a mulher na tv tem um olhar distante, em que me perco e acabo subtraindo-me da comodidade negligente do lar. Com dificuldade abro a porta do quarto, e trago em uma das mãos o copo de água gelada. Antes mesmo de entrar, observo ali parado e desconfiado a caixa iluminada — o aparelho que sempre esteve ali, que nas manhãs silenciosas reflete convexamente meus passos sonolentos, que nas tardes fica juntando pó e nas noites tingi o quarto de azul. Pensei que relação teria essa falta de relação. Essa condição de espectador só seria outra enganação? quando não estamos presentes é que mais estamos lá, estagnados. É uma relação igualitária ? Não, nãe é. A mulher vendia felicidade na TV, mas o seu olhar, a sua condição humana era maior, mais pura, mais plena, traía suas vontades e dizia o contrário, foi como se magicamente em um instante tudo fosse revelado, e a função falsa de refletir uma sociedade perfeita, livre, e propor condições humanas ideais tivesse sido rompida, e assim pode-se reconhecer naquele reflexo cruel e nada imparcial, no sentido humano contemporâneo, que se perde dentro do próprio ser e não consegue delimitar os próprios reflexos, como o eco da voz.
Tão distante, mesmo olhando diretamente para lente, parecia estar em uma condição sobre-humana, que teria sido desenvolvida não por algo inexplicável, mas sim pela TV, pela luz, pelo estúdio, pela transmissão, quase uma extra-humanização, uma contradição, uma certa vulnerabilidade, uma fuga do controle silenciosa, foi isso que senti, que me segurou na porta, e não tive escolha: entrar ou sair.
Somente naquele momento, naquele olhar, naquela distância que hesitei. Aquilo estava ali desde de que eu nasci, mas somente pensei na TV como um hóspede intruso, um estranho, mesmo sabendo da tristeza dos domingos de tarde. De outra vez tive uma impressão parecida quando vi pela janela do metrô, o jardim de inverno da estação Santa Cecília, que achei bonito, depois distante, depois meio sombrio e inexpressivo: um não-lugar. Ambas situações estive como: espectador, passageiro e ou morador. Agora, a Tv, não sei, era uma espécie de fingimento estranho, avesso, não planejado, um reflexo afogado. Nem tive tempo de considerar aquela quase-presença-humana, desliguei meu pensamento e continuei a assistir, ainda com o copo de água gelada na mão, a presença do inanimado, fingido, num tipo de comunicação, uma mensagem não decifrada, uma nova condição.
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