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Bom Fim Parisiense

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ratner · Porto Alegre, RS
16/3/2011 · 1 · 0
 

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Bom Fim parisiense



O bairro Bom Fim, um dos mais antigos e tradicionais de Porto Alegre, ao longo de sua história passou por diversas “mutações”, a exemplo de várias outras regiões da capital gaúcha. Mas apresenta características bastante peculiares, que merecem ser ressaltadas.
No final do século XIX e no início do XX, a região onde hoje se situa o bairro integrava a chamada “Colônia Africana”, povoada em grande medida por ex-escravos e seus descendentes. Segundo os estudiosos da cultura negra da Capital, a colônia abrangeria os atuais bairros “Cidade Baixa”, Mont’serrat, Rio Branco e Petrópolis (seguindo o “Caminho do Meio”, ou seja, a atual av. Protásio Alves), aproximadamente. Os campos da Redenção (transformados no Parque Farroupilha na década de 30 do século passado, ao ensejo de sediarem em 1935 a grande Exposição Estadual, comemorando o centenário da Revolução dos Farrapos) serviriam como refúgio para escravos que escapavam de seus senhores, ainda antes da Lei Áurea.
O marco fundador referencial do Bom Fim propriamente dito, ao que parece, foi a edificação da igreja de mesmo nome. O local onde hoje é o Parque Farroupilha, antes de sua criação como o conhecemos atualmente, também recebia tropeiros que ali acampavam, trazendo seus rebanhos, e posteriormente abrigou um velódromo e um hipódromo, dentre outras atividades que eram desenvolvidas naquele largo “charco” situado em plena região circunvizinha ao centro da cidade.
Com as constantes imigrações que aportaram aqui, a partir do século XIX, na ocupação desta região da capital meridional aos poucos foram se somando, aos descendentes ibéricos, bugres e negros, dentre outros, os alemães e os italianos.
Os alemães, a bem da verdade, de um modo geral ocuparam mais a região limítrofe com o Moinhos de Vento e o bairro Floresta, na “fronteira” entre os bairros que é delimitada pela Av. Independência. Assim, pode-se considerar que a presença alemã era mais significativa no chamado “Alto Bom Fim”. A Av. Independência caracterizou-se por ser um logradouro que, na continuação do caminho da rua Duque de Caxias (endereço da elite “pelo duro”, que costumava morar na “Cidade Alta”, enquanto o povo mais simples, na ocupação da zona central, geralmente se situava na “Cidade Baixa”; destes imóveis centenários, o exemplo vivo é o belo “Solar dos Câmara”) em direção aos bairros, abrigou casarões de famílias tradicionais, alguns dos quais ainda estão “intactos”, como é o caso daquele em que funciona o Restaurante Chez Philippe e o Beco (antigo Encouraçado Butikin). O comércio e a indústria em Porto Alegre, na virada do século XIX para o XX, tinha forte presença alemã, uma vez que muitos dos imigrantes e seus descendentes, que inicialmente ocuparam especialmente o Vale dos Sinos, aplicaram seus “excedentes” na abertura de casas de comércio, fábricas, e negócios em geral na Capital. E é assim que vários destes prósperos comerciantes/empresários de origem alemã passaram a construir suas belas moradas em tais regiões da cidade, inclusive na Av. Independência, dividindo o espaço com os casarões edificados pelas famílias tradicionais burguesas e de origem estancieira.
Os italianos também marcaram forte presença no comércio e indústria de Porto Alegre, e se espalharam por diversos bairros. Os que se fixarem no Bom Fim criaram a longeva Sociedade Italiana, que está em pleno funcionamento até hoje, na sede localizada na esquina da rua Cauduro com a João Telles.
Já no início do século XX, os judeus que foram chegando à Capital gaúcha começaram a ocupar os modestos imóveis do “Baixo” Bom Fim, geralmente correspondentes a casinhas geminadas de porta e janela. Alguns vieram em imigrações “avulsas”, diretamente para Porto Alegre, outros eram egressos das colônias agrícolas judaicas de Phillipson (Santa Maria) e Barão Hirsch (Erechim). Assim é que aos poucos, ao longo do século XX, o Bom Fim passou a ser carinhosamente chamado pelos membros da comunidade judaica de “gueto”, porque além de comportar a maior parte dos integrantes desta etnia, o bairro concentrou as diversas instituições da comunidade judaica (colégio, clubes, sinagogas, associações, etc.).
