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Fomos ver ontem a exposição em homenagem ao Bom Fim, no Museu da UFRGS. É espetacular!!! ImperdÃvel!!!!
Muito bem cuidada do ponto de vista visual, reúne fotos antigas e atuais, cartazes de shows, artigos de jornais, objetos, etc., com painéis explicativas, resgatando não apenas fatos relevantes ao bairro em que me criei, mas inclusive da história da Capital Gaúcha.
A exposição foi dividida em módulos. Há um que trata das origens do bairro, que gravitou em torno da abertura do "Caminho do Meio". Há fotografias preciosas da abertura, ampliação e urbanização do "Caminho do Meio", denominação antiga das avenidas Oswaldo Aranha e Protásio Alves.
Um módulo relaciona o bairro com a Colônia Africana, quando o mesmo não se distinguia muito do que hoje é denominado como Rio Branco. Foram expostas fotos dos escravos e ex-escravos, com o assinalamento de que o campo da Redenção (hoje Parque Farroupilha, o qual foi criado para a exposição do centenário da Revolução Farroupilha, em 1935) servia de refúgio e área de escape para membros da população negra, antes da abolição, e, depois, como espaço de convivência, ou pólo de "batuques", conforme denominou estas reuniões Walter Spalding, em livro acerca da história desta etnia em Porto Alegre cujo excerto foi reproduzido no painel.
Outro módulo trata dos imigrantes que chegaram já no final do século XIX e outros que vieram no século XX. É o caso dos italianos, e constam fotos da construção da sociedade italiana, prédio centenário que ainda continua firme e forte na esquina das ruas Cauduro e João Telles.
Há destaque também para o "gueto judeu" (no sentido carinhoso, claro) em que de certa forma se transformou o bairro a partir dos anos 20, com depoimentos de Moacir Scliar e de vários moradores, recolhidos do acervo do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, que contêm belas fotos e muito enriqueceu a exposição. Há fotos das sinagogas, inclusive do Poilisher Farband (sinagoga dos judeus poloneses, que o meu pai frequentava), prédio que foi demolido para a construção da sede da Federação Israelita do Rio Grande do Sul. A sinagoga existe hoje dentro do prédio da Federação. InteressantÃssimo o destaque que foi dado à contribuição judaica à organização do movimento sindical gaúcho, com o depoimento do jornalista João Batista Marçal, e com fotos destacando a criação dos sindicatos dos têxteis e dos alfaiates por membros desta etnia. Também há um espaço dedicado ao Clube de Cultura, entidade que ainda hoje está funcionando apesar das dificuldades, e que foi criada por alguns "roiter idn" (de viés socialista--progressista-comunista). Dentre eles, parentes do Moacir Scliar, do Flávio Koutzii, dos Rotenberg, etc. Muito bonitas as fotos da homenagem ao Levante do Gueto de Varsóvia, que foi realizada na sede do Clube em 1958, reunindo a comunidade judaica em peso. O Clube de Cultura, além de seu viés polÃtico, teve papel fundamental como espaço alternativo para a música, a literatura, o teatro, a dança, e as artes plásticas produzidas na capital nos anos 60/70.
Outro viés fabuloso da exposição é o espaço dedicado aos aspectos culturais e recreativos. No segundo andar, foi reproduzido um boteco tipicamente bomfiniano, "layout" que hoje, a bem da verdade, só esta "vivo" através da Lancheria do Parque. Há destaque para as histórias da Esquina Maldita, que abrigou os bares Alaska, Estudantil, Copa 70 e Mariu's, de saudosa memória. Também foram aludidos o Bar Ocidente, o Bar João, o Bar Lola, o Bar Redenção, entre outros estabelecimentos "oswaldoarânicos" e dos arredores, que reuniam os "malucos" nos anos 80. No segundo andar há algumas fotos que, infelizmente, não foram identificadas pela organização da exposição. Uma é do Bar Redenção, outra do João (onde o meu pai "batia o ponto" na sinuca, e à s vezes no carteado), que ficava ao lado, outra do Armazém Internacional (onde hoje funciona o Kronk's), mas algumas não conseguimos sacar a que casas se referem... tem uma que parece ser o Lola, mas visto da perspectiva de dentro do bar para a Oswaldo. Faltou uma foto do histórico "Fedor" (Schtink), o Bar do Serafim, talvez o mais paradigmático boteco da fase "clássica" do Bom Fim. Lembro bem do fim do "Fedor": uns uruguaios botaram uma pizzaria que fazia também empanados bem onde hoje funciona um banco, na esquina da Oswaldo com a Felipe Camarão. A pizza, aliás, era muito boa. Contudo, um dia o estabelecimento pegou fogo e o Serafim se foi "no carreto", já que era grudado no outro. Depois construÃram o prédio de escritórios que hoje guarnece o local. Eu devia ter uns dez anos quando isto ocorreu. Foi uma coisa bastante divulgada e que trouxe consternação na "civilização bomfiniana", pois era um histórico local de convivência dos homens "idish", o meu pai ia muito lá jogar sinuca. E também era muito frequentado pela comunidade cultural, pessoal do teatro, música e dança. Além de incluir um público bastante variado e vasto, incluindo bêbados contumazes, batedores de carteira, ex-detentos, eventuais mariposas e o que mais fosse, formando uma "salada humana" das mais ricas, em termos sócio-econômicos-culturais-étnicos-religiosos-antropológicos-sociológicos e o escambau.
