Busão...

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cavalo_na_chuva · São Paulo, SP
8/3/2006 · 47 · 0
 

A música toca, apenas nos meus ouvidos,
e delimita a ponta de intimidade que
resta dentro da condução. Ônibus, calor,
pessoas. Muita gente nas ruas. O coletivo
lota homeopaticamente. Realidades entram
em choque a cada parada. O trabalhador que
vai e o que vem. O estudante que volta e
o que parte. A mãe, com seus três
filhos(em média), embarca carregando
várias sacolas. Sinal de que a promoção
de algum magazine fez sucesso.

Sobe pela porta o aspirante a executivo,
ou advogado, vestindo seu terno impecável,
tudo em função da escolha. Chinelos, tênis e
sapatos, camisetas, camisas e blusas.
A distinção de quem é quem parte das
aparências. As palavras soltas na atmosfera
identificam os passageiros: cada um
com sua conjugação verbal e gírias. Como fim,
o ponto de chegada. Cada um com o seu.
Você é o que veste, o que fala e para onde vai.

Olho pela janela, como qualquer um
que está ao lado dela no final da tarde.
E a música continua alta nos ouvidos.
Eu, viajando entre o instrumental e o literal
da canção.

-Boa tarde pessoal! Peço a atenção de vocês.

Reação: quem é essa voz que está invadindo meus
ouvidos e perturbando a apreciação da música?
Enfim, minha reclusão foi obstruída.
Choques de realidades, conflito de sons:
uma voz aidética (ironicamente chamada pelos
entendidos de "soropositiva") clama por ajuda.
Alguns centavos que sejam, o suficiente
para o enfermo pedinte dizer:

-Obrigado, Deus te abençoe.

No caso de um "não tenho" ou simplesmente
um aceno negativo com a cabeça, ouça:

-Desculpa incomodar, muito obrigado. Deus te abençoe.

A música perde a preferência nos pensamentos.
Letra e melodia se confundem, dividem espaços
com as idéias alimentadas pela situação.
Imagino a vida de um portador do vírus.
Triste constatação, mesmo que advenha de
minhas inspirações sem conhecer o real.
O mundo parece mais abstrato diante dos
olhos e a partir da reflexão sugerida pelo
ambiente no momento.

Tudo é cheiro, tudo é visual, tudo é instigante.
Sou aquilo, naquele instante. Sinto que estou
mais solidário, triste e cansado, clamando por
um pouco mais de compaixão com aquele que pede
e comigo, que também peço, porém, um final mais
tranqüilo para o entardecer. Assim, sem mais
nem menos, volto para o mundo que monta e desmonta
além da janela. Será que ele era aidético?
Não sei. Já está na hora de descer.

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Autoria
marcelo do Amaral
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