Hipoteticamente falando

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Lorenzo Aldé · Rio de Janeiro, RJ
28/9/2010 · 1 · 0
 

Amanhece o dia 4 de outubro e o país acorda atônito. A incômoda sensação de que o ocorrido na véspera foi um sonho se desmancha assim que chegam os jornais. Poucas horas após o fim da apuração, repórteres e especialistas ainda não tiveram tempo de encontrar as possíveis causas para o inacreditável resultado das urnas. Por isso as manchetes se dividem entre a informação bombástica e uma série de perplexas indagações, ecoando as dúvidas na cabeça de todos. “Maior reviravolta eleitoral da história do país”. “Dilma e Marina no Segundo Turno”. “Brasil terá primeira presidente mulher”. “Dilma: 30%; Marina: 28,03%; Serra 27,9%”. “Cientistas políticos divergem sobre causas da virada”. “Escândalos e denuncismo podem ter tirado votos de Dilma e Serra”. “Todos os institutos de pesquisa erram grosseiramente”. “Dilma e Serra cogitam fraudes”. “Marina comemora onda verde”. “‘Não sei o que dizer’, afirma presidente do Ibope”.

Baixada a poeira, o cruzamento dos dados enviados pela Justiça Eleitoral de todas as regiões começa a iluminar a questão. Nunca houve abstenção como a ocorrida no Nordeste: 40% dos eleitores simplesmente não votaram. A esmagadora maioria, dos extratos mais pobres. O fenômeno se repetiu no Norte, nas regiões menos favorecidas de todos os estados e, embora com menor intensidade, nas periferias das grandes cidades. A inédita abstenção justamente nos redutos em que Dilma liderava com folga explica sua enorme queda em relação às pesquisas – perdeu quase 20 pontos. Mas o que explica a abstenção? A resposta não demora a se confirmar, a partir de relatos vindos de todo o Brasil: um terço do eleitorado voltou para casa porque não sabia da obrigatoriedade de apresentar dois documentos para votar. Ou sabia, mas achou que se podia dar um jeitinho. A bem da verdade, o PT chegou a despertar para esta possibilidade, mas tarde demais: o recurso impetrado junto ao TSE para barrar a exigência não chegou a ser julgado.

A disputa do segundo turno é iniciada sob a sombra de um resultado questionável. Juristas discutem se, diante de tamanha abstenção, pode se considerar que o pleito foi válido. Representou a vontade da maioria? Os princípios democráticos foram respeitados? Todas as pesquisas indicavam de duas, uma: Dilma venceria no primeiro turno ou iria para o segundo com Serra. Ao que tudo indica, também Serra foi afetado pelo “efeito dupla identidade” – como passou a ser chamado o fenômeno: perdeu votos entre os mais velhos e entre interioranos conservadores, principalmente na região sul.

Mesmo sob o impacto da inesperada vaga no segundo turno, Marina não perde seu ar salomônico: “Cabe às instâncias responsáveis decidir se a legitimidade das eleições foi de alguma forma abalada pelas novas regras de votação. Aos candidatos, cabe acatar a decisão”. Como se pode imaginar, a discussão varre o país por inteiro, pois diz respeito, também, a todos os outros cargos em disputa: governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Quem mais perdeu com o efeito dupla identidade? Quem ganhou? Discussões infindáveis nos botequins, pontos de ônibus, filas de banco, bancos de bonde, assentos de táxi. Flamenguistas e corintianos deixam de lado angústias e glórias da rodada, todo mundo vira comentarista político. Por vias tortas, a democracia enfim ganha as ruas, a questão do voto por tabela leva a debates sobre os perfis dos candidatos, às primeiras conversas informais sobre programas, demandas, expectativas, a política é assunto nacional. E internacional. “Um gigante paralisado diante das urnas”, estampa o The New York Times. “Eleições em xeque no Brasil”. anuncia o Financial Times. “A vitória de Dilma foi impedida por uma lei eleitoral elitista”, denuncia Hugo Chávez em pronunciamento. “Os Estados Unidos confiam nos mecanismos democráticos e eleitorais brasileiros”, avisa o porta-voz da Casa Branca.

