Ferrugem
Felipe Magnus Gil
11 de janeiro de 2010.
Desde muito cedo, adquiri o hábito de beber água da torneira ou do chuveiro, quando escorre pelo rosto. Quando guri, jogava bola no pátio do meu condomínio, e sempre que cansava, bebia água numa velha torneira. Meus pais sempre me diziam que aquela água não fazia bem à saúde, mas era tão bom o gosto, a sensação, que nunca resistia ao apelo daquela velha bica.
Passado anos, havia praticamente esquecido esse hábito tão banal.
Chego hoje do trabalho, ligo o chuveiro e me banho com a água completamente gelada, tamanho o calor da cidade nessas épocas. A água escorria pelo rosto. Não resisti - bebi vagarosamente aquela água. A mesma sensação boa, o mesmo gosto, de quando piá. Olhei para cima, depois de um tempo, e avisto os furos do chuveiro de plástico completamente enrubecidos. Lembrei dos alertas dos meus pais. Continuei. As memórias eram tentadoras.
Estou cheio de ferrugem.
Prosa do cotidiano - Felipe Magnus Gil
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