All Star #40

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Eder Capobianco · Assis, SP
28/8/2015 · 1 · 0
 

Quanto mais se aproxima do vestibular mais me sinto como uma sardinha enlatada, pronto para virar jantar restô d´Ontê numa faculdade cretina formadora de mão de obra, para exploração de quem pagar menos. Não sei muito bem porque, ou sei, mas as vezes sinto que meu futuro é tão incerto e cruel quanto o do Holden Caulfield em O Apanhador no Campo de Centeio. Também gosto de pensar numa coisa tipo Mad Max, onde um sobrevivente niilista tem que suportar a existência no meio do caos que sobrou. Sempre que saio da escola metade de mim fica feliz porque este martírio esta acabando, e a outra metade fica desesperado com o estouro da bolha. Como é sexta-feira, e o Dr. Prozac vai tocar no Tôa Tôa, só vou ser o Neb curtindo a vida adoidado. “Conversei com os caras ontem e eles vão tocar Lounge Act e Lithium do Nevermind,” estava subindo para casa com o Enrolado, que ia ver o show também. “Acho que estou precisando de um rolê assim. Vai rolar os docinhos?” “Vai! Vamos nos encontrar para comprar os ingressos a tarde na loja do Dé e depois resolver isso.” A Alina ia para a festa da Ana Paula e ele tinha sido liberado das obrigações pseudo-conjugais de não poder fazer o que quiser. Nem fui convidado, não queriam drogas lá. Também não queria estar lá, prefiro o lado da cidade onde os pais não querem que os filhos estejam. Estava tudo apontando para um noite histórica. O Dr. Prozac mandando 1979, do Smashing Pumpkins, no Tôa Tôa, ia ser quase igual o Joe Cocker tocando With a Little Help From My Friends, dos Beatles, no Woodstock de 69.

Passei em casa só para almoçar e sai direto para a Curva de Rio Discos para comprar as entradas e encontrar o Enrolado. “O Dr. Prozac esta no estúdio ensaiando para hoje a noite. Eles estão arregaçando no Sex Pistols.” O Dé era casado, tinha filho e tudo mais. Não ia lá. Mas conhecia toda galera e a loja estava patrocinando o show. “Falei com o Jesus e o Mateus ontem e eles disseram que eles vão mandar uns Nirvanas e Ramones também.” “Eles vão fazer umas três horas de som, mais de trinta músicas! Vai ser animal!” Pegamos os ingressos e fomos em busca da cereja do bolo da noite. O LSD era tipo o tapete da sala do Big Lebowiski, complementava o ambiente perfeitamente. Não sei muito bem porque, ou sei, mas as vezes me sinto meio Henry Chinaski, viciado em vícios. Mandei uma mensagem para o Heraldo e ele disse que ia estar tudo em cima antes das três. Chegamos quinze minutos depois do combinado e ele não estava lá. Não que o doce fosse primordial para a noite, mas é como ter um computador sem internet: você pode se divertir, mas poderia ser muito melhor. Mandei uma mensagem para ele solicitando uma nova hora e outro ponto de encontro e fomos para casa esperar uma resposta e fumar um baseado. “Posso pegar umas anfetaminas da minha mãe se ele falhar”, para o Enrolado só o álcool e a maconha jamais seriam suficiente. Ele precisava de alguma coisa que elevasse a consciência a décima potência. “Eu tomo, mas só o Dr. Prozac com uns becks já segura a onda. Não precisa ser uma noite à la Feel Good Hit of the Summer”. Entre uma ideia de entorpecimento e outra o Tio do Doce confirmou por mensagem que encontrava a gente no ponto de ônibus para ir direto pro Tôa Tôa.

Tudo funcionou bem. O Heraldo estava no local e hora combinados. Dropamos o doce e fomos em busca do nosso Woodstock. Só tinha uma angustia estranha, que vinha corroendo meu estômago o dia todo, e só fui descobrir o que era quando entrei no rolê. “Eiiiii!!!” Nem olhei em volta e a Julia veio correndo na minha direção com a animação de quem anunciava promoção de roupa em loja do centro da cidade. Tinha certeza que ela ia na festa da casa da Ana Paula com a Alina. Mas ela e a Paula preferiram a loucura do underground chic a caretice dos fundos de uma casa grande num bairro bem iluminado. “Ei....você aqui? Que legal!” Não consegui disfarçar nem a surpresa nem o desânimo. Tudo que não esperava era ver ela ali. “Nossa! Que animação.” “Tô muito chapado.” Nunca gostei de ir curtir o rolê no mesmo lugar que a Julia. Acabava sempre como filme romântico da sessão da tarde: ela bebendo e curtindo com algum idiota e eu me intoxicando com qualquer coisa que me fizesse parecer menos com Creep do Radiohead. Não sei muito bem porque, ou sei, mas as vezes me sinto como o Hans-Thomaz em O Dia do Curinga, sem entender porque o mundo gira. Me concentrei em esperar o LSD bater do outro lado do salão trocando ideia com uma galera que sei que ela não conhecia e não ia querer chegar perto. “Não existe mais sementes de milho e trigo que não sejam geneticamente modificadas. E não é porque a Monsanto inundou o mundo com isso, é porque milho e soja não nascem mais. Percebe o que isso significa?” Aparentemente o suco de cevada já falava pelo Abobrinha, e fazia sentido. “Daqui a pouco os professores de ciência da terceira série vão ter que pensar numa experiência diferente de plantar feijão. Pode até ser revolucionário, tipo as crianças aprendendo a montar microchips.....acho que na China deve ser assim”, completei, escutando a risada da Julia cada vez mais perto e alto, e sentindo a agonia crescer no estômago.

A banda subiu no palco, e sai correndo muito louco para o centro do furdunço quando os primeiros acordes de Man in the Box, do Alice in Chains, tocaram o terror no planeta dos elefantes voadores que o LSD tinha transformado o meu cérebro. “I'm the man in the box.....buried in my shit........won't you come and save me......save me.....” Eu gritava alto. Queria que a Julia escutasse. Queria que ela me salvasse. Queria que ele me visse como via o cara que ela estava beijando quando o Dr. Prozac mandava Basket Case do Green Day e eu berrava alucinado. “Sometimes I give myself the creeps.....sometimes my mind plays tricks on me......it all keeps adding up......I think I'm cracking up......am I just paranoid?.....or am I just stoned?” Não sei muito bem porque, ou sei, mas sinto que a gente esta conectado de alguma forma, como dois personagens da Clarice Lispector destinados a complicada felicidade. Não é uma energia idiota cósmica qualquer, ou o Modern Love barato do David Bowie. Parecia que era alguma coisa que a gente sentia um com o outro, mas não conseguia fazer nada sobre isso. Era como se fosse o fim para tudo e a resposta para todas as perguntas. Tenho um pouco de medo desta........sei lá........coisa. As vezes acho que poderia enfrentar todo este medo. Acho que ela também sabe disso.

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