“Você já não é mais perfeita?
...não... naquela época, foi em inÃcio de 70, creio, eu brincava de ilusão, brincava de medo, de acasos e sentimentos inexistentes (como a luxúria, o peculato, por exemplo)...era uma loucura...eu estava alheada, pequena...voava um pouco sobre as pontes e edifÃcios (eu tinha uma bela cruz no peito, sei)...e alimentava-me de abóboras e araçás (pois eu vivia clandestinamente, lembra?)...soluçava algumas vezes, é verdade, e olhava à s escondidas (canto dos olhos...) para um saco de pipocas...
Sem sal?
Sem sal. Os meus dentes eram perfeitos e caros, eu sei... vez ou outra, lembro, eu me escondia atrás de um armário, anônima (pois tinha medo do guarda noturno)...comia-me e renascia no dia seguinte, antes do café da manhã, já cansada, com olheiras (pois eu também tinha olhos de ressaca)...mas sem fome...transcendia-me, pode acreditar...com dificuldade, lágrimas nos olhos, mas transcendia-me...
Era feliz?
Eu vivia... portanto...mas à noite, principalmente quando chovia (e não havia ‘aqueles’ jogos de futebol...aliás nunca há) ...pois bem...quando chovia eu era feliz...a água escorria pelo rosto, fluida, eu ria e chorava, alegre...era bonito...um dia eu fui ser mãe...
Engravidou?
Não... eu fui mãe...poderia ter vomitado, claro, mas escolhi ser mãe...
Doeu?
Eu era perfeita, lembra? Eu tinha minhas tragédias e alegorias, lógico... mas amadureci muito: num perÃodo de 12 meses fui mãe 2 vezes...sempre à s noites...foi bom...
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