Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Último Round: Máxima Poética, Mínimas Palavras

Paulo Gutemberg
Poeta Rogério Newton
1
Elias Paz e Silva · Teresina, PI
20/1/2009 · 53 · 0
 

Um livro de poemas para se degustar à vontade: comê-lo, fruindo o prazer estético e compreendê-lo, interpretando-o, dialogando em silêncio com o autor, à luz da sensibilidade e da razão crítica. Último Round - livro de poesia de estréia de Rogério Newton Carvalho de Sousa - é um presente que cabe no bolso, acalenta o coração e está predestinado a ser uma referência na produção literária de expressão piauiense e brasileira.

Lançado no último dia 09 de abril [ de 2003 ] em Oeiras-Piauí - cidade natal do poeta -, em praça pública, com direito a performance teatral, Último Round é a síntese (os poemas são curtos) do trabalho de Rogério Newton com a palavra poética, ao longo de vinte anos. Cronista, com dois livros publicados (Ruínas da Memória, 1994 e Pescadores da Tribo, 2001), Rogério Newton já trouxera a público poemas esparsos em antologias e jornais (Baião de Todos, 1996 e Floretim, 1985), que nos davam o vislumbre do poeta que é e do homem, atento aos eflúvios da vida.

Último Round é composto de 30 poemas mínimos (poemas-comprimidos à la Oswald de Andrade), que refletem a natureza do trabalho do autor e caracterizam suas preocupações estético-existenciais. Das muitas vozes que polifonam a poética rogeriana detectamos um time seleto, que vai de Ezra Pound aos Concretos, Bandeira e Geração Mimeógrafo, da qual faz parte. Todavia, Rogério Newton tem estilo e dicção próprios, que fazem dele uma "voz reconhecível" em meio a tantas vozes poéticas.

Rigor estético, síntese, rimas raras, ricas, pobres, ritmo dissoluto, temas cotidianos e universais, Último Round traz pequenas obras-primas poéticas, perpassadas pelo desencanto romântico lírico consigo mesmo e com o mundo (Sou um homem / sincero / elevado / a / zero) e pela coragem épica de encarar a vida e o labor literário. Não é à toa que o poeta inaugura seu ofício literário em livro aos 44 anos, idade em que a maturidade existencial é um signo natural. O anti-épico pós-moderno "Ser/Res/Ser" ou o "fito/in/finito" são diminutas reflexões poéticas, que extrapolam ao campo literário e estão em intersecção com a filosofia e a religião. Rogério Newton diz poeticamente, com a expressão mínima, máximas de vasto conteúdo.

O projeto ético-estético do poeta está expresso em "ser campeão de poemas ao cesto", não um poeta bissexto. Diz do rigor e da responsabilidade com que o autor encara sua "profissão". Há, também, em Último Round, maestria, inventividade e originalidade, uma sensibilidade apurada em contemplar a natureza e os pequenos acontecimentos do cotidiano como veio poético, como em "Cigarra": Farpas de Canto/Na Estaca da Cerca, que indica a relação do poeta com o mundo e o canto, que fere e interfere em sua percepção estético-existencial.

Máximas mínimas, cheias de anfibologias e metáforas inusitadas, ironia leve, à moda Zen, lirismo sintético e contido são as marcas estilísticas de Último Round. Que o leitor/internauta mergulhe, pois, no universo poético rogeriano, como se mergulha no mar revolto ou no rio tranqüilo da vida, para tirar as suas próprias conclusões. Eis, pois, o Round decisivo da luta boxeana que é vida, com o melhor do poeta.



ENTREVISTA (com Rogério Newton, poeta piauiense)


Elias Paz e Silva: - Como nasce o poema em você ou qual o seu processo criativo?

Rogério Newton: - Em relação à crônica, gosto de dizer: escrever é puxar o fio do novelo. O texto já está no fio à espera de ser tecido. A aranha tece puxando o fio da teia. O código já tá nela. O poema nasce com o mesmo mistério que há nas coisas criadas. Mas de quem é a autoria? Do poeta ou da Criação? Seja como for, precisa da ação do poeta, então ele é co-autor, isso é lindo, cara! Fazer poemas é encostar o dedo na corrente elétrica. A voltagem não mata. Ressuscita.


EPS: - Fazer poesia, ou melhor, escrever, te deixa feliz?

RN: - Acho melhor o verbo fazer. Poeta faz. Quem escreve são escribas. Quando faço poemas, fica escrito na minha testa: feliz (a giz, obviamente).


EPS: - O primeiro livro de poemas aos 44 anos, o que é isso: rigor asceta, “ímpar ciência”, controle de qualidade ou escassez de produção?

RN: - É lerdeza mesmo.