Também há um espaço dedicado aos históricos shows realizados no Auditório Araújo Vianna, reunindo a galera roqueira (há "boxes" com souvenirs dos Replicantes, Colarinhos Caóticos, Urubu Rei (grupo teatral Balaio de Gatos), cartazes dos shows, etc. Também são maravilhosas as fotos do acervo de Renato, que, com seu conjunto melódico brilhou nos anos 60 nos famosos bailes, dos quais o mais notório rolava na Reitoria da UFRGS. Um dos cliques mostra o conjunto com a sua crooner Elis Regina (a Pimentinha emprestou a sua voz a diversos conjuntos do gênero, atuando em inúmeras reuniões dançantes, em sua fase "pré-fama" nacional). Dentre os componentes, destaque para o guitarrista (hoje percussionista) Fernando do Ó, o trompetista Luis Fernando Rocha, Carlos Calcanhotto (pai da Adriana), dentre outros músicos muito feras daquela cena. O Luis Fernando VerÃssimo integrou o grupo, mas, ao que parece, não está na foto. Os conjuntos melódicos foram os "pais" dos conjuntos "modernos" ou de iê-iê-iê, surgidos no rastro da Jovem Guarda. Também são esplêndidas as fotos do Arquisamba e do Festival da Arquitetura de 1968 (aparece a cantora Érica Norimar, dentre outros).
Os cinemas Baltimore e Bristol, tão importantes para a vida cultural do Bom Fim, também foram referidos. E ainda há outras coisas mais a ver.
Enfim, há inúmeros atrativos que justificam a visita ao Museu da UFRGS, na exposição que ficará aberta até julho/2011, durante a semana, das 9h à s 18h. Ainda mais que a entrada é franca (grátis). Seria interessante que a organização conseguisse disponibilizar, ao menos neste perÃodo de férias escolares, o estacionamento junto ao Colégio de Aplicação, uma vez que o ponto negativo que se pode apontar é justamente este de não ter um lugar bom para parar o carro. Com as reformas do túnel da Conceição, a região está "minada" de duplas de azuizinhos, sempre ávidos por multar os incautos condutores a torto e a direito por qualquer motivo. Tive que deixar o carro na rua, na Sarmento Leite, em um local que o rapaz do estacionamento da UFRGS disse não ser proibido parar, mas a gente sempre fica em dúvida se não vai ter alguma surpresinha chegando pelo correio, né?
Uma coisa bacana que aconteceu é que na mesma hora em que estávamos lá, um senhor que morava ali em frente (justamente na pista que desemboca no túnel) em uma casa que foi demolida quando desapropriada para dar vazão à obra foi fazer a sua visita. Ele passou informações preciosas sobre o bairro em que morou por anos a fio, para nós e para as simpaticÃssimas guias da exposição. Por exemplo, eu não sabia que ali onde há a pista que vai dar no túnel era tudo ocupado por casas, e que para se ir ao centro, seguia-se pela pista da Oswaldo Aranha reto, passando-se pelos prédios da Engenharia e subindo a João Pessoa-Salgado Filho. Lembro bem da inauguração do túnel, foi um acontecimento na cidade. Todo mundo que tinha carro "precisava" dar uma passadinha pra "inaugurar" a obra, então considerada de proporções gigantescas e inédita; meu pai botou todo mundo dentro do nosso Chevrolet Stylemaster 46 para o mÃtico passeio. Eu devia ter uns cinco anos, por aÃ. Mas não me lembrava de como era a região antes do túnel, e o velhinho deu informações ótimas. Ele era amigo do Serafim e dos demais donos de bares, e soube relatar muitas coisas legais sobre a história do bairro. Por exemplo, onde hoje funciona o Ocidente teria tido um clube de futebol, cujo campo era o Ramiro Souto, e também o bar Extremo Oriente. A exposição aponta que ali também teve sede um grupo sionista juvenil.
Inclusive sugerimos às guias que se pense na possibilidade de deixar algum estudante da Fabico ou da área de cinema "de plantão", pra filmar estantaneamente depoimentos de pessoas que aparecem por lá e têm muito pra contar. Isso seria muito legal, pois com certeza ia enriquecer muito o cabedal de informações, e poderia ser disponibilizado no site da exposição.
Enfim, visitar a exposição é uma ótima pedida. O prédio fica bem na esquina da Oswaldo com a Sarmento Leite. É na mesma calçada do prédio da Arquitetura, pra quem vem do centro, ou da Educação, pra quem vem pela Sarmento Leite.
Acesse o site do Museu para obter mais informações.
Também considero imperdÃvel essa visita (interativa) à essa exposição.
Fui com minhas filhas de 13 e 15 anos, que também adoraram.
Parabéns para o Jonathan que nos acompanhou com muita paciência, simpatia e conhecimento. Muito legal!
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