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Excesso de Bagagem

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peter dreyfa · Florianópolis, SC
19/8/2006 · 68 · 0
 


E mais uma vez tinha que arrumar as malas, me desfazer daquela realidade e partir. Talvez estivesse indo para um lugar melhor, mas isso pouco importava. Na hora de abandonar um lugar, a melancolia sempre me inunda e quase me afoga em pensamentos do que poderia estar fazendo caso não fosse pegar o avião.

Sem falar na preguiça! Colocar as roupas dentro da mala, uma ginástica de escolhas: o que levar?, o que deixar?, sempre carregando coisas demais – uma característica ainda mais acentuada em quem não consegue jogar fora coisas ruins do passado e vive arrastando cada um daqueles erros irreparáveis que cometeu, aonde quer que vá, se lamentando e levando um excesso de bagagem pela vida afora.

É certo que as experiências são importantes e enriquecedoras, que só aprendemos com os erros e situações tristes da vida, mas, cá entre nós, algumas recordações de nossos impulsos impensados, deveriam por bem ser jogados na lixeira do HD saturado de nossa memória fragmentada e atormentada.

Aí tem o trajeto ao aeroporto, a fila do check-in, o atraso, a espera, as chamadas da aeromoça, o ritual de acomodar as bagagens, ouvir mais uma vez sua demonstração com um sorriso artificial ensinando sobre as saídas de emergência, a despressurização da cabine, a mascara de oxigênio, o cinto de segurança, e os procedimentos de praxe.

As turbinas zunem, a maquina acelera e, de repente, estamos voando no ar, um monte de desconhecidos reunidos ganhando o céu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Todos na linha tênue da vida: saber que se o avião cair, provavelmente iremos todos morrer juntos. Talvez, nesse limiar da queda, nos abracemos, façamos declarações de amor à vida e ao próximo, numa lamentável e patética união, só alcançada diante do fim iminente.

E lá embaixo está a cidade. Agora vejo apenas minúsculas pessoas e veículos transitando por um labirinto de edificações, onde vidas são vividas e a maioria delas não se mistura. E lá, na grande confusão da cidade, deixo uma minúscula partícula de minha vida, representada pelas pessoas de meu convívio. Mas elas continuam suas vidas independentes, todas insignificantes como a minha, perante a grande engenharia da cidade.

O que explica que minha falta, não faça falta a ninguém - talvez um pouco para aquela lindinha que deixei para trás, depois de juntos compartilharmos algumas poucas e saborosas horas. Mas até ela se esqueceria de mim com o tempo e a distância, guardando, na melhor das hipóteses, apenas uma bela lembrança.

Fazendo ou não diferença a minha presença ou não naquela cidade, sentiria, ou sentia desde já, no frescor de mais uma partida, a ausência do não vivido, daquilo que poderia ter sido, caso não tivesse que partir, caso pudesse viver de verdade naquela cidade, ou, melhor ainda, caso pudesse viver as mil vidas diferentes a que me propunha, e pelas quais pagava neste momento tão alto preço. O preço da tristeza inexplicável, da dor incontrolável e absurda, por justamente ser a dor do não vivido – uma pequena morte, ainda mais latente que um dia a menos em nossa existência.

Talvez por isso, o peso da mala me incomodava tanto, sempre cheia demais – quisera não andar por ai com excesso de bagagem – carregar nada, viajar leve, como um homem sem memória, a mercê das surpresas do destino, sem a menor noção do que significa a palavra saudade...

...quantas vidinhas pequenas se espremem, e vem e vão, em diversas direções conhecidas no relevo de tão maravilhosa cidade, e se cruzam e se encontram e desencontram e se perdem em seu transito caótico, sem que a esmagadora maioria se importe ou perceba tanta morte? Cada momento morre quando nele se fala ou se cala, e ali do alto, quero inutilmente conhecer, partilhar, me aprofundar em todas essas vidas...

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Autoria
peter dreyfa
Ficha técnica
crônica retirada de uma coletânea reunindo textos do mesmo autor para futura publicação.
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