EPS: - Até que ponto Oswald de Andrade (você tem um filho com o nome do filho dele: Rudá) Manoel Bandeira, os Concretos, Ezra Pound, a Geração Mimeógrafo, te influenciaram na concepção técnica e estética dos poemas e são seus referenciais?

RN: - Eu tenho um filho ou um filho me tem? Os poetas que você cita me influenciaram, sim. Oswald, pela renovação e iconoclastia; Bandeira, porque é impossível não amá-lo; os Concretos, por fazerem poesia sem verso e por realizarem aquilo que José Paulo Paz afirmou: poesia é uma brincadeira com as palavras. Pound, pelas reflexões do ABC da Literatura. Agora, geração mimeógrafo não é um nome adequado. Prefiro Geração Pós-69, da qual faço parte, e me sinto bem por isso. Geração não é facção.


EPS: - Essa “leveza zen irreverente” que dá substrato filosófico à sua arte poética é uma postura existencial do homem Rogério Newton?

RN: - É porque eu sou assim mesmo. Faço poemas por impulso de vida.


EPS: - Cronista (com dois belíssimos livros publicados), poeta, professor de yoga, com qual deles o cidadão Rogério Newton (defensor público) e pai de família, convive melhor?

RN: - Tenho dificuldades em ser pai de família e em ser defensor público. Não sei se sei ser um bom cidadão. Sócrates afirmou que o cidadão é o cadáver do homem. Isso é radical e é verdade. Me sinto melhor em conduzir práticas de yoga e em ser poeta. Gosto também de andar sem compromisso, como Thoreau.


EPS: - Lutar com palavras é a luta mais vã? Ou a transformação revolucionária individual e social pode ser capitaneada pela Literatura? Ou preferes a “quietude de tudo”, numa postura rebelde e religiosa em relação à vida?

RN: - Lutar com palavras é a luta mais vã porque há algo mais forte que elas. Só o amor é revolucionário, nada mais. Se você fizer literatura com amor, ela será revolucionária. O camponês anônimo que semeia a terra com amor no sertão esquecido está fazendo revolução, sem disparar um tiro. Mas a mesma mão que toca o violão, se for preciso, vai à guerra. A vida dança em todas as direções. Muitas vezes prefiro a quietude porque sou inquieto.


EPS: - Como encarar o ofício de escritor em terras Piauís, com a segunda maior taxa de analfabetismo da Nação Brasileira?

RN: - Impossível escrever um poema a essa altura da evolução da humanidade. O analfabetismo é motivo para se escrever mais e mais. Acho que o escritor e toda pessoa devem participar politicamente. Não quero dizer que é preciso entrar num partido. É ridículo uns terem acesso ao código da leitura e outros não. Mas se o escritor ou o poeta ficarem só fazendo linguagem, sem uma participação política explícita, isso também é uma forma de ação. O ato puro e simples de criar já cria uma onda...


EPS: - Relacione dez poetas de sua preferência, em todo o planeta, que formam o “paideuma” da literatura universal.

RN: - Laranjas valem mais do que limões?

Dores de dentes doem mais que beliscões?

Shakespeare é melhor do que Camões?


EPS: - Religião e filosofia rimam com poesia?

RN: - Rima com tudo. Introduzo na poesia a palavra diarréia.


EPS: - Atualmente, como você vê a produção literária de expressão piauiense?

RN: - Ando meio desligado. Mas procuro ver (não é a mesma coisa que ler) a produção e a expressão. Ainda acho que produzimos pouca literatura. Podemos fazer muito mais. Nesta semana foram lançados três livros de autores piauienses. Fico feliz quando o autor publica seu livro. Da quantidade também se faz a qualidade. Distingo lite-ratos à distância.


EPS: - O poema que é seu filho predileto. Escreva-o de cor e salteado.

RN: - Ai que preguiça!


EPS: - Pra você, a poesia resolve, revolve e tem utilidade pessoal e social?

RN: - Quem tem utilidade é bom-bril.


EPS: - Oeiras, sua Macondo-Jerusalém, está presente em toda a sua produção literária, por que?

RN: - Porque está presente em mim. Não falaria de outro lugar que conheço tão bem.


EPS: - Escreva o que você quiser ou algo que o está inquietando há muito e precisa vir a público.

RN: - Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes.



POEMAS (do livro "Último Round", de autoria do poeta piauiense Rogério Newton)


poética


aqui acolá

um verso um texto

mas olhe

não sou bissexto

sou campeão de poemas ao cesto









te preocupa não amor

aqueles tempos não voltam mais

só os catadores de pulgas gramaticais







com puta dor

escrevo prazer

na máquina de

escrever







as cidades deviam ser

sempre pequeninas

como tuas mãos

nas minhas







o trem barulha

poeira carnaubal

lagoa menino

cavalheiros de outra classe

visitam teu vagão







interpelação ao morro do leme


morro de dorso negro

incrustado de macambiras

por que não te iras?

compartilhe

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados