Raça Brasil |Jorge Riba | Na fé, na arte e na luta

Xirumba
Show de Jorge Riba no Festival Del Caribe - Cuba em Pernambuco, novembro 2008
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Jorge Riba · Recife, PE
16/7/2011 · 0 · 0
 

Na fé , na arte e na luta
Quando as profundas águas do sagrado se encontram com as águas da cultura de um povo e, essas com as do sonho de mudar a história de sua gente, surge uma intensa e estrondosa pororoca, provocando transformações, como a carreira de Jorge Riba

Por OSWALDO FAUSTINO


Poeta, músico, compositor, rodante em terreiro de candomblé, militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e marceneiro, o pernambucano Jorge Riba, como todo filho de Ogun, não perde a oportunidade de se envolver numa boa guerra. Apesar da calma aparente, o desassossego é sua marca principal. Aos 46 anos, depois de lançar seu CD Meu Recado, e de conquistar um expressivo espaço no mundo do samba, do maracatu e demais manifestações afro-brasileiras de Pernambuco, ele parte para outros estados na ânsia de reavivar a cultura e o orgulho de ser negro em todo o Nordeste brasileiro.

Ainda menino, aos 7 anos, teve sua iniciação no candomblé. Ali, junto aos atabaques, nasceu sua intimidade com os instrumentos de percussão. Aos 11 anos, porém, uma madrinha de seu irmão resolveu presenteá-lo com um violão. "O interessante é que o presente seria para o afilhado, Jairson, mas ela decidiu dálo a mim, talvez por acreditar que eu aproveitaria melhor." Intuitivo, Jorge, em pouco tempo, foi explorando as possibilidades do instrumento, tornando-se um músico autodidata. "Eu considero que a minha introdução no mundo artístico se dá simultânea à compreensão real da força da minha negritude. Isso aconteceu aos 16 anos, quando li O Quilombismo, de Abdias do Nascimento. Ambas as portas se abriram ao mesmo tempo. Entendi que o fazer arte, para mim, não poderia ser apartado de minha atuação política, sob orientação dos professores Inaldete Pinheiro e Edvaldo Ramos e do Ogã Jorge Morais", confessa o artista militante. Nessa mesma época, ele começou a ganhar o pão, tocando em barzinhos. Assim, o ariano recifense Jorge José de Oliveira Ribeiro, nascido na Boa Vista e criado no Morro da Conceição e na praia do Rio Doce, se tornou Jorge Riba.

Como Abdias - pensador e ativista, artista plástico, ator e diretor teatral que jamais se apartou da mais profunda relação com sua religiosidade - Jorge Riba foi desenvolvendo seu dom artístico sem trair suas raízes. Manteve-se no terreiro onde, aos 26 anos, começou a incorporar e também participou, com outros ativistas, da fundação do MNU de Pernambuco.

"EU CONSIDERO QUE A MINHA INTRODUÇÃO NO MUNDO ARTÍSTICO SE DÁ SIMULTÂNEA À COMPREENSÃO REAL DA FORÇA DA MINHA NEGRITUDE. AOS 16 ANOS, QUANDO LI O QUILOMBISMO, DE ABDIAS DO NASCIMENTO"


MADEIRA DE LEI
Dona Alzira Ribeiro, da velha guarda da escola de samba Gigante do Samba, do bairro da Água Fria - a verde e branco, antiga Garotos do Céu, fundada em 1942 e a maior campeã da história do carnaval de Recife - tinha no menino Jorge um devotado fã que se orgulhava de ver a mãe nos ensaios e desfiles. Só aos 12 anos, ele saiu na escola de samba Unidos da Vila, da praia do Rio Doce, pela primeira vez, na ala de frigideiras. É mais ou menos nesse tempo que também aprendeu o ofício de marceneiro. Trabalhando com a madeira - ele hoje atua numa molduraria - aprendeu também as técnicas da fabricação de instrumentos musicais. "Não chego a ser um lutier, mas faço bons instrumentos de percussão, como bombo, surdo, zabumba, alfaia de maracatu, e também ensino a garotada, em oficinas culturais, a tocálos e a construí-los. É o empoderamento através da musicalização", afirma Jorge, que também se dedica à arte-educação, desenvolvendo um trabalho com formação musical para crianças, através da ONG internacional Plan.

