O futebol marginal do "Negão Motora"

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Vladimir Cunha · Belém, PA
24/7/2006 · 72 · 1
 

Alcino Neves dos Santos Filho foi um mito. E como todo o mito viveu
cercado de polêmicas, lendas e grandes realizações. Difícil dizer, a
essa altura, o que é verdade e o que se mantém apenas como parte do imaginário da torcida paraense. Mas o que se sabe sobre Alcino é que, no gramado, não houve jogador igual. Em vida, levou o Clube do Remo a vitórias inimagináveis, uma era de glória que o time azulino, com um time medíocre e ameaçado de ser rebaixado para a Série C, talvez jamais consiga reviver novamente. Alcino só não conseguiu ser o maior goleador do Remo. Até hoje, a honra cabe ao atacante Dadinho, com 163 gols marcados durante a sua passagem pelo clube.

Alcino morreu na miséria, vivendo de favor em um sítio de Anindeua.
Nem de longe lembrava o craque fanfarrão e genial, apelidado pela torcida de "Negão Motora", por causa de suas arrancadas. Um goleador de primeira que provocava o time adversário com gestos obscenos, desconcertava zagueiros com seus dribles e tinha um fraco por bebida, farras e mulheres. Em um episódio envolto em controvérsias, seu corpo não foi velado na sede do clube e nem enterrado junto com a bandeira do Remo. Resultado, acusam alguns torcedores e amigos, do descaso com que o clube tratava o seu maior jogador em seus últimos dias de vida.

Nas rodas de conversa que se formam em seu velório, muitas histórias para contar. Como a vez em que Alcino, um grande fã de John Travolta, amanheceu dançando na boate Papa Jimmy, famosa em Belém nos anos 70, às vésperas de um jogo. Chegou ao estádio acabado, pediu para dormir um pouco e acabou saindo no
braço com o técnico azulino Paulo Amaral, o seu algoz com quem
mantinha uma relação de amor e ódio. Apesar do arranca-rabo, entrou em campo e marcou dois gols. Só para depois comemorar a vitória abraçado com Amaral como se nada tivesse acontecido.

A julgar pelas reminiscências dos amigos mais próximos, Alcino viveu
como um popstar, de maneira extravagante e excêntrica, misturando o talento para o futebol com uma vida conturbada e cheia de passagens folclóricas. É famoso o episódio em que, durante um jogo com o Paysandu, após driblar dois zagueiros e um goleiro, sentou na bola a dois palmos da linha do gol antes de fazer balançar as redes do time adversário. Não contente, arriou a calça, mostrando o pênis para torcida. Terminou expulso, mas
provavelmente contente pela vitória dos azulinos por dois a zero em cima do time bicolor e por ter acrescentado mais um fato pitoresco à sua lenda pessoal.

"Sempre que o Remo ia jogar no Rio de Janeiro o Alcino ou ficava
doente ou dava um jeito de não ir", conta o veterano jornalista
esportivo Fernando Araújo na saída do velório, "Depois fomos descobrir que era porque, na juventude, havia participado de um assalto na capital carioca e contra ele tinha um mandado de prisão. Morria de medo de ser reconhecido. Assim era o Alcino. Certa vez, quando jogava no Rio Negro, de Manaus, roubou o ônibus do time e saiu dirigindo pela cidade com a equipe toda dentro do veículo. Terminou atropelando um bêbado que estava atravessando a rua".

A conversa muda de rumo quando alguém começa a discutir sobre o nome do juiz que apitou a célebre partida contra o Paysandu, da qual Alcino foi expulso, enquanto sou abordado por uma senhora já um pouco idosa. Vizinha do Baenão, o estádio oficial do Clube do Remo, Vera Lúcia Amoras recorda das inúmeras vezes em que ajudou Alcino a fugir dos treinos e de quando ele se escondia em sua casa quando procurado por Paulo Amaral. Ela o conheceu quando avistou o jogador se equilibrando por cima de um telhado de brasilit. Com medo dele cair de lá de cima, chamou-o para dentro de sua casa e, junto com a mãe, o escondeu até que Amaral desistisse de procurá-lo. Alcino deu um tempo, fez um lanche e sumiu. De fuga em fuga, nasceu uma amizade que durou até a morte do jogador.

