Entrevistão com o Povo do Matou... - 1ª parte

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Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC
30/10/2006 · 104 · 1
 

Matou O Cinema e Foi ao Governador - Entrevista- 1ª parte

A entrevista que segue (pontual, em tom de registro, documento) fiz com os realizadores do projeto Matou o Cinema e Foi ao Governador. Cinco perguntas básicas que enviei a todos os cineastas que estavam envolvidos no projeto. E como vocês podem perceber, rendeu bastante, muito mais do que eu imaginava.

Pelas respostas vocês vão perceber um pouco da indignação de todos com as políticas culturais praticadas em SC. Indignação que aumentou no decorrer das exibições que foram realizadas pelo estado (e em outras poucas cidades do país). E aumentou porque aos poucos as práticas governamentais, por ora contestadas, deram novamente o ar da graça. Tudo leva a crer que a demissão do Fabio Brüeggmann (o único com cargo de confiança no governo do estado a participar do projeto) teve um caráter político!? Repressão, diriam os mais inflamados. Que é isso, repressão, não pode, a minha vizinha que lê a Veja toda a semana acha que isso é coisa do passado, afinal de contas, vivemos a era democrática do Bush e essas coisas não acontecem mais. È... dois espaços para respirar fundo:

O que assusta é quando por vários de muitos lados continuamos sendo Glabarbarizados.

Vamos a entrevista, quem estiver a fim do desafio, aconselho que façam umas pipocas e que peguem um copo de suco na geladeira. Ah, a entrevista está em duas partes:

1. Como você soube do projeto do Cine Anti-Campanha e por que decidiu participar? Como você vê as possíveis relações entre Arte e Política a partir de experiência do Cine Anti-Campanha?

Marco Martins - Eu tinha na cabeça a idéia de um curta-metragem, primeiro um título: Matei o Governador. Eu não sabia direito o que era... as últimas imagens de Kennedy, dele sendo morto, e um texto do Pasolini (que irá abrir o longa) não saiam de minha cabeça. Eu queria contar a história de um franco-atirador. Obviamente isso veio por eu estar bastante descontente com a nossa situação política, não só cultural. E também porque me deparei com a total falta de opção na hora de votar... Quando fui espalhando essa idéia, do curta, para os meus amigos, todos diziam: "Mas aí tem pano prá manga... dá prá fazer isso e mais aquilo..." Então decidi bolar dez pequenos argumentos e espalhar para estes meus amigos para que desenvolvessem os roteiros e rodassem seus curtas. Antes disso fizemos uma reunião para ver se havia a possibilidade de contar essa história num formato de longa-metragem, mas logo descobrimos que nossas visões políticas e estéticas nem sempre batem, o que fez com que transformássemos o projeto num longa de episódios. De antemão também gostaria de dizer que o termo "anti-Campanha" já não diz muito... O projeto (após ter uma prévia do material que já está editado e do que está ainda por vir) trata mais das relações de poder, da condição do artista vivendo num sistema falido culturalmente e da ansiedade e urgência de criação. Falando em Arte X Política: para realizar o filme tive que fazer política de uma forma ou de outra, todos fazemos política diariamente... a pergunta talvez devesse ser Arte X Politicagem. E daí não perdoamos: no longa existe o escracho, o humor e a fúria.

Renato Turnes - Estava próximo ao Marco desde as idéias iniciais e decidi participar por uma necessidade de expressar a desolação que toma conta dos artistas desse Estado, impedidos, enganados, menosprezados por uma situação de barbárie. Politicamente, atuo junto à GESTO (Associação de Produtores Teatrais da Grande Florianópolis), entidade que está na linha de frente na luta pela moralização das "políticas culturais" catarinenses. Na GESTO atuo como cidadão, mas não acredito que seja função do artista fazer política, no sentido cotidiano restrito do termo. Acredito que toda obra de arte é política, na medida em que atua sobre a realidade, mas num sentido transcendente, poético, ligado a experiência íntima do artista e do espectador e à transformação de ambos. A obra gerada no âmbito político restrito corre o risco da pobreza conceitual, do imediatismo e do esquecimento iminente. Acredito na metáfora como revolução do espírito.

Loli Menezes - Há muito tempo vinha descontente com a situação político-cultural do nosso estado. Quando Marco teve a idéia de abrir o projeto para outros realizadores e tornar seu curta um longa, fiquei muito feliz em poder participar e expressar toda a minha insatisfação fazendo arte! Essa é uma das relações entre arte e política, é a nossa arma, o nosso grito, a nossa maneira de fazer política.