Os homens da comunidade judaica costumavam frequentar bares localizados especialmente na Av. Oswaldo Aranha, onde “batiam ponto” diariamente. Meu pai, exímio jogador de sinuca, era um dos habitués do Bar Serafim (ou “Fedor” - “Schtink” em ídiche, localizado na esquina com a Felipe Camarão, que pegou fogo quando uma família de uruguaios decidiu criar uma pizzaria-casa de empanadas, bem ao lado; daí, depois do incêndio, a casa foi demolida, e o edifício que atualmente ocupa o espaço foi levantado, isto no início dos anos 80) e do Bar João. Tais bares, aliás, eram espaço de convivência frequentados não apenas pelos judeus de todas as classes sociais e ofícios, mas também por estudantes, trabalhadores, boêmios, vagabundos, vigaristas, meliantes, empresários, profissionais liberais, intelectuais, reunindo uma das mais ricas e diversificadas “faunas” de Porto Alegre, que dividiam o espaço, no mais das vezes, de forma harmoniosa, na medida do possível. Esses estabelecimentos funcionavam praticamente de forma ininterrupta, de maneira que ocorria um certo “revezamento” de público: geralmente o pessoal da sinuca ocupava o turno do dia, estendido até às 22h; a partir do final da tarde, estudantes e “outsiders” em geral começavam a comparecer, ficando até o amanhecer. Eram verdadeiros botecões “pés-sujos”, com enorme balcão e as mesinhas comuns com cadeiras simples de madeira. O aspecto “esquizofrênico” do público frequentador se revelou de forma mais acentuada especialmente nos anos 80, quando o Bom Fim se firmou como o endereço certo da juventude roqueira das mais variadas tendências (metaleiros, punks, new wavers, hippies e malucos em geral), e que tomavam o Bar Ocidente como ponto de referência. No Fedor eu não cheguei a ir muito, pois ainda era meio pequeno quando o bar encerrou as suas atividades. No Bar João eu ia seguidamente, até porque minha mãe constantemente me mandava ir lá ver se estava tudo bem com o meu pai; ocorre que, uma vez, jogando no carteado, ele sofreu uma parada cardíaca dentro do bar, e se salvou por milagre, após ser removido ao HPS. Meu pai faleceu alguns anos após. Ele tinha o seu taco de sinuca guardado em um dos armários “particulares” do bar. Ali assisti algumas boas pelejas de bilhar: uma vez, vi o confronto entre um ladrão que havia saído na condicional, do Presídio Central, e um empresário que estacionava o seu mercedes bem na frente do João. O pior é que o empresário era muito bom de taco e “rapou” o ladrão, que, apesar de não ter um “merréis”, teve que fichar. No Bar João não tinha grita, quem perdia pagava, independentemente de sua situação financeira e posição social, eram as regras do jogo. Eram proverbiais os “licores” que guarneciam a parede atrás do balcão, das mais variadas espécies (butiá, laranjinha, etc.), devia haver mais de uma centena, que eram cultivados em vidros grandes de conservas que antes haviam abrigado pepinos e cebolas. Havia inclusive o licor de “cobra”, no qual uma incauta jararaca era “conservada” no álcool, dando um sabor especial à cachaça. Em termos de “comes”, ao que me lembre, o bar não se destacava, ficando nos tradicionais sanduíches “farroupilha”, croquetes, coxinhas, etc., além do famoso ovo vermelho em conserva, cujo vidro sempre guarnecia o balcão. Moacir Scliar, que lamentavelmente nos deixou cedo, no livro “A condição judaica”, fez uma bela descrição do clima destes bares do Bom Fim. Scliar, indiscutivelmente, está para o Bom Fim como Isaac Bashevis Singer está para a Varsóvia e Kafka para a Praga pré-shoah.