Assim que a discussão sobre o nome do juiz esfria o tema volta a ser
Alcino e um de seus feitos mais gloriosos: o famoso jogo contra o
Flamengo no Maracanã em 25 de outubro de 1975. Uma partida tensa e difícil, decidida quando ele driblou três zagueiros e fez o gol que levaria o clube do Remo à vitória por 2 x 1, calando a torcida rubro-negra e um time que, na época, contava com craques do porte de Zico, Cantarelli e Geraldo Assoviador. Um momento histórico que, reza a lenda, teria levado às lágrimas o radialista Edson Matoso, que narrava a partida para uma rádio local.

Como todo bom guerreiro, Alcino conquistou o respeito dos adversários dentro e fora de campo. No velório, as atenções se voltam para Paulo dos Santos Braga, o Quarentinha, jogador lendário do rival Paysandu, que chega para prestar suas últimas homenagens. Velho oponente de Alcino nos gramados paraenses, ele relembra a irreverência do craque e o seu talento como jogador. "Às vezes ele me tirava do sério com aquelas presepadas. Mas apesar disso era um grande atleta. Brigávamos muito em campo, mas a nossa rivalidade era restrita ao futebol. Admiro muito o Alcino como o grande jogador que ele foi. Para mim ele faz parte de uma geração vitoriosa".

Infelizmente os feitos do maior craque do futebol paraense ficaram no passado. Vítima do alcoolismo e de uma vida desregrada, Alcino viveu os seus últimos anos na miséria, morando de favor em um sítio em Ananindeua, cidade a cerca de 40 minutos da capital paraense. Sem emprego fixo, frequentemente era visto mendigando nos bares do centro de Belém. E no Clube do Remo, pedindo dinheiro para os sócios. Talvez por causa disso tenha sido proibido de freqüentar a sede social do clube e os treinos no Baenão. Para os dirigentes e cartolas azulinos, Alcino era um nome que, definitivamente, havia ficado no passado.

Uma certa ingratidão com o craque que culmina na reação passional do ex-lateral remista Mario Assunção de Carvalho, o Marinho, companheiro de Alcino nos anos 70. Durante o enterro, enquanto torcedores, amigos e ex-jogadores prestavam suas últimas homenagens ao atacante, Marinho não consegue conter a indignação. Para ele, faltou respeito a Alcino que devia, ao menos, ter sido velado na sede do clube. Durante o velório, o que se contou várias vezes é que a própria diretoria azulina teria impedido o velório do craque. Já os dirigentes explicaram que o velório foi realizado em uma capela no centro de Belém a pedido da mulher do craque. E antes que o corpo seja enterrado, um grupo de torcedores retira a bandeira do Remo que cobre o caixão, de dimensões reduzidas e comprada em um camelô durante a ida
ao cemitério.

"Está vendo isso?", pergunta bastante irritado o despachante Adelino Moura, torcedor do Remo, "A diretoria do clube não se dignou sequer a comprar uma bandeira oficial pra gente enterrar o Alcino. Tudo aqui foi bancado pela mulher dele. Pergunta se eles vieram ao enterro ou se mandaram ao menos uma coroa de flores? Sozinho o Alcino vale mais do que toda essa diretoria do Remo. Foi o maior ídolo do futebol paraense e não merecia ser tratado com tanta falta de respeito"

O caixão baixa e a última pá de terra é lançada. Alcino morreu pobre e sozinho, vivendo da ajuda de amigos e de torcedores do Remo. Em parte por culpa dele próprio, que não soube administrar o sucesso e o dinheiro que ganhou quando estava no auge, em parte por causa do descaso do clube, que não criou alternativas para que ele vivesse melhor após o término da carreira. Na memória dos torcedores e dos companheiros de time, ficarão as jogadas geniais e as histórias mirabolantes. E para quem esteve presente ao enterro no começo da tarde desta sexta-feira, a sensação de que o craque não teve um final à altura do mito.

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Rodrigo Teixeira
 

Vlad sua matéria é furiosa. Triste pra caralho. Falta uma foto para acabar de arrancar a tampa do cérebro! Quantos ídolos como o Alcino foram esquecidos neste país, quanta história jogada fora... Nós somos uma país que ainda não acordou para a importância de registrarmos nosso passado. Cultivarmos nossas personas... A memória é pisoteada todos os dias. Uma fotinha pleaseeeee...

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 24/7/2006 22:22
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