Y SEMI�;TICO, de Robson Corr�;a de Ara�;jo
Written by Gerson Valle
A viv�;ncia do poeta, com suas amizades e prefer�;ncias (art�;sticas, liter�;rias, filos�;ficas...) est�; diretamente ligada ao cen�;rio de Bras�;lia. Na verdade, forma e conte�;do se interpenetram em tal grau, que as palavras soltas, arrumadas sem necess�;ria sintaxe a lhes prender, dispostas umas sobre as outras, s�;o como pr�;dios, superquadras, parques, eixinhos e eix�;o de Bras�;lia.
Tradicionalmente, apenas se dizia “à clef†a ficção em que o autor não revelava claramente as pessoas e situações narradas que ficavam por trás de seus personagens e narrações. Na Poesia, a distância do realismo e o fascÃnio pelas imagens não obrigatoriamente esclarecidas se fazem, de uma forma geral, por metáforas, metomÃnias, anacolutos, e outras figuras. No surrealismo criou-se até a “escrita automáticaâ€, que se compõe com a espontaneidade do inconsciente deixado escapar sem reflexão ou coordenação do seu significado. Tudo isto tornou-se preponderante em certas correntes da contemporaneidade poética. A ponto de já ninguém buscar uma obrigatória coerência racional no discurso da Poesia. Robson Corrêa de Araújo traz mais que isto em seus versos (Y Semiótico – BrasÃlia, Ed. Independente, 2006). Ele acrescenta-lhes referências “à clef†como tradicionalmente eram empregadas na ficção. Há nomes de pessoas e lembranças de fatos que são do alcance de seus conhecidos ou familiares somente, e que não necessita esclarecer ao leitor. Sobretudo porque fica um subentendido da leitura percebido no enfoque, que não pede esclarecimento, por lidar com os signos despojados de sua carga dicionarista, ou enciclopedista se se preferir, voltados para a composição de um painel pontilhista, onde a visão de conjunto é que cria a expressão maior dentre os traços largados em seus detalhes. Estes são visivelmente significantes na composição integrada.
A relação com a visão é óbvia em uma tal técnica. A Poesia está em se perceber a forma, cores, disposições dos lugares, ambientações, todo o comportamento subjetivamente sugerido na referência “à clefâ€, como se fosse, efetivamente, não uma composição de palavras, mas de artes plásticas. Mesmo as pessoas e fatos passam a constituir imagens. E aà está a magia desses versos soltos, aparentemente desconexos e sem amarras, mas profundamente voltados à captação de uma vivência e de uma cidade.
A vivência do poeta, com suas amizades e preferências (artÃsticas, literárias, filosóficas...) está diretamente ligada ao cenário de BrasÃlia. Na verdade, forma e conteúdo se interpenetram em tal grau, que as palavras soltas, arrumadas sem necessária sintaxe a lhes prender, dispostas umas sobre as outras, são como prédios, superquadras, parques, eixinhos e eixão de BrasÃlia. Há mesmo um grande espaço onde se respira fora do urbanismo referencial nos poucos versos sempre curtos dos poemas contidÃssimos. São como os jardins e canteiros entre as construções de cimento.
O paralelismo entre a Poesia das palavras esparsas com a concepção espaçosa de BrasÃlia é acentuada no livro pelas fotografias que acompanham “pari passu†os poemas. Ao lado de cada poema há uma fotografia do alto de algum recanto de BrasÃlia. Mais do que se fez, me parece, na Poesia Concreta, Robson compõe o visual de seu livro como indispensável à expressão de sua Arte. E isto porque não se trata de um ou outro poema apenas que se sobrepõe semanticamente à imagem (ou vice-versa). É o próprio objeto do livro que constitui o â€meio†e a “mensagem†como um todo. Seu formato quadrado e o preto e branco acentuam isto ainda mais, na relação de uma forma simétrica com a percepção neutralizada das imagens. Em si, retratações pueris que nos trazem o lirismo, Poesia pura “lato sensuâ€.
Somente como curiosidade, eu não poderia deixar de notar que num livro que publiquei em 1981 (edição independente de pouquÃssimos exemplares, que nunca circulou em BrasÃlia, e de que, certamente, Robson nunca ouviu falar), “Confetes de muitos carnavaisâ€, há uma incrÃvel coincidência com a visão do “Y Semiótico†no poema que abre o livro: brasÃlia risca/ o crepúsculo/ em cúpulas/ para cima para baixo// e do alto fica/ quase sem ser cidade/ quando lago/ gramado/ rodovia/ super-quadra/ meio nobre/ esquisita/ como as letras Y ou W
A minha colocação da palavra “esquisitaâ€, no entanto, refletia um pouco da estupefação do carioca que apenas passava por BrasÃlia, sem nunca se fixar na cidade. Robson, ao contrário, demonstra no livro identidade e amor por ela, resultado da vivência própria e que, hoje, já conhecendo melhor BrasÃlia, sinto até desejo de compartilhar. Só me resta mudar-me para lá. Mas, de qualquer forma a ligação de um “Y Semiótico†não só nos aproxima (na coincidência de uma letra como paradigma da cidade, um sentimento nele tão nÃtido) como evidencia, para mim, e para todos os seus leitores, o poeta a se revelar inteiro, corpo e alma, vôo por sobre a cidade amada.
Gerson Valle é membro do conselho editorial do Jornal Poiésis, autor de “Os souverirs da prostituta: a novela de Ipanema†(Catedral das Letras)
Robson, tem algum problema com os caracteres do seu texto. Os caracteres do inÃcio estão ilegÃveis aqui pra mim. Pena que está quase entrando em votação. O que acha de postar novamente (apagando essa aqui) e aproveitar para separar os parágrafos. Acho que assim fica mais fácil de ler.
Ilhandarilha · Vitória, ES 27/8/2007 21:22Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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