O Bom Fim, já no final da Oswaldo Aranha, esquina com a Sarmento Leite, abrigava nos anos 70 os bares Alaska (muito frequentado pela juventude estudantil engajada), Estudantil, Copa 70 e Mariu’s, que constituíam a antológica “Esquina Maldita”, símbolo da resistência à ditadura militar na Capital gaúcha, bem na frente da Faculdade de Arquitetura da UFRGS e próximas às Engenharias.
Havia, claro, também estabelecimentos ligados à “colônia” e que vendiam produtos típicos da culinária judaica, tais como o Armazém Internacional (atual sorveteria Kronk’s) e, na esquina da Felipe Camarão com a Henrique Dias, um armazém que, além de produzir um ótimo sorvete, confeccionava os inigualáveis “quichalach”, umas bolachinhas assadas maravilhosas que nos transportavam imaginariamente para algum “shtetl” da Europa Oriental pré-Holocausto, bem como strudels e outras guloseimas espetaculares. Nos meus tempos de Dror Habonim, ali era o “point” dos lanches nas tardes de sábado. Na esquina da Ramiro Barcelos com a Oswaldo, funcionou por um tempo um estabelecimento que fazia iguarias da cozinha idish, mas não durou muito. Também, onde hoje há um restaurante self-service, e em cujo prédio funcionava antes a Churrascaria do Bom Fim (ali os “gringos” das Churrascarias Princesa Isabel e Dom Henrique começaram, com ótimas costelas “a la carte”), durante um tempo um judeu israelense abriu o restaurante Sabra, com comidas israelis (que na verdade correspondem, no mais das vezes, a iguarias árabes, tais como o falafel). Mas também não funcionou por muito tempo. Atualmente há a delicatessen Sabra, na frente do Zaffari da Fernandes Vieira, mas não sei se existe algum vínculo entre um e outro, acho que não. Ao que parece, aquele rapaz voltou para Israel. A Padaria Cruzeiro, na frente do Pronto Socorro, produzia também belos pães de cebola e papoula, dentre outras especialidades.
Havia um bar na esquina da Ramiro com a Oswaldo que fazia um excelente mocotó aos sábados, e o mocotó de um outro que se localizava na esquina da Jacinto Gomes com a Venâncio também era bom.
Como dissemos, a criação do Bar Ocidente, no início dos anos 80, e também do Escaler, do Luar Luar, e do Cais, bem como da Lancheria do Parque - somados a outros botecos semelhantes ao João que já funcionavam antes, tais como o bar Redenção, o Lola, e, até um certo ponto, o Cacimbas - radicalizaram a tendência do Bom Fim de se constituir como pólo de atração da juventude ligada ao rock, além de congregar os estudantes e os alternativos em geral, mas sempre mantida a mistura com boêmios, vagabundos, deserdados e outsiders de toda a cidade, enfim, aqueles que, em nossa condição de “intelectuais” universitários da UFRGS e “sociólogos de mesa de bar” classificávamos como “lumpesinato”. Uma figura única que, por exemplo, sempre estava em algum dos balcões dos bares da Oswaldo Aranha era a Teresinha Morango, torcedora fanática e símbolo colorado, que, por se sentir desprestigiada pela diretoria do Inter, virou gremista... uma vez conversei com ela no balcão da Lancheria do Parque, e concluí que ela não batia muito bem mesmo. Aliás, a Lancheria pode ser apontada como o único exemplar “vivo” do estilo destes antigos bares do Bom Fim, o único estabelecimento que se encontra de pé. Não se pode esquecer também do “Fumódromo” da Redenção, que atualmente foi “saneado” pelo parque de diversões “Zapt-Zum” (antigamente o parque era bem na calçada da José Bonifácio), junto ao Mercado. No Mercado, em um de seus estandes, está atualmente postado o tradicional Zé do Passaporte, que antes ficava num trailer, servindo o seu famoso cachorro quente, que, posteriormente, foi substituído em sua fama pelo Cachorro do Rosário. Falando em lancherias, em uma portinha, próxima de onde hoje funciona a Livraria Londres, ficava o Kripton, que alcançou boa fama, e depois foi para a Goethe. A Sorveteria Nevada (bem na frente do Pronto Socorro) também marcou época com suas proverbiais taças melba e banana- split, servindo ainda bons lanches. O Zé do Pão, na Venâncio Aires, perto da Oswaldo, destacou-se como um dos primeiros estabelecimentos a se dedicar às comidas naturais, vocação do bairro que depois se acentuou com a criação da Colméia e do Prato Verde, dentre outros restaurantes.
