Um toque de epifania

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Maria Elisa Macedo · Belo Horizonte, MG
31/5/2007 · 35 · 0
 

O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu tem sua carreira marcada pelo vasto conjunto de contos. Ele, que estudou letras e artes dramáticas, decidiu dedicar-se ao jornalismo na década de 80. Entre contos e peças teatrais, Caio Fernando escreveu crônicas para o jornal O Estado de São Paulo e para o Zero Hora de Porto Alegre, entre os anos de 1986 a 1995. Após sua morte em 1996, as crônicas foram reunidas, se transformado no livro Pequenas Epifanias, publicado no mesmo ano. Muito visceral no jeito de escrever, o escritor tinha a preferência pelos “arranhões†causados pelas relações humanas. O próprio Caio Fernando disse certa vez em uma entrevista ao programa Escritores, da TVE, que escrevia sobre o coração das pessoas.

A primeira crônica, que dá título ao livro, Pequenas Epifanias, se aproxima bastante do gênero primeiro que Caio se dedica, que são os contos. Datada de abril de 1986, é narrativa, dando a sensação que Caio, é o personagem principal da história. Sem fugir do jeito envolvente de escrever, o estilo se diferencia pelos detalhes e pela proximidade com o cotidiano. Geralmente os textos de Caio Fernando Abreu passeiam por absurdos e muitas metáforas. A literatura dele é uma literatura urbana, marcada pelos fatos das grandes cidades e da acelerada modernidade. Mas não deixemos de falar sobre o significado da expressão que nomeia o livro, pois através de uma pesquisa feita pelos autores, em algumas livrarias de Belo Horizonte, foi possível constatar que a grande maioria dos futuros leitores compram o livro pelo título(!). Epifania segundo nosso saudoso Aurélio, é uma expressão religiosa que quer dizer uma manifestação divina. E não diferentemente disso, o livro retrata em suas 62 crônicas, as diversas formas de enlaces que o indivíduo tem com o mundo e com o outro. É notável que o cerne da literatura de Caio Fernando é mostrar por detrás do cotidiano e das superfícies da vida.

As crônicas sempre são iniciadas com epígrafes, dando ao leitor a chance de saber sobre o que ela contará. Na verdade mais do que isso, dá a dica sobre como se comportar com o baque que irá se seguir. Algumas das crônicas são em forma de carta, vertente da crônica chamada também de epistolar. Caio, por morar fora do Brasil durante muitos anos, sempre escrevia cartas aos amigos, entre eles Caetano Veloso, Hilda Hilst e Maria Adelaide Amaral, citando-os em alguns dos textos, sejam em versos ou lembranças pessoais.
No entanto, nem só sobre os desertos do ser humano que Caio Fernando Abreu escrevia. Por ter se enveredado pelo mundo jornalístico, ele acabou por escrever sobre as mazelas oitentistas do Brasil, que vivia momentos peculiares como a ditadura, a chegada de novas drogas, os movimentos culturais etc, e sobre a fatal novidade, a Aids, que se alastrou pela década de 80 e 90 afora, fazendo-o vítima da doença. Inclusive as últimas crônicas do livro são mórbidas, retratando uma falta de esperança com a vida que tanto quisera ter.

O editor do “Caderno 2â€, do jornal O Estado de São Paulo, Antônio Gonçalves Filho, colega e amigo de Caio, diz na apresentação do livro que “Caio vinha disposto a fazer da crônica uma narrativa explicitamente autobiográfica e escandalosamente literáriaâ€. E assim podemos ver em muitas das páginas de Pequenas Epifanias, que em sua forma, cria uma grande intimidade com o leitor. A bem da verdade, o escritor gaúcho tinha essa “maniaâ€: trazer a tona questões tão inerentes a todos os sujeitos: morte, o mistério da vida, à vontade de dar certo um relacionamento, as tristezas e as alegrias de viver. Dessa forma, ele fazia do leitor o próprio personagem, ou simplesmente cúmplice. Afinal, quando a crônica trata de alguma dessas questões, os personagens são anônimos, criando uma intimidade e uma possibilidade maior de envolvimento com o caso relatado. A emoção passa por diferentes estados, da leveza á total escuridão de um desespero qualquer.

Sem perder o jeito passional, característico do escritor, ele mostra extrema ternura em suas crônicas. Entre expressões inexistentes no nosso vocabulário, Caio inventa palavras entendíveis, que fazem sentido no contexto subjetivo que o autor cria. Cheio de expressividade, as crônicas de Caio Fernando Abreu conseguem deixar de lado muito do ficcional e das coisas absurdas que geralmente escreve em seus contos. Ainda sim ele não rompe com os plurissignificados, fazendo-se importante, dando identidade a seus textos.

Tocante em sua forma maior, Caio Fernando Abreu nos apresenta um mundo já conhecido. Mas que inevitavelmente tentamos varrer para debaixo do tapete, ou simplesmente fingir que nada acontece dentro da gente. E ele é enfático, consegue por meio das palavras cutucar qualquer canto que esteja um pouco desprotegido, emocionando e dando ao leitor a possibilidade de compartilhar momentos e fatos. Embora se assemelhem muito aos contos e cartas escritas por Caio Fernando Abreu ao longo da sua carreira, as crônicas por ele escritas e reunidas por Gil França Veloso, amigo do escritor, respeitam as “regras†dos cronistas que, por sua vez, não estão ligados a regra nenhuma.

Maria Elisa Macedo

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