Os relatos de viagem de LuÃs Giffoni descrevem um mundo diferente e, ao mesmo tempo, real
Apenas cinco pilotos em todo o mundo são capazes de fazer aterrissar um Boeing 737 no aeroporto de Leh, principal cidade do Ladakh, na Caxemira Oriental. Eram seis, mas um deles vacilou na quase impossÃvel tarefa, que consiste em manobrar entre picos nevados, deixar a aeronave despencar e, pouco antes de espatifar-se, erguer novamente o nariz, tocando a pista curta com os freios travados, e terminar o pouso com um cavalo-de-pau. A aventura é descrita em detalhes no livro “Retalhos do Mundoâ€, de LuÃs Giffoni, que leva o leitor a lugares exóticos em várias partes do globo, onde os seres humanos teimam em se estabelecer, pagando pela sobrevivência o preço que for necessário.
Giffoni publicou 17 livros em 19 anos. Entre romances, volumes de contos e literatura infanto-juvenil, dois se destacam por representar um filão pouco explorado na literatura brasileira – as crônicas de viagem. Além de “Retalhos do Mundoâ€, publicado em 2005, Giffoni lançou, em dezembro do ano passado, “O Reino dos Puxões de Orelha e Outras Viagensâ€, que revela curiosidades sobre os costumes de paÃses tão diferentes como Nepal, Estados Unidos, Chile ou Indonésia, reflete sobre a História e analisa mitos, crenças e cultura desses e outros povos.
Projeto - As crônicas de viagem são fruto de um amplo projeto literário que o escritor vem desenvolvendo desde seu primeiro livro, “A Jaula Inquietaâ€, publicado em 1988. Para Giffoni, o conhecimento é um só; não há separação entre arte, ciência, filosofia, mitologia, história. Ele busca a imersão no mundo para compreender a cultura, e viaja para mergulhar nos mistérios da humanidade, numa tentativa de desvendá-los. O resultado é literatura.
E que mistérios... Em sua trajetória na Terra, o ser humano construiu civilizações sustentadas pelo conhecimento acumulado, e autonomeou-se animal racional para distinguir-se de todas as demais espécies. No entanto, cada povo desenvolveu suas próprias estranhezas, que parecem negar qualquer racionalidade. Em 1991, conta o escritor em um relato sobre a Indonésia, o vulcão Pinatubo recusou-se a atender as orações das tribos que viviam em suas encostas e o adoravam como a um deus. A erupção não deixou sobreviventes.
A humanidade, lembra Giffoni, é feita de personagens que vivem em lugares inóspitos, entre pedras e poeira, ao pé de vulcões furiosos. O mundo é diferente daquele que se imagina – ou é, na verdade, resultado do cruzamento das diferenças. Como diz o escritor, o fim do mundo está em todo lugar, assim como o paraÃso. Num desses fins de mundo, o vilarejo de Phyang, na Ãndia, abrir inadvertidamente a porta do templo da deusa Khali, fora da data estabelecida (uma vez a cada 100 anos), pode liberar a fúria da sanguinária divindade, e trazer toda sorte de desgraça para o povo.
Humildade - Com o olhar arguto do ficcionista experiente e do viajante que conhece mais de 50 paÃses, Giffoni convida o leitor a assumir diante do mundo uma postura de humildade. A leitura de suas crônicas de viagem deixa a impressão de que o ser humano não é apenas o criador de tecnologias avançadas, mas também o humilde habitante de um planeta muito maior que sua soberba. Pode-se percebê-lo ao contemplar as sequóias gigantes, árvores com mais de 80 metros de altura, nascidas antes do faraó egÃpcio Tutancâmon; o Grand Canyon, fenda de 300 quilômetros de extensão escavada pelo rio Colorado, nos Estados Unidos, ou simplesmente convivendo com as baratas que infestam a ilha de Fernando de Noronha.
Esse humilde habitante do planeta aprendeu a conviver com a instabilidade da natureza e ergueu obras gigantescas, como Taj Majal, na Ãndia, Macchu Picchu, no Peru, e a cidade sagrada de Teotihuacán (México). Essas maravilhas da engenharia têm em comum, além do fato de sobreviver à s civilizações que as construÃram, o de simbolizar contextos culturais complexos e histórias de guerras, massacres e assassinatos.