Chico Caprario - Fui convidado pelo amigo Marco Martins. Apesar de ter outras prioridades e estar com pouco tempo disponível, decidi participar deste filme quase que como uma obrigação de cidadão. Acho que cada um deve ter a sua forma de participação popular em sua possibilidade e naquilo que se sente capaz. Em diversos momentos históricos o povo não se manteve calado diante de injustiças e teve o seu retorno, este momento não é diferente. Vivemos uma grande confusão ideológica e muitos políticos se aproveitam dessa situação para obter saldos na popularidade e na conta bancária. Na área cultural é notória a insatisfação generalizada (ufa! não estou louco) e a forma desleal como são tratados nossos artistas. Não pensei duas vezes quando fui convidado a participar deste protesto tão LEGÍTIMO e feito de uma forma bem-humorada. Espero não encontrar nenhum entrave ditatória. Este não foi o primeiro protesto da categoria feito com arte, houve outros protestos nas ruas com artistas em suas performances. Mas acho que este é sim o primeiro protesto “formal” utilizando-se dos meios audiovisuais para trazer nossas insatisfações perante um público maior diante das eleições que se avizinham. Acho que esta é apenas o início de uma forma de ação política legítima de demonstração de repulsa às políticas culturais do governo, na verdade uma resposta tímida, mas contundente diante da força da comunicação de massa das campanhas eleitorais.

Claudia e Rafa - Soubemos do Cine Anti-Campanha a princípio informalmente, num jantar em nossa casa com Demétrio Panarotto. Na mesma noite, Loli Menezes nos telefonou convidando-nos a participar como diretores de um dos episódios do longa coletivo e no dia seguinte recebemos, via e-mail, uma sugestão de argumento encaminhada por Marco Martins, um dos idealizadores do projeto. Decidimos participar tanto pela oportunidade de estarmos realizando um projeto em comum com diretores independentes de Florianópolis, tanto pelo desafio de realizar algo em grupo, com suas diferenças enriquecedoras e com o projeto comum político de denunciar as irregularidades na Pasta da Cultura neste governo estadual.
As relações entre arte e política sempre foram para nós estreitas e salutares. Como seres políticos, somos portadores de idéias, ideais e manifestamos em nossa arte nosso pensamento e o modo como absorvemos e digerimos o mundo ao nosso redor. Nossas opções estéticas são sempre fruto de como nos relacionamos com o mundo e de como entendemos a arte cinematográfica.

Breno Turnes - Eu soube do projeto pelo Marco, quando tudo se resumia ao "Matei o Governador". Após alguns dias ele me disse que tinha escrito um roteiro e queria que eu o dirigisse. Ele também me deixou por dentro da proposta do Cine Anti-Campanha. Topei na hora por achar imprescindível um posicionamento crítico dos realizadores do estado perante ao que chamam de política de "fomento" à cultura.

Jéferson Lima - Soube por amigos, fui convidado e resolvi participar para romper com os limites entre a vida e a morte, o amor e o ódio, a coragem e o medo. O Cine Anti-Campanha é a comprovação de que arte e política são uma coisa só.

Jéferson Bittencourt - Bem, O Marco (cineasta e companheiro de trabalho na Vinil Filmes) já explicou muito bem a origem. Eu fui um dos convidados a contribuir. A idéia sugerida pelo Marco era muito boa e decidi topar principalmente porque me interessava tocar num assunto já exposto por mim em conversas outras: questões sobre a real importância da arte na vida das pessoas. Como se trata de uma temática universal, achei que seria interessante explicitar meus argumentos. A liberdade pra expressar minha opinião sobre o assunto foi inteira. Isso me impulsionou a realizar um dos curtas. Sobre Arte x Política, nunca considerei a política como fonte artística: a manifestação da inteligência artística é muito mais ampla e profunda do que qualquer viés político. Se esbarra na política, tudo bem, sorte desta última. Penso que a experiência do projeto virá com sua reverberação....fazer este curta foi fazer um filme como outro qualquer: decifrar e planejar os problemas poéticos....o discurso político, neste caso, é conseqüência.

Maria Estrázulas - Recebi um telefonema de Marco Martins. Decidi participar porque este movimento é uma manifestação política genuína, numa linguagem diferente das tradicionais passeatas, que mesmo expressivas tendem a depreciar os manifestantes, como baderneiros que atrapalham uma ordem perfeita. O Cine Anti-campanha gera um caos diferente, em forma de ficção audiovisual é direcionado para pessoas que se interessam em dialogar sobre a política cultural do Estado, e que ocuparão os lugares nas platéias.

Valeska Bittencourt - Fui convidada pelo Marco e decidi participar para ter o prazer de dar o grito que estava “aqui,ó”, preso na garganta. O audiovisual pode ser um grande instrumento de protesto. O uso da arte como manifesto permite ao artista dialogar com o espectador a partir de sua própria linguagem, para mostrar sua indignação. Neste caso protestando contra a própria política cultural.

