TROPA DE ELITE
Alguém até poderá dizer que o filme Tropa de Elite é mais um filme de violência, mais um filme de banditismo do Rio de Janeiro, mais um filme querendo fazer sucesso evidenciando as favelas, as drogas e muito sangue derramado.
Contrariando tais percepções óbvias, o filme tem muito mais a oferecer. Tem conteúdo. Tem qualidade não somente por mostrar a violência assim como ela é, mas a expõe por uma outra perspectiva, por tratar de algumas de suas conseqüências, suas conivências com o poder, o modo como se instala, como é combatida, sua forma de se estruturar nos mais diversos campos da sociedade e controlar a vida das favelas.
Salvo algumas situações hiperbolizadas, podemos crer que o filme é mesmo um retrato fiel do cotidiano babilônico e violento do Rio de Janeiro e, por conseguinte um retrato de parte da nossa sociedade que mergulha na criminalidade, nos vícios, em sua maneira hedionda de se fixar e de se manter, seja no Rio ou em qualquer parte do país.
Claro, o que chama mais atenção no filme é o modo como o BOPE combate, ataca e resiste toda sorte de investida do submundo das drogas, do tráfico e de seus derivados. Um dos maiores motes desse Batalhão seria a crença na honestidade, e uma vez revestidos com esse princípio, os seus combatentes não seriam corrompidos. Seguem à risca essa qualidade do bom caráter, do bom moço, mas de uma forma às vezes muito dura e severa. Essa dureza é fácil de entender, pois eles tratam com pessoas da mais alta periculosidade num ambiente demasiadamente hostil. E num ambiente desses não daria mesmo pra ser um poço de ternura.
O filme tem muitas mensagens politicamente corretas. De um lado tem-se o emprego da força, da persistência, da resistência, da coragem e do equilíbrio representado por Wagner Moura na pele do personagem Nascimento e pelo personagem Neto. Por outro lado mostra a suscetibilidade do caráter humano em relação ao meio corruptível; a fraqueza, as práticas oportunistas, a hipocrisia de alguns ricos universitários perdidos em suas ideologias_ pois suas ações de solidariedade são cúmplices do tráfico_ o abuso de poder e os jogos de conivências por parte da própria polícia.
Dessa mistura, o autor conseguiu criar um bom filme, não somente para fazer corpos rolarem e balas rugirem em um efeito sunrround em nosso Home Theater, mas para mostrar também que ser honesto ainda vale muito a pena.
Às vezes, parece que o Batalhão de Operações Especiais, em suas ocorrências e pelo modo de operar quer imitar nosso dia-a-dia. Às vezes nossas lutas e nosso modo de agir perante a realidade se parece com as rotinas de um verdadeiro BOPE. Ás vezes tem que expor a cara a tapa. Os dois lados. Temos que aprender a ser forte e destemidos e estarmos preparados para a guerra. Tanto a guerra contra toda a sorte de violência quanto àquela desferida contra nossos valores morais e princípios. Às vezes é fácil demais sermos corrompidos, fácil demais fraquejarmos diante de uma luta, diante de uma prova da vida, fácil demais desistirmos no meio do caminho, fácil demais colocarmos nossas máscaras e deslizarmos para o mundo da hipocrisia.
Pode-se levar até muitos tapas e pontapés da vida, mas desistir da luta talvez não será uma saída honrosa. Tem que fincar os pés no chão e resistir perante os nossos inimigos, e esse inimigo poderá ser nós mesmo.
Talvez podemos não ganhar a caveira do BOPE diante dessa resistência, mas, uma lição pelo menos aprenderemos.
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