Aos 17 anos, mudou-se para a cidade de Salvador, onde conheceu profundamente os blocos de afoxé. "Antes disso, eu já estava envolvido na luta pela revitalização dos maracatus. Era ritmista do bloco Leão Coroado, um dos mais fiéis às tradições afro-pernambucanas. E tentávamos fazer um candomblé de rua. Havia certa rejeição por parte de muitas pessoas", conta Jorge. Segundo ele, um grupo de balé afro, liderado pelo Mestre Zumbi da Bahia e por Ubiracy de Castro, montou o Ilê de África, cujo cortejo contou com a participação de diversos integrantes do movimento negro. "Aí, o próprio MNU de Recife criou o Axé Nagô. Ambos, porém, tiveram vida curta", lamenta.

Ao retornar de Salvador, nos anos 80, Jorge fez-se o maior incentivador para a criação de novos afoxés em sua terra natal. Com o Tata Raminho de Oxossi, ele criou a Ará Odé, que hoje é administrado por Raminho e mãe Lu de Oxalá e se tornou um ponto de cultura.


SANTERIA CUBANO-PERNAMBUCANA
Samba, samba-reggae, afoxé da melhor qualidade, muita arte e cultura, mas sem se descuidar do sagrado. Com essa preocupação, um grupo de ativistas do qual Jorge fazia parte agitou muito em favor da realização de um intercâmbio entre artistas, pesquisadores e religiosos pernambucanos e cubanos, que resultou numa visita, com oficinas culturais, a Santiago de Cuba e na vinda, em 2008, de uma comitiva de mais de 60 pessoas a Recife e Olinda, com festival, palestras, wokshops e rituais. Confirmou-se, então, uma profunda identidade entre as manifestações religiosas e artísticas de ambos os países.

Mas é no samba, ao qual se dedica há mais de 30 anos, que o grande público reconhece Jorge Riba, sócio-fundador do Movimento dos Compositores de Samba de Pernambuco e da Mesa de Samba Autoral, iniciativa totalmente comprometida com a preservação dessa manifestação musical. "Ninguém imagina a minha emoção ao me ver lado a lado, com os personagens mais respeitados no mundo do samba da minha terra, como Belo X e Manézinho de Gigante, entre outros, que sempre admirei desde menino, quando minha mãe me levava na Casa Amarela, onde as escolas de samba são mais fortes. E hoje ganhei a notoriedade de sentar com eles como parceiros." Emoção após emoção. Da Mesa de Samba Autoral, ao lançamento de Meu Recado, seu primeiro CD independente, indicado para o 22º Prêmio da Música Brasileira. Um trabalho que apresenta um leque diversificado de estilos, como o samba de roda, o samba-reggae, a bossa nova, o samba maxixado, o partido alto e por aí afora. "O momento, em Recife, é muito bom para o samba autoral. Tem muita gente criando e pouco espaço para se apresentar, disputado a tapa. Não estou na onda de ficar brigando por espaço. Vou a João Pessoa, a Aracaju, onde tem um grande produtor, Pedro Neto. Vou a Maceió, com a ajuda de irmãos de santo que querem me levar pra lá. Vou conquistando outros espaços, Nordeste afora", garante.

A principal herança que Jorge Riba quer deixar às três filhas - Apilly, Monalisa e Yasmin Luanda - e ao filho Ejigbo, que em março lhe deu o primeiro neto, Inã Ôni, é a identidade e o orgulho afrobrasileiros e a consciência da necessidade do empoderamento sociocultural. "Tenho certeza de que eles farão bom uso dessa herança. Principalmente o meu netinho, cujo nome africano significa 'Senhor do Fogo'. Filho de Xangô, ele é o fogo que prepara a matéria, é o fogo que vai perpetuar a nossa história e a nossa resistência", conclui.

Leia a matéria no site da Raça Brasil:
http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/155/artigo219365-1.asp

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