Fabio Brüggemann - Fui convidado pelo Marco Martins e achei a idéia da criação coletiva muito necessária nessa hora. Arte e política (a aristotélica, deixo claro) sempre estiveram juntas.


2. Fale sobre o processo de criação do seu curta-metragem. Como se desenvolveu a idéia do roteiro? Como o resultado final se relaciona com os encontros e discussões coletivas do Cine Anti-Campanha.


Marco Martins - Como eu disse antes, a idéia do longa partiu de uma idéia que vinha martelando minha cabeça. Quando apresentei a idéia, eu queria simbolicamente matar o Governador. Tirá-lo do caminho. Mas logo descobrimos que seria muito agressivo, que o melhor seria partir para a metáfora, para a ficção completa, brincar com a situação, mas criar um conjunto de filmes que pudessem ser exibidos em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo. Logo, o meu episódio, que fecha o filme, tem a intenção de provocar no espectador a náusea que eu sinto quando assisto a um monte de mentiras na televisão e o que eu gostaria de fazer em resposta a isso. E eu queria dizer outra coisa: o grupo anti-campanha não existe, é uma invenção da mídia.

Renato Turnes - O roteiro de Rosa BB foi criado junto com a Loli, que já forneceu uma boa sinopse. As discussões com o grupo tornaram a história mais metafórica, criamos uma república em guerra, e uma história entre um Pai ditador e uma Filha iludida, que é o ponto de partida para uma comédia meio farsesca, patética, mas também carregada de tintas dramáticas. Os diversos pontos de vista, as opiniões e comentários nos deram segurança para construir o curta, medindo sutileza e escracho em doses equilibradas.

Loli Menezes - A idéia surgiu do Nepotismo que vivemos a todo o momento em todas as relações de poder. A partir de uma entrevista onde a filha do governador disse ao vivo, que aqui no estado as coisas são bem mais fáceis para ela, veio a idéia de falar sobre a relação de um pai e uma filha, de criar um universo fantástico onde um pai protetor cria uma farsa para fazer com que sua filha acredite ser uma estrela. Acho importante frisar que é uma obra de ficção e o fato real foi apenas o ponto de partida para a construção da história. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, viu gente? Durante os encontros e discussões do Cine Anti-Campanha fomos saindo um pouco das questões mais locais, e partindo mais para o universal, para o metafórico. Considero Rosa B.B uma comédia que surge do drama entre pai e filha, uma história íntima, cheia de contradições e interpretações psicanalíticas. A política serve como pano de fundo para essa história; está simbolizada na guerra do lado de fora, de como esse ditador (que representa o poder) age para conseguir o que quer, e na relação desse pai e dessa filha, opressor e oprimido.

Chico Caprario - Recebi a idéia para o argumento pronta, acho que foi uma idéia original do Renato e/ou Marco. No entanto o roteiro do episódio “O POVO DA CORTE” foi criado por mim levando em conta as discussões sobre a Anti-Campanha como um todo, isto é, como um produto só e não apenas um festival de curtas desconexos. Mas o principal instrumento de inspiração é minha própria experiência como artista que se submete à burocracia das leis de incentivo e os privilégios oferecidos “à corte”. O tratamento que recebemos de uma máquina absurda de análise de papéis que NÃO FUNCIONA para o objetivo a que veio.

Claudia e Rafa - O roteiro partiu da sugestão do argumento oferecida por Marco Martins e, paulatinamente, foi afastando-se dela. Pensar numa estética surrealista, como nos foi proposto pelo argumentista, quando a realidade já é surreal, levou-nos a optarmos por um modo de expressão que colocasse exatamente este fato em xeque. Um jantar na casa de praia do governador em homenagem a Lena Ficha com a presença de figuras responsáveis pela administração da cultura no estado e sua representação na mídia tornaria emblemática a política governamental orientada para o nepotismo e para a subversão dos trâmites legais dos projetos culturais em benefício do gosto particular do coronel. Nada mais surreal do que termos estes fatos vindo à tona de modo servil pelos meios de comunicação locais que corroboram com a política de coronelato do governo estadual. Então acrescentamos orelhas de porco e lulas a doré ao cardápio e tivemos como resultado uma estética mais Fassbinder do que Buñuel, o que achamos mais pertinente à urgência do momento e ao conteúdo temático do nosso episódio neste longa coletivo. Não fomos incluídos em nenhum momento no grupo, nem na lista virtual nem fomos convidados a participar de nenhuma reunião. Não fazemos a menor idéia da razão pela qual isto ocorreu, solicitamos nossa inclusão, mas nada aconteceu neste sentido.