Outro fator de atração para a juventude estudantil no Bom Fim era o cinema. Ali ficavam, onde hoje há um estacionamento, na Oswaldo, o Cinema Baltimore e o Bristol. O Bristol, junto com a Sala Vogue (na Independência), e, em menor grau, o ABC e o Capitólio, eram os cinemas que passavam “filmes cabeça” em Porto Alegre, antes do Guion e das salas especiais (da Casa de Cultura Mário Quintana, do Ponto de Cinema e da sala da UFRGS).
A escalada da violência gerada pelo tráfico de drogas que era praticado de forma aberta na av. Oswaldo Aranha levou a que os moradores, congregados pela Associação do Bom Fim, se mobilizassem para enfrentar o problema. Então, medidas restritivas, tais como o horário de fechamento mais cedo dos bares, e a presença mais ostensiva da Brigada Militar, levaram pouco a pouco a um certo esvaziamento dos botecos da região enquanto local de reunião do público jovem. Assim, gradativamente, a maior parte deste público “alternativo” foi se pulverizando em outras regiões da cidade, notadamente a Cidade Baixa. Sem embargo, o Bom Fim, ao longo deste processo, foi construindo nos últimos anos um novo perfil, ainda boêmio, mas um pouco mais “família”, menos “barra pesada”.
Além do Ocidente, que se notabiliza como espaço único, por suas características, em termos de noite portoalegrense, congregando eventos como os shows do projeto “Ocidente Acústico”, o “Sarau Elétrico”, e consagradas festas, dentre outras inúmeras atividades lúdico-artístico-culturais, e também gastronômicas (o almoço ali é muito bom), foram surgindo locais bem interessantes, que vêm trazendo um ar, digamos assim, mais parisiense, ao velho “Bomfa”. Bem ao lado do Ocidente, abriram dois cafés bacanas, o Café da Oca, e o café “A cavalaria vermelha de Isaac Babel”. Na Fernandes Vieira tem o “Café na Paleta”; dentro do Zaffari também tem um café legal, e bem na esquina com a Henrique Dias há um simpático bar-café, com mesinhas na rua. Na locadora “Espaço Vídeo” também há uma cafeteria; na consagrada livraria Palavraria, na esquina da Vasco da Gama com a Fernandes Vieira, colada à locadora, também funciona um café. Também dá para tomar um bom café na esquina da João Telles com a Vasco, onde funciona uma bela “patisserie” (explicitando esta tendência “francesa” que intuimos), com pães especiais e café, chamada “Carina Barlett”. A tradicional Confeitaria Barcelona e uma outra que abriu ao lado do Sabra, na Fernandes (esta especializada) em doces uruguaios, também são uma ótima opção para um bom café. Próximo ao Kronk’s, na Felipe, há um café, e na esquina da Ramiro com a Bento Figueiredo, o Listo. Ah, não dá pra esquecer do tradicional bar Vermelho 23 (onde cheguei a fazer show), como opção noturna. E, já saindo um pouco em direção à Santana e à Cidade Baixa, tem o tradicional Bar do Beto, o Papillon, o “Se acaso você chegasse”, dentre outros. Isto para ficar em apenas alguns estabelecimentos interessantes.
Enfim, é assim que o Bom Fim vai constituindo um novo perfil no início deste novo milênio, talvez um pouco menos agitado do que era há alguns anos atrás, numa boemia, digamos assim, mais “calma”. Mas o bairro, sem dúvida, continua figurando como um dos mais pulsantes da Capital gaúcha, incrementando inclusive o notável viés cultural que sempre o caracterizou.

Sobre a obra

O texto trata da história e da situação atual do bairro Bom Fim, importante reduto cultural de Porto Alegre, a capital gaúcha.

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Rogério Ratner
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