Giffoni, escritor de vasta cultura e linguagem ágil, enriquece seus relatos com dados históricos e geográficos e transforma o habitante dos lugares que visita em personagem quase de ficção. Leva inexplicáveis puxões de orelha nas ruas da Tailândia, testemunha a morte de alpinistas canadenses sob uma avalanche no Nepal, joga pôquer com um general chileno e um argentino, enquanto os dois paÃses se preparam para entrar em guerra. Na Ãndia, visita o templo Pashupatinath, para onde os moribundos se dirigem na busca de melhor lugar para aguardar a cremação do próprio corpo. E, no interior da Amazônia, participa do primeiro contato de uma tribo de Ãndios gigantes com a civilização e com o letal vÃrus da gripe.
Imaginário - Os relatos de Giffoni podem ser úteis para quem se aventurar a conhecer os lugares por onde ele passou. Mas não são guias de viagem. Podem ser lidos como ficção ou história. Mas não são compêndios para ensinar o leitor. As crônicas são conseqüência natural do hábito de tomar notas durante as viagens, desde que passou alguns meses nos Estados Unidos fazendo um intercâmbio estudantil, ainda na adolescência. Sua pena de ficcionista só se manifesta com toda a força em um dos relatos do livro “O Reino dos Puxões de Orelhaâ€. Giffoni não resistiu e criou um paÃs imaginário, Manatu Bakara, numa ilha paradisÃaca do PacÃfico Sul, embasado na mitologia dos povos da região.
LuÃs Giffoni, mineiro de Baependi, 57 anos, recebeu importantes prêmios literários, como o Jabuti, Bienal Nestlé, Minas de Cultura, além de indicações da Associação Paulista de CrÃticos de Arte (APCA). É engenheiro civil por formação, mas desde a publicação do primeiro livro, em 1988, fez uma lenta transição entre essa atividade e a de escritor, a ponto de dizer-se, hoje, ex-engenheiro. Pós-graduado em astrofÃsica e literatura norte-americana, sempre foi leitor voraz dos mais variados gêneros, de literatura a livros cientÃficos, de mitologia a filosofia, o que gerou uma bagagem de conhecimentos que confere à sua ficção algumas caracterÃsticas bastante peculiares. O leitor saberá identificá-las.
Livros de LuÃs Giffoni
A Jaula Inquieta, contos, Ed. Scipione, São Paulo, SP, 1988
Os Pássaros são Eternos, infanto-juvenil, Ed. Formato, Belo Horizonte, MG, 1989
Sonho Cigano, infanto-juvenil, Ed. Formato, BH, MG, 1990
O Ovo de Ãdax, romance, Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, RJ, 1991
Boirangos Azuis, infanto-juvenil, Ed. Formato, BH, MG, 1993
O Caçador de Yétis, infanto-juvenil, Ed. Moderna, São Paulo, SP, 1996
Encontros, infanto-juvenil, Ed. RHJ, Belo Horizonte, MG, 1997
Narciso, Um Coelho Indeciso, infantil, Ed. Dimensão, BH, MG1997
Tinta de Sangue, romance policial, Ed. Pulsar, BH, MG, 1998
A Ãrvore dos Ossos, romance, Ed. Pulsar, BH, MG, 1999
Adágio para o Silêncio, romance, Ed. Pulsar, BH, MG, 2000
A Verdade Tem Olhos Verdes, romance policial, Ed. Pulsar, BH, MG, 2001
Os Chinelos de Raposa Polar, crônicas, Ed. Pulsar, BH, MG, 2002
Riscos da Eternidade, contos, Ed. Pulsar, BH, MG, 2002
Infinito em Pó, ficção cientÃfica, Ed. Pulsar, BH, 2005
Retalhos do Mundo, crônicas de viagem, Ed. Pulsar, BH, 2005
O Reino dos Puxões de Orelha e Outras Viagens, crônicas de viagem, Ed. Pulsar, BH, 2006
Cinco perguntas para LuÃs Giffoni
Você é um ficcionista. O leitor pode confiar nos relatos de viagem?
Embora não sejam ficção, os relatos são enriquecidos pelo olhar do ficcionista. Acontece que os limites entre a realidade e a ficção são tênues, e por isso duas pessoas jamais contarão a mesma história da mesma maneira. Mas o que está nesses dois livros são situações que vivi. A única exceção é o texto sobre o reino de Manatu Bakara, produto da minha imaginação, embora embasado na cultura do PacÃfico Sul.
