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UM INFERNO FEITO DE MISÉRIA E OURO

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juliano Moreno · Cuiabá, MT
31/3/2007 · 12 · 1
 

A novela “ Toada do Esquecido”, lançada pela Cathedral Publicações e Carlini e Caniato editorial em setembro de 2006, pertence a uma série de textos produzidos pelo autor no final da década de 1980, seu enredo se aproxima das novelas policiais.Temos um roubo, um cerco em busca dos ladrões, e a lenta morte misteriosa de cada um deles . Os ladrões do garimpo do Esquecido são ladrões de oportunidade, o destino os presenteou com a possibilidade de se apossar dessa imensa quantia de ouro em meio a um incêndio que irrompe num baile de carnaval, eles se desconhecem e fazem um acordo de encobrirem suas identidades não retirando as fantasias até chegarem num destino seguro, as fantasias correspondem com os arcanos do tarô: cavaleiro, diabo,a morte, e Zabud ( O deus das moscas), personagem sempre evocada pelo escritor em seus textos.

Jorge Luís Borges em seu ensaio sobre a narrativa policial nos provoca ao dizer que este gênero como também a metafísica pertencem ao fantástico.Nessa novela o enredo serve mais como um esqueleto que dinamiza a narrativa permitindo a interpolação de imagens brutas e cinematográficas,com a voz reflexiva que hora está no monólogo interior das personagens , hora nas reflexões do narrador , estratégia que produz a duplicação do espaço narrativo em espaço de reflexão, de uma reflexão labiríntica sobre o mundo contemporâneo. A manipulação irônica de referências míticas é um outro elemento que junto com o fluxo reflexivo contribui para provocar o efeito de fantástico, de um assombro que quebra o real de sua certeza e linearidade.

Com esses elementos o escritor vai construindo um lugar infernal, as margens da estrada que escolhem para fuga estão queimadas, as personagens tem uma indefinida noção de tempo, o único contato com o mundo que é o rádio não tem controle e muda de estação aleatoriamente, compondo uma trilha sonora babélica.Eles têm em sua posse dez bilhões de dólares em ouro mas convivem com a mais absoluta escassez e desconforto.Durante a fuga comem um porco, comprado a peso de ouro, que provoca uma inflamação intestinal no grupo emporcalhando as fantasias , o inferno se completa pelo cheiro nauseabundo de merda.

A posse dessa quantidade enorme de ouro que atribui uma imensa potência aos personagens, também gera uma limitação imediata que só cessará quando chegarem a uma região segura, quando escaparem do inferno.No entanto o inferno dickeano não é metafísico, ele está dentro das personagens e é produzido por elas.Sem abandonar o ouro não há lugar seguro, ao recusarem o passado em busca de novas vidas empenharam sua humanidade em função de uma miragem, uma projeção de futuro que os condenará a miséria.E ser miserável significa também uma incapacidade de partilhar e gerar outros sentidos para a existência, sentidos além da esfera econômica. Essa miséria também se evidencia no silêncio que só é quebrado nos momentos de absoluta necessidade, homens unidos apenas pelo dinheiro não tem nada a dizer uns para os outros.

Essa novela como toda obra do autor é política, no sentido proposto por Bosi , afinal quando o artista busca problematizar através de suas narrativas a subjetividade produzida por um determinado processo histórico, independente do seu grau de engajamento a algum espectro ideológico, está produzindo uma arte política em que não há separação entre ética e estética, pois ela coloca a nu as relações de poder e dominação, convergindo um alto grau de estilização da linguagem e uma profunda problematização das questões ético-políticas impostas pela modernidade e pelo capitalismo tardio.

Felicidade parece uma palavra estranha para terminar um texto sobre o universo literário de Ricardo Guilherme Dicke, em que a tragédia e o niilismo convivem juntos formulando uma pesada crítica ao mundo contemporâneo e sua máquina desregrada de iniqüidades.Mas é a única palavra que descreve a excitação, o fulgor, o inquietamento de um leitor ao encontrar com um texto tão poderoso e necessário capaz de nos absorver para sua realidade de palavras turvas,redemoinhos a nos levar pelo pesadelo que treinamos todos os dias ignorar.

Juliano Moreno é escritor, produtor cultural, coordenador do projeto “Palavra Aberta” e do concurso literário “ Prêmio Adeptus de Literatura.” Mestre em História pela UFMT. Pesquisador do Grupo de Pesquisa RG-DICKE e professor do curso de direito da UNIRONDON.



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Thiago Camelo
 

Olá Juliano, desculpe falar só agora, quando falta tão pouco tempo pro texto ir pra votação. Gostei do seu texto. Tenho uma dica. No início, vc fala: "A novela “ Toada do Esquecido”, lançada pela Cathedral Publicações e Carlini e Caniato editorial em setembro de 2006, pertence a uma série de textos produzidos pelo autor no final da década de 1980" - mas vc não diz quem é o autor, só vindo a revelá-lo no meio pro final do texto. Não seria melhor apontar sobre quem vc fala logo no início. Bom, é só um conselho. Abração!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 30/3/2007 18:50
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