'Para o bem do futebol, a Copa deve ser no Brasil'

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LeonardoMendesJúnior · Curitiba, PR
20/1/2007 · 80 · 0
 

"Futebol: O Brasil em campo" é uma espécie de bíblia alternativa do futebol brasileiro. Um livro sagrado para quem enxerga a modalidade além dos gritos de “Haja coração†e da histeria que toma conta do país em ano de Copa do Mundo. O sacerdote responsável pela obra é Alex Bellos, jornalista inglês que passou cinco anos no Brasil trabalhando como correspondente do jornal The Guardian na América do Sul.
Nesse período, viajou o Brasil de Norte a Sul. Resgatou personagens esquecidos, como Aldyr Garcia Schlee, o escritor que na adolescência desenhou a camisa amarela da seleção brasileira, que se tornaria o uniforme esportivo mais famoso do mundo, como Bellos gosta de dizer. Descobriu histórias fantásticas, como a do Peladão de Manaus, o campeonato em que uma bela rainha vale tanto quanto um atacante goleador.
Em 2003, Bellos voltou para Londres. Virou referência local para assuntos da cultura sul-americana. Desde a mundialmente famosa seleção brasileira até a adoração tupiniquim por novelas.
Nessa entrevista exclusiva por e-mail, o jornalista fala sobre sua experiência no Brasil, revela que sofreu mais com a eliminação verde-amarela do que com a inglesa na Copa, deixa no ar um possível novo testamento de "Futebol: O Brasil em campo" e diz que o futebol merece uma Copa no país pentacampeão mundial.

Quando você começou as pesquisas para "Futebol: O Brasil em campo", você disse que pretendia entender por que o Brasil é o país do futebol. Após o livro e o tempo que viveu no país, conseguiu achar uma resposta definitiva?
Alex Bellos – Para responder, tem de decidir o que é ser o país do futebol. Acho que no sentido mais geral, o país se define mais usando o futebol. É mesmo o país do futebol.

Qual história do livro você escolheria para resumir o que significa o futebol para o brasileiro?
AB – Talvez o peladão, o torneio em Manaus. (Nota do blog: realizado anualmente em Manaus, o Peladão reúne centenas de equipes em duas disputas paralelas. Em campo, entre os times, e fora dele, entre as rainhas. É comum equipes eliminadas em campo serem resgatadas graças ao sucesso das suas rainhas. No livro, Alex define o Peladão como o maior campeonato de futebol do mundo).

Aqui no Brasil o seu livro virou referência, especialmente entre jornalistas e gente que acompanha o futebol mais a fundo. Na Inglaterra ele teve a mesma repercussão?
AB – Teve uma repercussão muita boa, mas não é referência sozinho. Faz parte de uns dez livros dos últimos anos que abordam futebol e cultura. Junto com, por exemplo, "Brilliant Orange", sobre a Holanda, e "Football against the enemy", sobre futebol e política.

Em cinco anos de Brasil, virou torcedor de algum time daqui? Qual?
AB – Gostei do Botafogo. Depois passei a ter simpatia por Fluminense e Paysandu.

Depois de "Futebol: O Brasil em campo" você chegou a reunir outras histórias que poderiam render uma segunda edição?
AB – Não. Nem pensei. Mas você me deu uma idéia...

Li um artigo recente seu no Telegraph sobre telenovelas, no qual você cita a adoração dos brasileiros por esse tipo de atração. Esse é um outro tema pelo qual você se interessaria em escrever? E as suas pesquisas sobre o Santo Daime, na Amazônia?
AB – Quando voltei para Londres, virei uma referência para jornais para escrever sobre todos os aspectos da cultura sul-americana. Gosto de escrever sobre isso e topo o que vier. Visitei a comunidade do Céu do Mapia, um centro do Daime, e esse assunto me interessa muito. Gosto de escrever sobre cultura popular e erudita.

Na Copa da Alemanha, o que mais lhe deixou triste: a eliminação da Inglaterra ou a eliminação do Brasil?
AB – Do Brasil.

A seleção brasileira chegou à Copa com aura de imbatível. A eliminação e o mau futebol arranharam a imagem do futebol brasileiro na Europa?
AB – Não. Todo mundo sabe que Copa do Mundo anda muito desacreditada. Jogador exausto, sem hábito de jogar junto, torneio esquisito... Qualquer torcedor vai preferir um Ronaldinho no seu time a um Cannavaro.

O Brasil tem condições de organizar uma boa Copa em 2014?
AB – Sim. Mas ter condições não quer dizer que vai fazer bem. Acho que a Copa tem de ser no Brasil. Para o bem do futebol.

Leia a entrevista na íntegra clicando aqui.

*****
As dicas do Alex.

Brilliant Orange: The Neurotic Genious of Dutch. Escrito pelo jornalista britânico David Winner, conta o nascimento do futebol total na Holanda, no fim dos anos 60, e como a geração de Cruyff e Neskeens, comandada por Rinus Michel, serviu para mostrar seu país no mundo. Além disso, narra o período de “exílio†internacional do futebol laranja e seu retorno ao primeiro mundo da bola a partir do fim dos anos 80, pelos pés de Gullit e Van Basten, sempre estabelecendo uma relação entre a evolução dentro de campo e a trajetória social, política e cultural do país.
Football against the enemy. O site Sports Book Direct define o livro de Simon Kuper como “um fascinante relatou da viagem do autor por 22 países para descobrir os efeitos bizarros que o futebol pode ter na política e na culturaâ€.
Não encontrei sinais de versões brasileiras de nenhum dos dois livros. Para quem manda bem no inglês ou não se importa de ler o livro com um dicionário à mão, o Amazon.com vende Brilliant Orange por umas 6 libras (menos de R$ 30). Já Football against the enemy pode ser lido na íntegra clicando aqui.

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