Ao planejar uma viagem, seu objetivo é buscar novas histórias?
De forma alguma. Os relatos surgem de minhas anotações, que são um hábito antigo. O que faço antes de viajar é estudar a história, os mitos, o povo do paÃs, para já levar comigo um conhecimento, o que me permite aproveitar melhor a viagem.
Você é um dromomanÃaco (viciado em viagens)?
Acho que sou mais um culturomanÃaco... O que me atrai é a diversidade humana. Toda cultura é fruto da luta pela sobrevivência. Desde a adolescência eu viajo sempre que tenho oportunidade, e as viagens me proporcionam um sentimento de humildade em relação ao mundo. Os seres humanos são os mesmos em toda civilização, em qualquer tempo, mas as culturas mudam, de acordo com as necessidades de sobrevivência.
As viagens são importantes para seu projeto literário?
As viagens fazem parte, porque acredito que viajar é importante para capturar o mundo e meu tempo. Não sou daqueles que acreditam que tudo já foi escrito. Creio que a minha visão do dia de hoje é inovadora, porque os tempos mudam. Por isso a literatura é sempre um risco, e como escritor, ponho a cabeça na guilhotina.
Você acaba de chegar da China. É o assunto do próximo livro?
A Editora Leitura me propôs que eu voltasse à China, onde estive no final da década de 80, para fazer uma comparação com o milagre econômico de hoje. Encontrei um paÃs cheio de canteiros de obra, otimista com o crescimento. Está acontecendo uma situação interessante no mundo, porque o Ocidente está refém da economia chinesa, ao mesmo tempo que a China está refém da cultura ocidental. A sociedade chinesa está cada vez mais injusta, porque a riqueza está concentrada nas mãos de um pequeno grupo. Mas o povo é extremamente disciplinado e tem uma tradição de 4 mil anos de obediência à s autoridades superiores. Isso será contado no livro “China, o Despertar do Dragãoâ€, que sairá em agosto.
TRECHO
“Chiang Mai, caminho de migrações em massa ao longo de séculos, tem a guerra nas veias. Em função dos combatentes, a cidade desenvolveu a massagem tailandesa. Segundo alguns, teria sido em torno de 1250, quando Kublai Kan expulsou da China os Nanchao, precursores dos tailandeses, obrigando-os a embrenhar-se pelas florestas meridionais onde montaram a resistência. À noite, exaustos, os defensores retornavam aos acampamentos. Com o intuito de recuperá-los para a luta na manhã seguinte, as mulheres submetiam-nos a uma completa manipulação do corpo, até obter o total relaxamento muscular e mergulhá-los no sono. Com a prática, chegou-se à técnica que tornou Chiang Mai famosa e, na esteira, toda a Tailândia. Muita gente vai lá só por causa da massagem.
Resolvi testá-la, a conselho do gerente do hotel: não conhecê-la equivaleria a ir a Roma e não ver o papa – comparação infeliz, pois há para fazer na capital italiana coisas muito mais interessantes que, do meio da multidão, dar tchauzinho para o pontÃfice. Achei a massagem um perfeito programa para a tarde chuvosa. Acompanhado de minha mulher, dirigi-me, como se fosse a uma atração turÃstica, até a casa mais tradicional da cidade, altamente recomendada pelo profissionalismo do serviço. Recepcionaram-nos duas garotas de, no máximo, vinte e dois anos, com o cativante sorriso das orientais, cândido e maldoso. Levaram-nos a um quarto com tatame no chão, sem enfeites. Despiram-se, despiram-nos, estranhei, hesitei ao tirar a cueca, mas concluà que fazia parte do ritual. Eu que me adequasse. Colocaram-se e colocaram-nos roupões de seda que nos cobriam até os quadris. (...)
Com sensualidade, uma delas, a de linhas mais torneadas, as carnes sem excesso ou falta, colou-se em mim e, em vez de usar as mãos, começou a me afagar com o corpo. De leve, em movimentos circulares. Entre nós havia apenas a seda, eficiente substituto do óleo. Abraçando-me por trás, roçou o queixo em minha nuca, comprimiu os seios contra minhas costelas, deslizou-os para cima e para baixo, esfregou-os em minhas orelhas. Não sei por quê, sem mais nem menos meus pêlos se eriçaram. Senti o primeiro calafrio. Onde eu me metera?
(“O Reino dos Puxões de Orelha e Outras Viagensâ€, pág. 127-128)
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