vigiar bem. Já os meus atuais mestres, sou eu que não tenho a pretensão de "derrubar", mas apenas conseguir absorver um pouco de suas genialidades musicais. Tenho dois professores de piano. Um de jazz e uma de piano erudito. Dois grandes mestres: Tony Yucatán e Andréia da Costa Carvalho. Existe também, aqui em Recife, o grande mestre do piano erudito, Edson Bandeira de Melo. Mas esse não é um mestre, é quase um oráculo, só vou visitá-lo em momentos especiais. Mas, meu maior mestre na música é meu querido amigo Naná Vasconcelos, sem dúvida o maior músico que ainda pisa o chão desse planeta. Ouço atentamente cada palavra que ele fala, cada frase e cada silêncio é dotado de sabedoria. E de música.
Depois do furacão e caos da estreia ter passado, o que vem de novidade de suas mãos e ritmo? Vi você cantando em algumas canções do show do ano passado, no RecBeat. Canções autorais com letra de música? O que virá nesses próximos meses?
Criei uma séria de três concertos de caráter ensaístico falando sobre a paixão. Não sobre a paixão romântica, não sobre amor. Falo de uma paixão mais próxima de Almodóvar, de Schumman. Uma paixão que enlouquece, uma paixão terna e uma paixão hedonista, carnal. E assim, criei três Atos, cada um sendo um concerto, para ilustrar esses sentimentos que a paixão leva ao exagero, e vou lançar o primeiro deles esse ano, chama-se Paixão e Fúria (ou O Desespero). Nele, vou tocar mais músicas minhas do que interpretações, algumas músicas terão apoio de cordas, em outras eu vou utilizar alguns pedais de guitarra do piano, além do roteiro do que eu falo nessa espécie de concerto-monólogo, que é formado por textos de Bandeira, Augusto dos Anjos, Arnaldo Antunes, Ortinho e outros... Posteriormente, apresentarei os outros dois, um falando sobre a doçura, a inocência, a infância... e outro falando da euforia, da catarse, do orgasmo.
ps: As fotos originais foram retiradas do myspace do artista.
Publicada originalmente em: http://outroscriticos.blogspot.com/2010/03/outros-criticos-entrevistam-vitor.html
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