Muita gente ficou sem entender a reação do goleiro Felipe quando o batedor do Botafogo desperdiçou o último pênalti que garantiu a vaga do Flamengo na final da Taça-Guanabara de 2011. A comemoração do Arqueiro trouxe à tona a dança, e por conseqüência a música, que há semanas vem fazendo a cabeça dos jogadores Rubro-Negros. É o Bonde do Mengão sem Freio! (MC Rell e MC K9) mais um Funk readaptado para homenagear algo referente ao universo do futebol. Como já dito, não é a primeira vez que algo do tipo acontece. Os flamenguistas com certeza ainda não se esqueceram da adaptação do Funk minimalista dedicada ao jogador sérvio Petckovic, da letra original “é o pente, é o pente, é pente” readaptada para “É o Pet, é o Pet, é o Pet!”, repetida exaustivamente em ruas e estádios.
A íntima relação entre música e futebol não é novidade e atravessa importantes momentos a História destas duas gigantes paixões nacionais. Hoje os torcedores são embalados ao som de modernos pancadões cariocas, mas há alguns bons anos atrás até mesmo o Rei Pelé já se aventurou pelo universo da música compondo algumas canções na linha MPB. Mesmo não sendo bom de gogó Pelé é um apaixonado pela música. Os registros não mentem, muitas são as fotos que mostram O Rei abraçado a um vilão em momentos de concentração com a Seleção Brasileira. Pelé chegou a concretizar uma inusitada parceria com Elis Regina o que gerou o compacto Tabelinha, com as canções Vexamão(onde Pelé se auto-ironiza como cantor “Eu não tenho voz, não dá pra eu cantar Elis”) e Perdão não tem, lançado pela Philips em 1969. Pelo visto as músicas não chegaram nem perto da plenitude do talento que Edson Arantes do Nascimento tinha com a bola nos pés.
Um ano após o lançamento do compacto Pelé seria consagrado como grande responsável pela campanha do tricampeonato. Mas quando se fala da Seleção de 70 e música é impossível não lembrarmos do folclórico Wilson Simonal que, entre outras histórias, chegou a ficar concentrado junto aos jogadores da Seleção que jogaria a Copa do México. Em sua ego-trip Simonal chegou a acreditar que seria de fato levado pelo técnico Zagalo e que jogaria a Copa. Conta-se no documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que eu dei que o cantor ficou realmente decepcionado quando revelaram que a tal convocação era uma piada e que ele não seguiria com os demais jogadores até o México.
Ainda circulando pelos anos 70, foi em 1973 que os Novos Baianos lançaram o emblemático disco Novos Baianos FC. A banda vivia na época em sistema comunitário em um sítio no então longínquo bairro de Jacarepaguá. E neste sítio os baianos chegavam a receber até jogadores profissionais nas épicas peladas que organizavam. Contam-se histórias que os músicos, muitas vezes, levavam mais fé em seu time de futebol do que na banda. Mas mesmo com tanto entusiasmo futebolístico os baianos cometeram um disco maravilhoso, que se não trata exclusivamente sobre futebol, é um referendo a um certo brazilian way of life temperado com malandragem e malemolência típica de um meio de campo dos bons. Assim sendo, fica impossível não citar aqui, na íntegra a poética letra de Só se não for brasileiro nessa hora:
“Desde lá, quando me furaram a primeira bola no meio da rua, na minha terra quer dizer, Juazeiro onde se dá ao mesmo tempo Ituaçú.
O ho ho ho, avizinha tem vidraças. Tem sim sinhô.
Ao meus olhos bola, rua, campo e sigo jogando porque eu sei o que sofro e me rebolo para continuar menino como a rua que continua uma pelada.
Que a vida que há do menino atrás da bola: para carro, para tudo. Quando já não há tempo.
Para apito, para grito e o menino deixa a vida pela bola...
Só se não for brasileiro nessa hora!”
É também Impossível falar da relação música e futebol sem citar o poeta popular que com maior esmero se dedicou a cantar a bola. Reza a lenda que Jorge Ben chegou a jogar como ponta-de-lança nas categorias de base do Flamengo, seu time de coração, mas que no final das contas acabou optando pelo violão e trouxe assim ao mundo uma boa porção de belas canções dedicadas ao futebol. Da famosa Umbabaraumba (a história do ponta-de-lança africano), passando pelas obscuras Tupinambá (“Goleiro é pra defender, defesa é pra marcar. Meio de campo é pra criar. O ataque é pra atacar”) e O nome do Rei é Pelé – onde canta: “Jogou 1375 partidas. Fazendo a rede balançar constantemente. Por 10 anos seguidos foi o artilheiro do campeonato paulista. Participou de 50 campeonatos no Brasil e no exterior. Com a realeza de fazer 1281 gols lindos” (ambas do disco Reactivus Amor Est de 2004). Passando pelos sucessos Fio Maravilha, Zagueiro, Camisa 10 da Gávea (referência a Zico); até canções como: Cadê o pênalti?, (em A banda do Zé pretinho, 1978) e Goleiro (do disco 23, de 1993. Sem contar Mais que nada, usada e abusada em trilhas de filmes sobre futebol. Rubro negro apaixonado, Jorge Ben cantou que era Flamengo e tinha uma Nega chamada Teresa. E que depois dela, bem depois (amor) só o Flamengo. E o amor não é pouco como confirma essa entrevista cedida a Rede Cultura nos anos setenta: “Recebi o convite, um contrato de 3 a 5 anos (...) era pra ficar lá em Los Angeles. Era uma soma fabulosa, assim contando muita gente não acredita. De 3 a 5 anos assinaria um contrato de 600 mil dólares. Eu não vou porque seis meses lá já é muito. E lá é o seguinte, eu não vou poder vir toda semana pra ir no Maracanã. Então eu falei que não dá pé.”
Vale citar ainda a iniciativa da revista Placar que lançou um CD no ano de 1996 novas versões dos hinos de clubes brasileiros interpretadas por diversos artistas. Em destaque Tim Maia, que nunca deu a mínima para futebol mas, como bom tijucano, acabou cantando o hino do América. João Gordo emprestou sua voz agressiva para uma versão punk-soft do hino palmeirense. E há de se registrar a ausência de Martinho da Vila e Paulinho da Viola, dois gênios, infelizmente Vascaínos, que não compareceram no projeto.
Para finalizar, provando que a relação Flamengo, craques da bola e o Funk não é coisa nova, vale resgatar o momento vivido no ano de 1995, então centenário do clube, quando a equipe da Gávea contava com a dupla Romário (recém consagrado tetracampeão mundial) e Edmundo. Gênios da bola e também habilidosos fora das quatro linhas no quesito confusão os atacantes firmaram uma parceria no estúdio e lançaram o Rap dos Bad Boys que por um bom tempo ocupou espaço na programação da clássica rádio RPC.
Pô, João, apesar do teu péssimo gosto para o futebol (hehe), gostei da viagem musical motivada pelo funkão sem freio. :)
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 1/3/2011 11:06Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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