Breno Turnes - A idéia do roteiro surgiu do Marco e foi lapidada por nós dois. Após isso, o roteiro foi apresentado ao grupo e, coletivamente, demos uma última lapidada, dando um "up" nos diálogos e em algumas situações.

Jéferson Lima - Criei o roteiro a partir do argumento de Marco Martins. Os encontros para o desenvolvimento das idéias individuais foram produtivos e serviram para dar uma cara coletiva para o longa.

Jéferson Bittencourt - Não houve um roteiro. Houve sim um argumento pré-concebido. Todo o texto foi previamente pensado, mas dito no exato momento da gravação. A edição cuidou de dar sentido ao discurso. O curta APEIROKALIA é uma conversa entre dois seres humanos preocupados com seu papel no mundo. Preocupados com seus papéis nas suas existências. Nada dito ali é gratuito ou forçado. São os reais pensamentos de seus protagonistas. Suas reais angústias. Muitas vezes, no cinema, de uma simples conversa erguem-se civilizações inteiras. É o que se busca aqui: erguer fantasmas adormecidos.As discussões em grupo foram instigantes, pois deixaram em cada realizador a sensação clara do poder da metáfora. E que o chapéu serviria facilmente, sem a necessidade de muitas indicações.

Maria Estrázulas - Meu curta entrou por conta de uma desistência. Como última criação, havia necessidade de adequação ao que já estava produzido, e de ser algo novo, que não fosse apenas um eco do que já havia sido dito. O roteiro passou por temáticas diferenciadas, ao todo foram desenvolvidos 5 roteiros diferentes. Acabou por envolver mais três pessoas no processo de criação, que trabalharam juntos num sistema anárquico, onde a voz de qualquer pessoa deste grupo soava com a mesma intensidade que as demais. O delírio trata da questão do cineasta, que não estava em foco nos demais filmes. O resultado final ainda está por vir e pretende mostrar, o quanto estamos envolvidos e absortos em batalhas internas, relacionadas aos nossos próprios egos. Contando com a contextualização gerada pelos demais curtas da série, pretende clarear o que acontece num plano geral, enquanto tentamos desmoralizar uns aos outros.

Valeska Bittencourt - Tudo partiu do título: Delírio. Cinco roteiros foram feitos. O caos tomou conta do processo. Os roteiros antigos foram abandonados. Um curta-metragem queria ser feito. Quatro pessoas estavam reunidas. Surgiu então a possibilidade de nos libertarmos de idéias pré-construídas para apenas delirar em cima de elementos dos velhos roteiros, e de novos elementos, frutos da imaginação de cada um dos diretores. O resultado final se relaciona com as discussões coletivas, vendo que carrega consigo elementos metalingüísticos que advém de um processo auto-analítico.

Fabio Brüggemann - O roteiro é bastante simples, porque eu quis reproduzir um diálogo que nunca aconteceria na realidade.

3. Fale o que você quiser sobre o seu filme (roteiro, referências, produção, equipe e elenco, etc...)

Marco Martins - Martelei muito o Franco na cabeça antes de rodá-lo... Escrevi uns dois tratamentos de roteiro até decidir jogá-los fora... Depois disso, decidi construi-lo pensando primeiro na forma. Decidi trabalhar com planos longos e em preto-e-branco... Pensei em Gus Van Sant e Godard visualmente e em David Lynch no plano sonoro. Roubei a trilha do Veludo Azul para a primeira seqüência. Ainda na trilha sonora, usei Koan (extinto grupo de música experimental, intuitiva, de Jefferson Bittecourt) para a segunda seqüência e Ludwig Van Bethoveen prá finalizar. O curta tem essa estrutura, de três atos, penso eu. Com relação à produção, foi pouco complicado: rodamos num dia só, no meu apartamento e pelas ruas da cidade. Equipe reduzida (segue ficha técnica abaixo) e elenco de primeira: Renato Turnes no papel do Franco, Álvaro Guarnieri de Governador, Valeska Bittencourt de Repórter e Chico Caprário de Câmera. Ficha Técnica Franco:

Direção, roteiro, montagem e desenho de som: Marco Martins
Direção de Produção: Maria Estrázulas
Arte e figurino: Valeska Bittencourt
Direção de foto e câmera: Felipe Vernizzi
Still: Fábio Brüggemann
Cozinha: Loli Menezes

continua na 2ª parte.

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Balbino
 

repito em alto e bom som : - Fui eu que matei...e foi sangrando...como mata porco...um grito agudo dando fim a toda putaria cometida por esse morto...

Balbino · Cuiabá, MT 1/11/2006 18:17
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