A novela “ Toada do Esquecido”, lançada pela Cathedral Publicações e Carlini e Caniato editorial em setembro de 2006, pertence a uma série de textos produzidos pelo autor no final da década de 1980, seu enredo se aproxima das novelas policiais.Temos um roubo, um cerco em busca dos ladrões, e a lenta morte misteriosa de cada um deles . Os ladrões do garimpo do Esquecido são ladrões de oportunidade, o destino os presenteou com a possibilidade de se apossar dessa imensa quantia de ouro em meio a um incêndio que irrompe num baile de carnaval, eles se desconhecem e fazem um acordo de encobrirem suas identidades não retirando as fantasias até chegarem num destino seguro, as fantasias correspondem com os arcanos do tarô: cavaleiro, diabo,a morte, e Zabud ( O deus das moscas), personagem sempre evocada pelo escritor em seus textos.
Jorge Luís Borges em seu ensaio sobre a narrativa policial nos provoca ao dizer que este gênero como também a metafísica pertencem ao fantástico.Nessa novela o enredo serve mais como um esqueleto que dinamiza a narrativa permitindo a interpolação de imagens brutas e cinematográficas,com a voz reflexiva que hora está no monólogo interior das personagens , hora nas reflexões do narrador , estratégia que produz a duplicação do espaço narrativo em espaço de reflexão, de uma reflexão labiríntica sobre o mundo contemporâneo. A manipulação irônica de referências míticas é um outro elemento que junto com o fluxo reflexivo contribui para provocar o efeito de fantástico, de um assombro que quebra o real de sua certeza e linearidade.
Com esses elementos o escritor vai construindo um lugar infernal, as margens da estrada que escolhem para fuga estão queimadas, as personagens tem uma indefinida noção de tempo, o único contato com o mundo que é o rádio não tem controle e muda de estação aleatoriamente, compondo uma trilha sonora babélica.Eles têm em sua posse dez bilhões de dólares em ouro mas convivem com a mais absoluta escassez e desconforto.Durante a fuga comem um porco, comprado a peso de ouro, que provoca uma inflamação intestinal no grupo emporcalhando as fantasias , o inferno se completa pelo cheiro nauseabundo de merda.
A posse dessa quantidade enorme de ouro que atribui uma imensa potência aos personagens, também gera uma limitação imediata que só cessará quando chegarem a uma região segura, quando escaparem do inferno.No entanto o inferno dickeano não é metafísico, ele está dentro das personagens e é produzido por elas.Sem abandonar o ouro não há lugar seguro, ao recusarem o passado em busca de novas vidas empenharam sua humanidade em função de uma miragem, uma projeção de futuro que os condenará a miséria.E ser miserável significa também uma incapacidade de partilhar e gerar outros sentidos para a existência, sentidos além da esfera econômica. Essa miséria também se evidencia no silêncio que só é quebrado nos momentos de absoluta necessidade, homens unidos apenas pelo dinheiro não tem nada a dizer uns para os outros.
Essa novela como toda obra do autor é política, no sentido proposto por Bosi , afinal quando o artista busca problematizar através de suas narrativas a subjetividade produzida por um determinado processo histórico, independente do seu grau de engajamento a algum espectro ideológico, está produzindo uma arte política em que não há separação entre ética e estética, pois ela coloca a nu as relações de poder e dominação, convergindo um alto grau de estilização da linguagem e uma profunda problematização das questões ético-políticas impostas pela modernidade e pelo capitalismo tardio.
Felicidade parece uma palavra estranha para terminar um texto sobre o universo literário de Ricardo Guilherme Dicke, em que a tragédia e o niilismo convivem juntos formulando uma pesada crítica ao mundo contemporâneo e sua máquina desregrada de iniqüidades.Mas é a única palavra que descreve a excitação, o fulgor, o inquietamento de um leitor ao encontrar com um texto tão poderoso e necessário capaz de nos absorver para sua realidade de palavras turvas,redemoinhos a nos levar pelo pesadelo que treinamos todos os dias ignorar.
Juliano Moreno é escritor, produtor cultural, coordenador do projeto “Palavra Aberta” e do concurso literário “ Prêmio Adeptus de Literatura.” Mestre em História pela UFMT. Pesquisador do Grupo de Pesquisa RG-DICKE e professor do curso de direito da UNIRONDON.
Olá Juliano, desculpe falar só agora, quando falta tão pouco tempo pro texto ir pra votação. Gostei do seu texto. Tenho uma dica. No início, vc fala: "A novela “ Toada do Esquecido”, lançada pela Cathedral Publicações e Carlini e Caniato editorial em setembro de 2006, pertence a uma série de textos produzidos pelo autor no final da década de 1980" - mas vc não diz quem é o autor, só vindo a revelá-lo no meio pro final do texto. Não seria melhor apontar sobre quem vc fala logo no início. Bom, é só um conselho. Abração!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 30/3/2007 18:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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