Passava das 13 horas, horário previsto para o início do XI Festival de Música do Colégio Estadual Anacleto de Medeiros, que funciona no presídio Evaristo de Moraes, no bairro de São Cristóvão, no Rio. A organização foi feita toda pelos alunos do Colégio, com a colaboração do professor de música Jassanã e dos professores e diretores.
Era 25 de novembro, o dia da “finalíssima”, como era chamada por todos. Antes houve uma pré-seleção das canções das duas categorias: gospel e popular. Na semana anterior, nos dias 17 e 18, das vinte músicas inscritas (12 gospel e 8 popular), apenas cinco de cada categoria ficariam para a final. Todos os internos do Evaristo de Moraes podem participar inscrevendo músicas, basta apenas que seja inédita e tem o limite de cada um inscrever no máximo duas músicas.
Sérgio Verdile e Marcelo Romano foram os responsáveis pelos arranjos de todas as músicas. Os instrumentos, todos do Colégio (adquiridos ao longo dos anos de Festival) teriam, após o evento, a companhia de pelo menos mais seis novos instrumentos no Evaristo de Moraes. O primeiro lugar de cada categoria recebeu um violão mais 50 reais, o segundo um violão e o terceiro um pandeiro.
Rap de Deus
Chega a hora do evento. Sônia Macedo, diretora do Colégio, abre a atividade com uma oração inicial. Dona Teresinha é a mestre de cerimônia e chama o corpo de jurados para a mesa. Destaque para os músicos Daniel Montes e Gabriel Azevedo, do grupo Casuarina. Além deles, Márcia Carvalhosa, secretária Estadual de Educação, Elen Caroline, da Escola de Música da UFRJ, Isaura Maria, professora do Anacleto de Medeiros, Jorge, aluno do Colégio, e eu, chamado de surpresa. Tentei ainda trocar de lugar com Tales, professor de sociologia, mas ele fez que não viu. Mais tarde, porém, acabou colaborando na apuração. De nada adiantou me deixar na mão.
Primeiro a apresentação da categoria Gospel: Sebastião de Souza Silva cantou Jesus é o meu Pastor; Geílson Antonio Pereira, Lamento Transformado em Júbilo; Luciano André dias, Preciso de Você; Marcos Welber, Sem Deus Sem Paz; e Eduardo Mascarenhas, João3:16. O grande vencedor, anunciado apenas no final do evento, foi Marcos Welber, com o rap Sem Deus Sem Paz, que levantou a platéia, que cantava junto. Perguntei, como a música deve ser inédita, como as pessoas sabiam a letra: “Bom, teve o treino semana passada, e o pessoal me deixou cantar na cela também”. “Entrega teu caminho ao Senhor / Confia nele e o mais ele fará” era cantado pelos mais de 500 presentes no Festival. Em segundo lugar ficou Luciano André Dias, e em terceiro Sebastião de Souza.
De terceiro a primeiro
Na categoria popular, Luiz Marcelo Romana participava com duas músicas, Uma História Muito Comum, e Apocalipse; Valdeir Carias de Moura mais duas canções: Esperança e Olhar Expressivo; e Sebastião de Souza, terceiro lugar na categoria gospel, cantou Jesus Cristo é a luz do Meu Caminho, uma homenagem a sua profissão por 34 anos, caminhoneiro.
A homenagem ganhou o primeiro lugar. Sebastião está ficando mal acostumado. Ano passado também levou o primeiro lugar. Com mais de 50 músicas de sua autoria, ele pretende ao sair da prisão encontrar alguém que possa gravá-las, pois aos 56 anos acha que já está velho.
Em segundo lugar na categoria popular ficou Valdeir Carias, com Olhar Expressivo; e em terceiro Luiz Marcelo Romano, com Uma História Muito Comum. Além dos prêmios para os vencedores, foram sorteados três CDs da banda Casuarina, que no intervalo para apuração dos votos, tocou algumas músicas do grupo.
Educação e arte
Sônia Macedo, a Dona Sônia, tem orgulho de dirigir o Colégio. Para ela, este tipo de evento só faz bem. Ela destaca a mudança de comportamento dos alunos com a aproximação com a arte, como a realização de projetos como o Café Literário realizado em outubro, ou sessões do Cineclube criado dentro do Colégio, ou da produção do jornal Em Prol da Liberdade, escrito por um grupo de alunos que terá sua primeira edição em breve.
A conversa com os detentos e com o chefe de Segurança, Paulo Egil, também alimentam a esperança de que o sistema prisional pode melhorar e de que há possibilidades de reinserção social. Robson Moreira, monitor da Faxina, não conseguiu acompanhar o festival por conta dos afazeres. Mas não reclama, segundo ele, de dois anos para cá o Evaristo de Moraes tem melhorado muito, principalmente em relação à organização e à disciplina dos internos. Como Dona Sônia, ele responsabiliza a “Escola”.
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