A Ferreira Gullar e Fernando Pessoa
Uma parte de mim
diz que sim,
que vale a pena se a alma
ainda não é pequena;
Uma parte de mim
diz que não,
que a alma é pequena,
e o que valia a pena
morreu de inanição;
Uma parte de mim
fala, a plenos pulmões,
que minha lágrima não é sacrifÃcio,
e que mesmo sozinho,
navegar é preciso.
Uma parte de mim
grita que minha nau naufragou
e minha lágrima aguada,
há eras, secou.
Uma parte de mim
diz que a vida é um rio,
um Tejo, de uma aldeia qualquer,
fugindo do mal-me-quer.
Uma parte de mim
diz que o Tejo é maior
que o rio a correr pela minha aldeia;
rio, há muito, em lama e areia.
Uma parte de mim
é esperançosa visão,
concluindo que viver
é a única conclusão.
Uma parte de mim
é má e não cansa de dizer
que a única conclusão
é morrer.
Uma parte de mim
pede coroa de rosas,
para que seu cheiro amoleça
a maldade que nos acossa.
Uma parte de mim
diz, aos que me afagam,
que coroem-me de rosas –
rosas que se apagam.
Confrontar uma parte
com a outra parte
– o que me lavaria
à vida ou à morte –
valeria em prol da arte?
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