Diante do impasse, TSE e STF, em rápidas rodadas de sessões extraordinárias, até numa segunda e numa sexta-feira, decidem pelo caminho mais simples: confirmam a validade do primeiro turno e mantêm a regra para o segundo. Mas reabrem o prazo para os eleitores tirarem a segunda via do título eleitoral. De imediato, o presidente Lula anuncia um esforço conjunto do Executivo com o Judiciário para promover um “Mutirão da Cidadania”, ou seja, postos emergenciais espalhados pelo país para imprimir os novos documentos. A revista Veja se esguela na capa: “Mutirão do PT ressuscita o voto de cabresto”. Carta Capital rebate: “Velha mídia não quer que pobre vote”. A campanha pega fogo.

Em pleno tiroteio, o tom moderado de Marina é um bálsamo. A opinião pública não tem dúvidas: está com ela. Serra não demora a anunciar seu apoio à candidata do PV. Dilma mostra-se cada vez mais irritadiça, a imprensa reproduz suas gafes e destemperos à exaustão. O grande trunfo da petista perde boa parte de seu apelo: Dilma é a candidata do governo Lula, foi ministra, identifica-se com as conquistas dos últimos oito anos. Marina também, Marina também, Marina também. “O Lula do Lula”, definição cunhada há tempos por Caetano Veloso para falar da atuação de seu amigo Gil no ministério da Cultura, é adotada pela campanha Marina por sugestão dos dois. “Marina é o Lula do Lula”, cantam eles, o jingle faz sucesso, ganha as ruas. Ninguém, nem Dilma, consegue questionar a riqueza da história de vida da candidata acreana, sua origem humilde, suas lutas democráticas, sua sensibilidade social e até (a cereja do bolo) ambiental. Com tempos de TV mais equilibrados, Marina torna-se um nome nacional. Cresce nas pesquisas. Agrada à elite e ao povo, cada qual por seus motivos. Depois de muito treino com os marqueteiros, consegue o mais difícil: reduz consideravelmente o vocabulário tecnicista e ongueiro em seu discurso, ganha espontaneidade, evoca a Marina seringueira e engajada dos velhos tempos, sem perder conteúdo. Na pesquisa Ibope do dia 15 de outubro, já ultrapassa Dilma em intenções de voto: 47% a 44%. No Datafolha do dia 16, a tendência é confirmada. No Vox Populi do dia 17, idem. CNT/Sensus, Ibope de novo, Datafolha de novo, idem, ibidem e abrindo vantagem.

Curiosamente, na reta final da campanha Lula diminui as aparições públicas com Dilma. Suas declarações abrem brechas para interpretações ambíguas. “Minha candidata, como todos sabem, é a Dilma. Mas estou certo de que, seja qual for o resultado, o Brasil vai seguir no caminho certo”. Fervilham as articulações de bastidores. O PMDB deixa escapar conflitos internos. Setores do partido começam a soltar na mídia declarações de insatisfação com Dilma e simpatia por Marina. José Sarney vem a público deixar clara a posição da legenda: “O PMDB está sempre disposto a contribuir com seus quadros para que o governo eleito faça o melhor pelo país”. Lideranças do DEM discutem abertamente a distribuição de cargos. Derrotado na eleição para o Senado, César Maia é tido como nome certo para a pasta de Planejamento. Cobrada a respeito desses rumores, Marina Silva repete o mantra de toda a campanha, acentuado no segundo turno: a composição de seu governo não se baseará em indicações políticas. A prioridade são quadros técnicos. Surpreende ao acrescentar que historicamente sua atuação política não se identifica nem com o PMDB nem com o DEM. E lança um novo termo nos últimos dias, que repercute às maravilhas na imprensa: “Governo de coalizão”. “Afinal”, arremata com requintes de alto civismo, “a legitimidade do primeiro turno foi contestada. A hora é de unir o país, e não de radicalizar oposições ultrapassadas”.

