AMEAÇA AO REI

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Hideraldo Montenegro · Recife, PE
13/8/2015 · 0 · 0
 

Amostra do texto

PRETO E BRANCO
Um romance iniciático
-A dialética como dinâmica da evolução do espírito humano-


Medimos uma obra de arte por seu valor estético. Num romance, por exemplo, não basta uma boa história ou um bom enredo, a forma como isto é escrito é determinante também para definir sua qualidade.
Neste romance, ou melhor, nesta novela, os personagens não são descritos (podem ser qualquer um). Eles não têm idades, faces e nomes. Também a época e lugar que envolve os personagens não são definidos (pode ser em qualquer lugar ou em qualquer época). Há um caráter universal nos personagens que não são vestidos e caracterizados, exceto por suas ideias.
Nesta novela não existe uma história propriamente dita. Ela não gira em torno de um acontecimento ou de um fato que transcorra entre a opção do certo ou errado. E, é justamente essa condição insólita que a torna surpreendentemente contundente quando nos faz mergulhar no universo abstrato dos personagens. Temos a oportunidade de assistir imparcialmente o desenvolvimento do pensamento do personagem central narrador, contudo, parece que ele nos vai alfinetado nos transcorrer da narração e provocando uma empatia inquietante de suas ideias.
A personagem central diz não jogar e joga o tempo todo, inclusive com o leitor.
Embora, não seja inusitado o uso de certas colagens em literatura, o autor em alguns trechos da novela ousa inserir artigos, poemas e asserções místicos filosóficas e em alguns momentos o leitor fica na dúvida se está lendo um romance ou teorias artísticas, teológicas, místicas e filosóficas. Mas, isso só está nesta novela como está na vida. A narrativa não fica presa a estas inserções. Elas apenas fazem parte de trechos e não determinam ou mudam o curso do enredo, na verdade elas são provocações que vão se encaixando e provocando o leitor. Somos movidos pelo pensamento da personagem central e este se move pelas perguntas que vão surgindo. Na verdade, há apenas uma pergunta central: o que é a vida?
A personagem parece fugir desta resposta, mas ela ousa responder. Ou melhor, ela acha que o movimento da vida já impõe esta resposta e ela propõe o viver como forma de chegar-se à resposta.
A personagem central aponta a transcendência com via de apreensão da vida e uma destas vias transcendentes é a poesia. Para tanto, é necessário entregar-se ao viver, ou seja, é preciso viver plenamente para sentir a vida. Essa é a proposta e resposta do personagem central à pergunta do seu interlocutor.
Nem tudo que você pensa é verdadeiro, mas tudo que você sente o é.
O personagem central propõe o sentir como ferramenta para alcançar a resposta do que seja a vida. E, esta resposta é intraduzível. Para entender a vida só se pode vive-la, senti-la. Não há uma resposta direta como numa pergunta: onde está a porta? A resposta é pessoal e intransferível. Só há uma forma de alcançá-la: vivendo-a.
As perguntas são usadas aqui como a dinâmica do personagem central e, sem se dá conta, ele é movido por elas. As perguntas obrigam o personagem a pensar por si mesmo e isto provoca as transformações e aberturas no posicionamento desse no tabuleiro da vida, ou melhor, a vida não é só contemplação, mas ação e, esta ação no pensamento, é produzida pelo questionamento, pela reflexão.
Há um contraponto entre os personagens e o jogo dialético entre ambos nos deixa vislumbrar alguma fresta de luz, como duas pedras se atritando e provocando faíscas.
O fato é que o “Fazedor de Perguntas”, a personagem que interpela o personagem narrador, move este com suas inquietações e faz das indagações a dinâmica da própria evolução do personagem central, colocando-o num impasse consigo mesmo.
Aquele que senta à nossa frente é nosso espelho. O oposto igual a nós mesmos. Representa as nossas contradições e foco diverso do olhar.
Esta novela nos conduz pelo universo existencial e provoca em nós uma abertura. Assistimos o desenrolar do pensamento do personagem central e somos envolvidos por ele. Não saímos desta leitura da mesma forma que nela entramos. E, este é o mérito e importância da leitura desse romance que tem o pensamento como personagem central.
Mas, este é um livro que precisa ser interpretado através dos símbolos.
Á princípio, esta novela parece descambar para a futilidade erótica. Ledo engano. Lembrança recorrente da nudez feminina é usada como símbolo da fertilidade, delicadeza e vida em oposição à fria e inerte teorização.
De fato, além da aparência, este é um romance esotérico e precisamos alcançar aquilo que não é dito, mas sugerido para entendê-lo em sua plenitude. Quando o personagem central olha e aponta para a rua está apontando muito mais do que é visto objetivamente e é isso que outro personagem não entende nem alcança. É desta forma, que também precisamos ir além dos limites das palavras impressas nessa novela.
O conflito entre o teórico e o prático é simbolizado pelas personagens que, de fato, representam apenas uma única pessoa. Razão x emoção, o material x o abstrato, etc., vão conduzindo o jogo. É a luta entre o Eu Exterior e o Eu Interior. Enfim, o romance vai conduzindo o leitor por meandros perturbadores e instigantes da vida e do viver.
Tudo aqui é alegórico. Tudo aqui é simbólico. Por exemplo, uma personagem representa a razão e, a outra, a emoção. Ambas têm suas limitações. Ambas estão confinadas num universo limitado e precisa da complementaridade da outra. Só a liberdade pode fazer a alma resplandecer em toda a sua plenitude na vida. Este é o jogo e ambas só podem sair vitoriosas, de fato, quando a alma florescer e, para tanto, ambas precisam se libertar.
O ego está no centro desta luta e tenta se impor à alma, mas no fim o jogador consegue abandonar o próprio jogo estabelecido pelo ego e, não jogando o seu jogo, vence a partida.
No final, podemos imaginar que na verdade só existe um personagem e que o livro retrata a batalha que ele trava consigo mesmo. É a luta da alma para superar o ego.
Enfim, o leitor é também despertado para esta luta e percebe e se percebe num jogo que precisa ganhar: vencer a si mesmo.
Por último, o autor nos coloca em xeque. Deixa-nos uma grande reflexão ou nos coloca numa.
E, o que começou com uma pergunta, termina com uma pergunta. Uma provocação para mover-nos. Um impulso para sairmos da inércia em que somos colocados pela tv e pela cultura consumista.

Sobre a obra

ROMANCE INICIÁTICO

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Hideraldo Montenegro
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