O mutirão para emissão dos documentos surte efeito, a abstenção cai a 15%, mas a esta altura o fenômeno Marina Silva é irresistível. Em 15 de novembro de 2010, de norte a sul, em todos os extratos sociais, a líder ambientalista e ex-seringueira é eleita presidente do Brasil. Em sua primeira aparição para reconhecer a derrota, Dilma surge com uma surpreendente serenidade no rosto, sua voz é tranquila e suas palavras otimistas: “O Brasil soube escolher”. Lula se emociona ao falar da continuidade do “governo popular”. Fernando Henrique elogia a proposta de “programa suprapartidário”. Serra prevê a queda dos juros e mais eficiência na destinação dos gastos públicos. Em poucos dias, todos eles serão anunciados como membros do primeiro escalão do governo de coalizão de Marina.

Dilma no Planejamento. Serra na Saúde. Fernando Henrique e Lula nas Relações Exteriores e Secretaria de Assuntos Estratégicos, respectivamente ou vice-versa, tanto faz – na verdade dividirão a mesma função: passar os próximos anos circulando juntos em eventos internacionais como representantes o Brasil. No ato do anúncio de seus novos cargos, os dois se emocionam e, numa cena que correrá o mundo, se abraçam aos prantos diante dos flashes. Nunca foram tão felizes. Cristovam Buarque na Educação. Frustrando expectativas, quadros famosos do PV estão ausentes do ministério. Gabeira é a ausência mais sentida. Marina volta a justificar sua escolha pelos critérios técnicos e de gestão.

Após serem completamente preteridos na composição do novo governo, PMDB e DEM prometem uma oposição impiedosa. Mas PT e PSDB, governistas, têm maioria no Congresso. Aécio Neves assume a presidência do Senado. Antonio Palloci, a presidência da Câmara. José Dirceu anda sumido. José Sarney, Romero Jucá, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Fernando Collor também. Ninguém dá ouvidos aos desajeitados protestos dos neo-oposicionistas. Índio da Costa, Jorge Bornhausen, Arthur Virgílio, Rodrigo Maia, perdidos, não sabem direito ao que se opor. Nas ruas, o que se vê é uma população quase que em estado de choque. A chegada de 2011 marca o início de um novo capítulo na história política do Brasil.

Outra possibilidade. Marina escala Lula como ministro do Meio Ambiente. Só para inverter seu jingle famoso: agora, “Lula é a Marina da Marina”. E também para dar uma liçãozinha ao velho chefe (sem falar em Dilma, outra pessoa em sua humilde volta ao ministério). Na pasta, Lula aprenderá que nem só com indústrias e grandes obras se faz o desenvolvimento. Reúne-se semanalmente com o vice-presidente Guilherme Leal. Gradualmente, sua política enfraquecerá o agronegócio na Amazônia – redirecionando o crédito rural para atividades ambientalmente corretas –, derrubará o desmatamento a quase zero e promoverá uma revolução social na região. A língua presa ao dizer seu novo mote preferido – “sociedade sustentável” – confere um charme extra ao novo popstar verde. A democracia brasileira é um sucesso, o desenvolvimento do país é exemplo para o mundo. O único senão é que, neste caso, teríamos que abrir mão da comunhão de lágrimas entre os dois ex-presidentes unidos na defesa internacional do Brasil. O que, convenhamos, também seria imperdível.

Você escolhe qual futuro potencial prefere. Afinal, tudo isso é hipoteticamente falando. Quem se anima em falar das coisas como estão?

Sobre a obra

Uma fantasia eleitoral otimista: reviravolta muda o resultado das urnas e afeta as relações de poder no Brasil. Para melhor.

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Lorenzo Aldé
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